Resumo da Recomendação:
Assumimos cobertura de Direcional com recomendação de Compra e preço-alvo de R$ 19,00, com base em análise de FCFE. Vemos uma companhia bem-posicionada na habitação popular por três razões que se complementam. O posicionamento em suas praças já foi comprado, e majoritariamente via permuta, o que faz do banco de terrenos uma opção barata em vez de capital parado. A distribuição é própria e concentra num mesmo stand produtos diversos, de modo que o corretor raramente fique sem opção aderente para quem entra na loja, e cada terreno novo na mesma praça entra numa estrutura de venda que já existe. E o método construtivo de fôrma de alumínio reduz a dependência da mão de obra mais qualificada, insumo que em nossa visão mais deve pressionar o custo no futuro. A variável que decide o resultado, portanto, não é acesso a terreno nem demanda, e sim a velocidade de converter estoque em lançamento, ao passo que desenvolve as operações em praças com potencial de ramp up.
As três razões se encontram no caixa. Similar a outras grandes incorporadoras, a amplitude de posicionamento nas faixas do programa permite repassar o cliente à Caixa quase junto com a contratação, encurtando o ciclo ao receber ao longo da obra em vez de na entrega. Somada à aquisição de terreno por permuta produz um modelo com baixo caixa imobilizado num setor estruturalmente intensivo em capital. A ressalva está do outro lado do repasse: os distratos somaram 16,6% das vendas brutas do Valor Geral de Vendas (VGV) 100% no 2T26 contra 12,2% um ano antes, concentrados em Manaus após a descontinuidade de um subsídio estadual, e sua normalização é a premissa que mais pesa sobre a conversão de vendas em receita ao longo de 2026 e em diante.
Um ponto de venda, vários produtos: ao concentrar a oferta de uma mesma região num único stand, a companhia dá ao corretor alternativas de tipologia, localização e preço para quem entra na loja, em vez de depender de um produto único para fechar a venda. É o que sustenta a estrutura própria de vendas, pouco mais de 60% do total, e ajuda a explicar o giro do estoque, com apenas 2% do VGV em unidades concluídas ao fim do 2T26;
A régua de custo do mercado não serve para a Direcional: a mão de obra pesa cerca de 40% na estrutura do INCC e respondeu por 3,40 p.p. dos 6,52% acumulados em doze meses para agosto, mas a fôrma de alumínio substitui bloqueiro, gesseiro e carpinteiro por operador de painel, deixando a mão de obra em cerca de 25% do custo de obra da companhia. Projetar custo pelo índice cheio superestima a sensibilidade da Direcional ao vetor que domina a inflação do setor. E a assimetria tende a se ampliar: formar um profissional qualificado leva anos, contra treinamento curto para o operador de fôrma, de modo que o ofício especializado reprecifica mais rápido quando a demanda aperta;
O programa subiu até a Riva, e o mix acompanhou: a criação da Faixa 4, com teto de R$ 600 mil por unidade, elevou a fronteira do MCMV até a faixa em que grande parte da Riva já operava, e o efeito veio pelo lado do comprador, com o mesmo produto passando a ser financiado com recursos do programa e não a taxa de mercado, sem exigir mudança de terreno, projeto ou canal de venda. A Riva responde por 35,1% do VGV lançado no 1S26, com margem bruta de 42,9% contra 38,5% do consolidado ex-Riva, e absorveu 45,5% das aquisições de terreno no 1S26;
O terreno já foi comprado, e demandou pouco caixa: o banco de terrenos fechou o 2T26 em R$ 63,1 bilhões de VGV potencial, 26,5% acima de doze meses antes e equivalente a 8,9 anos ao ritmo de lançamento dos últimos doze meses, com reposição rodando 2,1 vezes o consumo no 1S26. Como cerca de 87% do landbank é pago via permuta a custo próximo de 11% do VGV potencial, proporção que subiu para 90% nos 13 terrenos adquiridos no 2T26, a espera entre comprar e lançar imobiliza pouco caixa, o que importa num setor em que o terreno costuma ser a maior imobilização antes da obra. A variável que define o crescimento não é aquisição de terreno nem entrada em praça nova, e sim a velocidade de converter estoque em lançamento. Projetamos VGV lançado de R$ 7,8 bilhões em 2026 contra R$ 7,1 bilhões nos últimos doze meses;
Rentabilidade elevada com balanço de volta ao intervalo declarado: ROE anualizado ajustado de 35% e margem bruta de 40,0% no 2T26, com a alavancagem recuando para 18,0% de dívida líquida sobre patrimônio líquido após a antecipação de R$ 804 milhões em dividendos em dezembro de 2025.
Projeção das demonstrações de resultado: Estabilização do crescimento
Fonte: Genial
Resumo de projeções: Empresa descontada
Fonte: Genial
Overview: Especialização em Habitação Popular
O que é a Direcional hoje? Fundada em 1981 por Ricardo Valadares Gontijo, a Direcional é uma das maiores incorporadoras do país, com especialização em habitação popular via Minha Casa Minha Vida, segmento de demanda ampla, mas cuja viabilização depende de crédito subsidiado e dos parâmetros do programa. Hoje a empresa opera duas marcas, Riva e Direcional, e o número mais desproporcional do balanço é o de terreno. A companhia encerrou o 2T26 com R$ 63,1 bilhões de VGV potencial em banco de terrenos contra R$ 7,1 bilhões lançados nos últimos doze meses, cerca de nove anos de lançamento já comprados no ritmo atual, e no 1S26 adquiriu R$ 6.439 milhões enquanto consumia R$ 3.071 milhões em lançamentos, repondo pouco mais de duas vezes o que gastou. Do lado da venda o trimestre também não deu sinal de escassez, com vendas brutas de R$ 2,0 bilhões, o maior patamar da história da companhia. Com o terreno já comprado e a demanda respondendo, o que resta compreender é a velocidade com que esse estoque vira lançamento e a margem que ele carrega quando vira, num negócio em que o preço tem limite de repasse.
As duas marcas e o que as separam: A marca Direcional atende as faixas mais baixas do programa Minha Casa Minha Vida. A Riva nasceu em 2020 para o cliente de média renda logo acima do teto vigente à época, e a criação da faixa 4, somada à elevação dos tetos das faixas anteriores, levou a fronteira do programa até o preço em que boa parte dos lançamentos da marca já estava. Hoje, cerca de 80% a 85% da Riva se enquadram no programa, que melhorou o funding do comprador sem exigir mudança de terreno, de produto ou de canal de venda. O mesmo lançamento que antes dependia de crédito imobiliário a preço de mercado passou a acessar taxa e prazo de FGTS, e o ganho apareceu na capacidade de pagamento do cliente, não na estrutura de custo da companhia. A distância entre as duas está no preço e aparece no estoque, com ticket médio estimado em R$ 323 mil na Direcional contra R$ 537 mil na Riva. No 2T26 a Riva respondeu por 38% do VGV lançado e 38% do estoque.
Permuta no terreno, alumínio na obra: A administração possui uma condução conservadora do negócio e organiza a compra de terreno para minimizar o capital empregado. Cerca de 87% do banco de terrenos é pago via permuta, com custo médio de aquisição próximo de 11% do VGV potencial, e nos 13 terrenos comprados no 2T26 a permuta subiu para 90%, a 12% de custo. O proprietário do terreno recebe conforme a companhia recebe, o que transfere para ele parte do risco de preço e de prazo e mantém o capital concentrado na obra, e não na aquisição. Na obra, a parede de concreto moldada em fôrma de alumínio, adotada em 2008, encurta o prazo e desloca a composição de custo de mão de obra para material. A troca é de exposição: com a inflação puxada por mão de obra, que é o cenário corrente, a estrutura protege; se o vetor virar para material, ela penaliza mais do que a alvenaria estrutural.
Os números do semestre: A receita líquida somou R$ 2.443,8 milhões no 1S26, 24,7% acima do 1S25, com ROE anualizado ajustado de 35% no 2T26. O banco de terrenos fechou 26,5% acima de doze meses antes. A alavancagem recuou para 18,0% de dívida líquida sobre patrimônio líquido, depois de dois trimestres em 23,0% e 24,0%, patamar herdado da antecipação de R$ 804 milhões em dividendos em dezembro de 2025, e voltou ao intervalo mais próximo ao histórico ideal para a estrutura de capital. Outro ponto de destaque é apenas 2% do estoque está em unidades concluídas.
Management da DIRR3:
Presidente do Conselho de Administração: Ricardo Valadares Gontijo é engenheiro civil formado pela UFMG, sócio fundador da companhia e seu CEO entre 1981 e 2019. Antes disso, atuou como diretor de obras da Andrade Valladares, coordenando projetos habitacionais e equipes de engenharia.
CEO: Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo, graduado em Engenharia Civil pela UFMG, com medalha de ouro da turma, participou do Senior Executive Programme da London Business School. Está na Direcional desde 2004, onde iniciou como Diretor Comercial, e assumiu a presidência da companhia em 2019.
Diretor de Engenharia: Guilherme de Rezende Castanheira, é engenheiro civil formado pela UFMG, com pós-graduação em Engenharia Financeira pela PUC Minas. Possui ampla experiência em engenharia, tendo atuado por 21 anos na EESA Engenharia e participado de grandes projetos para Petrobras e Vale. Está na Direcional desde 2015 e ocupa o cargo de Diretor de Engenharia desde 2016.
Diretor de Engenharia Técnica: Rafael Passos Valadares, é engenheiro civil formado pela UFMG, com pós-graduação em Gestão de Negócios pela FGV e mais de 25 anos de experiência no setor de construção. Atua na Direcional desde 2007, tendo liderado diversas áreas da companhia, e desde 2016 é responsável pelas operações de Engenharia Técnica. Antes de ingressar na empresa, atuou como gerente de engenharia na Andrade Gutierrez e na Vale.
Diretor Financeiro e de Relações com Investidores: Paulo Sousa, é economista formado pela PUC Minas, com MBA Executivo pela Fundação Dom Cabral. Atua na Direcional desde 2011 e atualmente ocupa os cargos de Diretor Financeiro (CFO) e Diretor de Relações com Investidores (RI).
Composição acionária DIRR3
Fonte: Direcional, Genial
Importância do Ótimo Posicionamento nas Praças Atuais:
O modelo comercial da Direcional se resolve dentro do stand, e não no lançamento isolado. Concentrando a oferta de uma mesma região de captação num único ponto de venda, o corretor tem tipologia, localização e preço para oferecer a quem entra, em vez de depender de um produto único para fechar. Quanto mais fundo o estoque por praça, menor a chance de o cliente sair sem produto aderente, e é isso que sustenta a estrutura própria de vendas, hoje pouco mais de 60% do total, num negócio em que o broker terceiro migra para o lançamento mais recente seja de quem for. O mesmo desenho faz do terreno comprado na mesma região um ativo mais produtivo do que a soma isolada de cada projeto, e é o que torna o adensamento uma escolha comercial tanto quanto de aquisição. A contrapartida é o prazo: lançar mais dentro do mesmo raio exige ter comprado ali antes de saber quando lançaria.
Belo Horizonte, Brasília e Manaus são as praças maduras, com posição de liderança e, no caso de BH, estoque próximo de zero, enquanto Recife e Salvador seguem em ramp up. O terreno comprado hoje é o insumo da praça para os próximos anos, e é por isso que o landbank cresce à frente do lançamento sem que isso configure acúmulo ocioso. A permuta é o que torna essa espera barata: o terreno fica parado sem consumir caixa, e o proprietário, remunerado conforme a companhia recebe, espera junto. A parceria com a Moura Dubeux opera na mesma lógica em versão leve, adensando com sócio especialista nas regiões onde a empresa tem espaço para melhora, acumulando conhecimento e reputação no Nordeste. Nossa leitura é de capacidade montada para manter as praças ativas e escalar as que ainda têm espaço de oferta, e é essa a premissa central do caso-base, sem praça nova relevante e sem aumento significativo de preço.
Projetamos VGV lançado de R$ 7,8 bilhões em 2026 e R$ 8,7 bilhões em 2027, contra R$ 7,1 bilhões nos últimos doze meses, com VSO de 49,1% em 2026 ante 53,0% em 2025, e receita líquida de R$ 5,2 bilhões em 2026, partindo de R$ 4,3 bilhões em 2025.
Presença dos segmentos em cada praça: Ainda há espaço para maturação de algumas regiões
Fonte: Direcional
O Programa Subiu Até a Riva:
A Riva nasceu em 2020 para o cliente de média renda, desenhada para operar fora do programa. A Faixa 4, com teto de R$ 600 mil por unidade, elevou a fronteira até a faixa de preço em que a marca já operava, e hoje cerca de 80% a 85% da Riva se enquadra no programa. O mesmo produto, no mesmo terreno e pelo mesmo canal de venda, passou de crédito imobiliário a taxa de mercado para funding do programa.
A consequência que importa é o perfil de caixa. Dentro do programa, a venda só é contratada após a aprovação do financiamento e o banco desembolsa conforme a medição da obra, de modo que o caixa entra ao longo da construção em vez de na entrega. Fora dele, a incorporadora carrega o recebível até a conclusão. A marca Direcional já operava nesse regime; a Riva, não. Com cerca de 80% a 85% da marca hoje enquadrados no programa, boa parte do que era financiado a taxa de mercado, e recebido majoritariamente na entrega, passou a uma estrutura de funding que paga a companhia enquanto ela constrói. Isso aparece nos nossos números: a dívida líquida de R$ 345 milhões em 2025 vira caixa líquido em 2026, com FCFE de R$ 869 milhões, R$ 1.086 milhões e R$ 1.104 milhões entre 2026 e 2028.
O enquadramento também sustenta o volume. A Riva responde por R$ 2,2 bilhões dos R$ 7,8 bilhões que projetamos lançar em 2026 e por R$ 2,6 bilhões dos R$ 8,7 bilhões em 2027, e esses tickets só são absorvíveis nessa escala porque o comprador acessa taxa e prazo de FGTS. Não tratamos o mix como uma história de margem. A Riva roda a 42,9% de margem bruta contra 38,5% do consolidado ex-Riva, mas a participação da marca nos lançamentos termina nossa janela perto de onde começou, ao redor de 44%, de modo que o mix atenua em vez de elevar: projetamos a margem bruta consolidada caindo de 40,2% em 2026 para 37,6% em 2030, patamar acima da sua margem recorrente.
O curto prazo corre contra a marca. Os lançamentos Riva caíram 7,4% a/a no 2T26 e as vendas líquidas 13,3%, com VSO de 21% contra 27%, e carregamos isso na projeção, com a participação da marca nos lançamentos em 35,0% em 2026 antes de recuperar. O que nos diz que a direção não mudou é para onde o terreno está indo: a Riva é 33,2% do banco de terrenos mas absorveu 45,5% das aquisições do 1S26, e terreno comprado hoje é o que se lança daqui a três a cinco anos.
Atuação da Direcional por Faixa: Presença em todo o MCMV
Fonte: Direcional
A Decisão de 2008 Está Pagando Outra Conta:
Lançar mais só melhora o resultado se a margem sobreviver ao caminho, e há uma restrição concreta: no crédito associativo o preço trava no repasse e não há reajuste até a entrega. Com o preço fixo e o custo correndo, a margem vem de custo, ou não vem. A Direcional trouxe a fôrma de alumínio em 2008 para resolver volume, quando era a maior operadora do faixa 1 e vendia projetos inteiros à Caixa quando o programa lançou: parede de concreto moldada de manhã, concretada à tarde, desformada no dia seguinte. O que ninguém estava resolvendo naquele momento era exposição a custo de mão de obra de hoje, porque a fôrma substitui bloqueiro, gesseiro e carpinteiro, ofícios especializados de canteiro, por operador de painel. Dezoito anos depois, com o custo de trabalho como vetor dominante da inflação de obra, é essa a conta que está sendo paga.
A composição de custo da Direcional, portanto, não acompanha a do índice que baliza o setor. Na estrutura do INCC, Mão de Obra pesa cerca de 40%, com o restante distribuído para Materiais e Equipamentos e Serviços. O ciclo atual é inequivocamente de trabalho: o grupo respondeu por 3,40 p.p. dos 6,52% acumulados em doze meses em agosto. Na Direcional, a mão de obra representa cerca de 25% do custo de obra, contra 35% a 50% em alvenaria estrutural, de modo que projetar custo pelo índice cheio embute 1,6 vez mais sensibilidade do que a real ao vetor dominante.
E a assimetria tende a se ampliar. A oferta de material escala com preço; a de trabalho de canteiro, não: formar um profissional qualificado leva anos, a idade média no setor vem subindo e a base jovem migra para ocupações de jornada mais flexível, enquanto a redução de jornada em tramitação atua exatamente sobre essa mesma ponta. Por isso preferimos companhias estruturalmente menos expostas ao custo de mão de obra especializada. Vale a ressalva simétrica: um choque de insumos pesa mais sobre quem constrói em fôrma de alumínio do que sobre a alvenaria, já que o produto moldado consome mais cimento e aço. É a condição que inverteria a vantagem, e é por isso que monitoramos a decomposição do INCC, e não o índice cheio.
Projeções de VGV % Direcional por segmento: Vemos estabilização da Riva próximo de 40%
Fonte: Genial, Direcional
De Olho nos Dividendos:
A empresa tem um objetivo claro com a alavancagem, que seria manter a dívida líquida sobre patrimônio líquido entre 10% e 20%, gerar caixa até encostar no piso e voltar a alavancar via distribuição até o teto. Com ROE anualizado ajustado de 35%, a companhia comportaria alavancagem maior, e a opção por não usá-la é a escolha conservadora num setor intensivo em capital, movimento que vemos como positivo.
O que dá credibilidade à regra é o que aconteceu quando ela apertou. Em dezembro de 2025 a companhia antecipou R$ 804 milhões em dividendos para queimar reserva já tributada à frente da nova regra de tributação, e o preço disso foi sair do próprio intervalo: a alavancagem foi a 23,0% no 4T25 e 24,0% no 1T26. A companhia passou o 1S26 desalavancando para voltar, e fechou junho em 18,0%, dentro do intervalo. O intervalo, portanto, cedeu a uma janela fiscal e não a uma dificuldade, e foi recomposto pela geração de caixa da própria operação.
Daí a nossa leitura do histórico. A companhia busca ser uma das grandes pagadoras da Bolsa, com duas distribuições por ano, e as duas quebras recentes dessa sequência têm causa identificada, nenhuma delas deterioração operacional. 2023 foi ano de mínimo obrigatório porque a companhia acabara de captar em follow-on e distribuir teria contradito o discurso da própria oferta, e 2026 tende ao mínimo porque a distribuição de dezembro antecipou o que sairia agora. As duas exceções são de aproveitamento de janela, uma de crescimento e outra tributária, nunca de falta de caixa, e isso nos parece mais informativo sobre a disciplina de capital do que payout de um ano isolado.
Olhando à frente: o payout sobe porque o crescimento desacelera. Depois de lançamentos crescendo 21,6% ao ano entre 2021 e 2025, a taxa está caindo por decisão, a necessidade de capital cai junto, e quando lançamentos, vendas e receita se equalizarem o caixa passa a bater com o lucro sem razão para reter. O ano corrente é o piso da história, não o retrato dela: 2026 carrega a distribuição já antecipada em dezembro, e é a partir de 2027 que a curva começa a aparecer. Projetamos payout de 45% do lucro em 2027, 65% em 2028, 80% em 2029 e 100% de 2030 em diante. Entendemos que estes valores estejam provavelmente mais conservadores e a administração pode chegar a uma distribuição mais agressiva antes do que indicamos.
Tabela comparativa com pares – Consenso
Fonte: Genial, Economatica, Bloomberg
Pontos Positivos e Oportunidades:
Estoque de terreno que sustenta anos de crescimento sem nova aquisição: R$ 63,1 bilhões de VGV potencial ao fim do 2T26, equivalente a 8,9 anos ao ritmo de lançamento dos últimos doze meses, com 254,5 mil unidades. Como 87% do landbank é pago em permuta, a um custo médio de 11% do VGV potencial, o capital imobilizado nesse estoque é baixo e a espera entre comprar e lançar custa pouco caixa;
Estrutura de custo menos exposta ao vetor que domina a inflação do setor: a fôrma de alumínio substitui bloqueiro, gesseiro e carpinteiro por operador de painel, num ciclo em que a mão de obra responde pela maior parte do INCC em doze meses. É o que sustenta margem bruta ajustada de 42,8% no 2T26, 110 bps acima de um ano antes;
Giro de estoque e verticalização comercial: apenas 2% do VGV em estoque está em unidades concluídas, com VSO consolidada de 23% no trimestre e estrutura própria respondendo por pouco mais de 60% das vendas, o que reduz dependência de terceiros e preserva o comprometimento com o estoque próprio;
Retomada da capacidade de distribuição: alavancagem de volta a 18,0% de dívida líquida sobre patrimônio líquido, ante 24,0% no 1T26, dentro do intervalo de 10% a 20% que a companhia trata como estrutura ótima, com ROE anualizado ajustado de 35%. Após a antecipação de R$ 804 milhões em dividendos em dezembro de 2025, é natural que 2026 seja um ano com menor distribuição, com espaço para retomada aos poucos nos próximos anos;
Mudança regulatória em Belo Horizonte como opcionalidade fora do caso-base: a Operação Urbana Simplificada foi aprovada em segundo turno na Câmara Municipal em 31 de agosto de 2026 e aguarda sanção. Belo Horizonte é a praça mais forte da companhia e flexibilidade regulatória deve favorecer a Direcional.
Riscos:
A conversão de terreno em lançamento pode não acelerar: a tese assume que o estoque de 8,9 anos vira produto em ritmo crescente. Se isso não ocorrer, o landbank permanece como capital parado, ainda que barato, e o crescimento converge para o ritmo de reposição. É o indicador que colocamos no topo do que monitorar;
A Riva desacelerou justamente na perna de maior margem: no 2T26 a marca registrou queda de 7,4% a/a em lançamentos e 13,3% em vendas líquidas, com VSO de 21% contra 27% no 2T25, enquanto a marca Direcional cresceu 21,1% e 6,8%. Se a fraqueza persistir, o efeito de mix que sustenta nossa projeção de margem não se materializa;
A vantagem de custo é condicional e pode inverter de sinal: a parede de concreto maciça consome mais cimento e aço por metro quadrado que a alvenaria estrutural, de modo que a exposição da companhia a esses insumos é maior que a ponderação de quase 6% que eles têm no INCC. Uma reaceleração puxada por material em vez de mão de obra transforma a assimetria descrita na tese em desvantagem relativa, e é por isso que a decomposição do índice importa mais que o índice cheio.
Distratos acima da média histórica e sem convergência comprovada: somaram 16,6% das vendas brutas no 2T26 contra 12,2% no 2T25, com mais de 600 unidades canceladas apenas em Manaus após a descontinuidade de subsídio estadual. O repasse na planta transfere risco de crédito após o repasse, mas não protege contra ruptura de programa regional;
Dependência de decisão regulatória nas duas pontas: o crescimento da Riva decorreu da criação da Faixa 4, e não de vantagem construída pela marca, o que a expõe simetricamente a uma revisão do programa;
Fim da escala 6x1: a PEC 221/2019 foi aprovada pela Câmara em maio e pela CCJ do Senado em 2 de setembro, sem alteração de texto, mas a votação em plenário foi adiada para depois do primeiro turno das eleições, em outubro, por falta de segurança de votos. A proposta reduz a jornada de 44 para 40 horas com transição de 14 meses, o que empurra o impacto de custo para fora de 2026 mesmo em caso de aprovação. A administração quantifica o cenário mais severo como hora extra dobrada no sábado, equivalente a +10% no custo de mão de obra, excluindo repasse de preço de fornecedores, e menciona alongar o ciclo de obra como alternativa. Como a mão de obra é cerca de 25% do custo de obra, estimamos efeito de 1,0 a 1,2 p.p. na margem.
Valuation:
Projeção de FCFE
Fonte: Genial
Análise sensitiva
Fonte: Genial
Resumo de premissas
Fonte: Genial
Setor Incorporadoras
Visão Geral de Incorporadoras:
A economia do setor de incorporação no Brasil varia significativamente conforme a forma de financiamento do comprador final. Todas as incorporadoras reconhecem receita pelo método de percentual de conclusão (POC), independentemente do segmento; o que de fato difere entre os segmentos é o timing da geração de caixa em relação a essa receita contábil. No segmento MCMV, que opera sob o modelo de crédito associativo, a Caixa Econômica Federal libera recursos à incorporadora conforme a evolução física da obra, com o financiamento já formalizado em nome do comprador. Isso tem implicações importantes para o ciclo de caixa, moldando a necessidade de capital de giro, o risco de execução e o retorno sobre o capital investido.
O grande diferencial é, portanto, o alinhamento entre execução do projeto, reconhecimento de receita e entrada de recursos. Como os recursos do financiamento são liberados ao longo do ciclo de obra, as incorporadoras recuperam capital mais cedo e reduzem a dependência de funding próprio e de dívida corporativa. No modelo tradicional, em contraste, a receita por POC é apropriada durante a construção, enquanto a maior parte do caixa só entra após a entrega, na etapa de repasse. Esse descasamento está no centro da Curva J do setor, e o modelo associativo o elimina em grande medida, reduzindo a intensidade de capital e aumentando a visibilidade do fluxo de caixa.
Consequentemente, o segmento MCMV combina maior qualidade de lucro, com receita lastreada em caixa quase simultâneo, menor volatilidade de fluxo de caixa e maior eficiência de capital. Essas características o tornam um dos segmentos mais resilientes da incorporação brasileira e sustentam seu perfil anticíclico, discutido anteriormente neste relatório.
A Curva J:
A indústria de incorporação residencial normalmente apresenta uma dinâmica de geração de caixa em formato de curva J: os custos de construção são incorridos muito antes da entrada da maior parte do caixa, embora a receita seja reconhecida ao longo da obra pelo método POC (Percentage of Completion). A profundidade e a duração desse vale de geração de caixa são justamente o que diferencia o segmento Minha Casa Minha Vida (MCMV) do restante do mercado residencial.
Fora do MCMV, especialmente nos segmentos de média e alta renda, as incorporadoras normalmente financiam a construção por meio de empréstimos para desenvolvimento imobiliário concedidos pelos bancos (plano empresário). Nessa estrutura, a incorporadora assume dívida e paga juros ao longo de todo o período de construção. Durante essa fase, as principais entradas de caixa são os sinais e parcelas pagas pelos compradores durante a obra, que normalmente representam entre 20,0% e 35,0% do valor do imóvel. A maior parte do preço de venda é recebida apenas na conclusão do empreendimento, quando o comprador contrata um financiamento imobiliário individual ou quita o saldo com recursos próprios. Esses recursos são, em geral, utilizados para liquidar o financiamento à produção contratado pela incorporadora. Como resultado, o fluxo de caixa líquido tende a permanecer negativo durante grande parte do ciclo de desenvolvimento, tornando-se positivo apenas próximo da entrega do projeto, caracterizando a clássica e prolongada curva J.
No modelo de crédito associativo do MCMV, esse vale de caixa é praticamente eliminado. O banco financiador, predominantemente a Caixa Econômica Federal, libera recursos à incorporadora de acordo com a evolução física da obra medida periodicamente. Isso permite que as entradas de caixa se acumulem de forma consistente desde o início do projeto e acompanhem de perto os desembolsos de construção ao longo do tempo. O resultado é um perfil de fluxo de caixa líquido que permanece próximo do equilíbrio durante a maior parte do ciclo construtivo, com uma parcela relevante do valor do imóvel sendo recebida antes da conclusão da obra. Em outras palavras, o modelo cria um mecanismo eficiente de casamento entre entradas e saídas de caixa, em vez de exigir que a incorporadora financie um déficit expressivo de capital durante a construção.
Essa diferença estrutural é um dos principais pilares que sustentam as menores necessidades de capital de giro, a menor dependência de financiamento e a maior previsibilidade financeira do segmento MCMV, características que discutiremos com mais profundidade na próxima seção, dedicada ao processo de repasse dos financiamentos imobiliários.
“Curva J”: perfil ilustrativo de fluxo de caixa de um empreendimento MCMV (% do total, acumulado) – Ilustração Cury
Fonte: Cury, Genial
Curva J: perfil ilustrativo de fluxo de caixa de um empreendimento tradicional (% do total, acumulado) – Ilustração Cury

Fonte: Cury, Genial
Orçamento do setor imobiliário em 2025: Poupança e FGTS representam mais de 50,0% do orçamento

Fonte: Caixa, Banco Central
Processo de Repasse:
O repasse do financiamento imobiliário representa a conversão das vendas contratadas em recebimento efetivo de caixa e a transferência do risco de crédito da incorporadora para a instituição financeira. Trata-se de uma etapa fundamental para a previsibilidade dos resultados e eficiência do capital de giro, especialmente no segmento Minha Casa Minha Vida (MCMV). Após o repasse, uma eventual inadimplência do comprador deixa de ser responsabilidade da incorporadora e passa a ser assumida pelo banco financiador, reduzindo diretamente o risco de distratos.
Ao mesmo tempo, o repasse introduz um risco diferente. Como o valor a ser recebido é definido no momento da contratação do financiamento e não é reajustado posteriormente, atrasos na construção reduzem a rentabilidade do projeto. Na prática, a incorporadora recebe o mesmo valor nominal ao longo de um prazo mais longo, sem compensação pela inflação ou pelo custo de oportunidade do capital, o que impacta negativamente a Taxa Interna de Retorno (TIR) do empreendimento.
O processo envolve três agentes: a instituição financeira, que detém o imóvel como garantia por meio da alienação fiduciária; a incorporadora, que transfere o recebível e se desvincula do risco de crédito; e o comprador, que assume a obrigação do financiamento imobiliário. O momento em que ocorre essa transferência do risco é justamente o que diferencia os modelos de financiamento existentes.
No crédito associativo, estrutura predominante no MCMV, a Caixa Econômica Federal aprova e financia o comprador já no momento da venda da unidade, ainda durante a fase de construção e em parceria com a incorporadora. Na prática, o repasse ocorre na origem da operação: com o financiamento previamente formalizado em nome do cliente, o banco passa a desembolsar recursos para a incorporadora conforme a evolução física da obra, enquanto o comprador arca apenas com um sinal e parcelas reduzidas durante a construção. Essa antecipação da transferência do risco de crédito, combinada ao alinhamento entre entradas e saídas de caixa, explica por que o segmento MCMV apresenta uma curva J significativamente mais suave e risco de distrato estruturalmente reduzido;
No financiamento imobiliário tradicional, a incorporadora financia a construção com capital próprio ou por meio de crédito à produção, recebendo dos compradores apenas sinais e parcelas pagas durante a obra. O repasse ocorre apenas após a conclusão do empreendimento, muitas vezes anos depois da venda inicial, quando o cliente contrata um financiamento imobiliário individual e a incorporadora recebe a maior parte do valor da unidade de forma concentrada. Até esse momento, tanto o recebível quanto o risco de cancelamento permanecem integralmente sob responsabilidade da incorporadora;
No financiamento direto, a própria incorporadora financia o comprador sem a participação de uma instituição financeira. Nesse caso, a companhia mantém a exposição ao risco de crédito até a liquidação integral do contrato, em cronogramas de pagamento que podem se estender por vários anos. Esse modelo é mais comum fora do segmento MCMV, especialmente quando o comprador não se enquadra nas condições exigidas pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH) ou prefere evitar o processo de aprovação bancária.
Um aspecto particularmente relevante do crédito associativo é que os contratos de compra e venda somente são formalizados após a aprovação do financiamento pelo banco. Dessa forma, a instituição financeira realiza uma triagem do comprador já no momento da venda, validando previamente sua capacidade de crédito. Esse filtro inicial, mais do que qualquer processo posterior de cobrança, é uma das principais razões pelas quais incorporadoras bem executadas do segmento MCMV apresentam taxas de distrato estruturalmente inferiores às observadas em outros segmentos residenciais.
Por esse motivo, a taxa de repasse e a velocidade com que os financiamentos são transferidos para os bancos constituem importantes indicadores de qualidade de vendas e disciplina de crédito. Incorporadoras com processos de repasse mais eficientes carregam recebíveis por menos tempo, reduzindo a janela durante a qual distratos podem ocorrer e diminuindo as necessidades de capital de giro e os custos de financiamento. Como consequência, a visibilidade sobre a geração de caixa tende a ser maior. No segmento MCMV, essa dinâmica é ainda mais relevante, já que a elegibilidade do comprador ao financiamento é condição fundamental para que a venda seja efetivamente monetizada.
Esse mecanismo é particularmente importante para empresas cuja tese de investimento está baseada em alta rotatividade de capital, forte velocidade de vendas, baixo volume de estoque concluído e rápida reciclagem de caixa. Quanto mais eficiente o processo de repasse, menores são as necessidades de financiamento e maior é a capacidade da incorporadora de sustentar o crescimento preservando a eficiência de capital e a geração de caixa ao longo do tempo.
Orçamento Plurianual 2026-2029: Esperada consistência de orçamento nos próximos anos

Fonte: ADEMI/BRAIN, Cury
Minha Casa Minha Vida: Estrutura e Escala
O programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), criado em 2009, é o principal instrumento da política habitacional federal, oferecendo taxas de juros subsidiadas e tetos de valor de imóvel definidos por faixa de renda. O programa é estruturado em quatro faixas de renda, cada uma com condições específicas de financiamento e subsídio.
Sob o governo Lula 3, o MCMV já havia contratado mais de 2 milhões de unidades habitacionais até 2025, com meta de atingir 3 milhões até o final de 2026. A partir de 2026, novas expansões nos limites de renda e no valor máximo dos imóveis elegíveis ampliaram o público atendido. O programa já responde por 49% das vendas do setor imobiliário no 1T26 (54.510 unidades, em 221 cidades monitoradas pela CBIC). A penetração do MCMV varia muito por região: chega a 52,0% da oferta total de imóveis no Norte e a apenas 17,0% no Sul, reflexo de que, em regiões de menor renda, mais da metade dos imóveis novos são populares. Em volume absoluto, porém, o Sudeste lidera com folga (mais da metade das vendas nacionais), e é justamente onde Cury, Tenda e Direcional concentram operações, em São Paulo, por exemplo, o MCMV já representa 65,0% do mercado.
O FGTS é o pilar de funding do programa: além de financiar a maior parte das operações, sustenta os subsídios direcionados às famílias de menor renda. Atualmente, o fundo responde por aproximadamente 27,0% do funding total do crédito imobiliário no Brasil, com orçamento da ordem de R$ 223 bilhões. Sem essa fonte de recursos, o programa perderia escala e capacidade de oferecer condições de crédito abaixo de mercado.
Do ponto de vista operacional, o MCMV se diferencia por um arranjo específico: a Caixa Econômica Federal. A organização realiza repasses à incorporadora conforme a evolução física da obra, com o financiamento já formalizado em nome do comprador. Esse alinhamento entre reconhecimento de receita e geração de caixa reduz a necessidade de capital de giro e de alavancagem para financiar a construção.
Como consequência, incorporadoras MCMV tendem a apresentar maior previsibilidade operacional e financeira, risco de distrato reduzido e velocidades de venda superiores. Essas características tornam o segmento mais resiliente a oscilações macroeconômicas e lhe atribuem um papel anticíclico relevante dentro do setor imobiliário brasileiro.
Posicionamento dos players dentro do MCMV
Vale destacar que “exposição ao MCMV” não é uma categoria homogênea, o mix de faixas dentro do programa varia significativamente entre os principais players e ajuda a explicar diferenças de sensibilidade a custo e capacidade de repasse:
Tenda é a maior incorporadora da Faixa 1, a mais sensível a subsídio e crédito. Vale destacar que a Tenda também opera nas outras faixas e vem crescendo nas faixas 2 e 3;
Cury concentra exposição nas Faixas 2 – 4, com maior capacidade de repasse de preço relativo à Tenda;
Direcional opera com mix em todas as faixas, através de suas duas marcas (Direcional e Riva).
Nova regulação do MCMV: Aumentos para renda e valores do imóvel ampliam a elegibilidade de pessoas dentro do programa

Fonte: GOV
Dificuldades em Mão de Obra:
A escassez e o encarecimento da mão de obra deixaram de ser fatores conjunturais e se consolidaram como pressão estrutural sobre a rentabilidade das incorporadoras. O componente de mão de obra do INCC-M acumulou alta de 40,8% entre 2022 e 2025, patamar significativamente superior tanto à inflação geral (IPCA acumulado de 21,0% no período) quanto ao custo de materiais (17,6%).
Essa dinâmica é reforçada por fatores demográficos: a idade média do trabalhador da construção civil já ultrapassa 41 anos, refletindo a dificuldade crescente do setor em atrair mão de obra mais jovem, num contexto em que ocupações mais flexíveis competem pela mesma força de trabalho. O resultado é uma restrição persistente de oferta, que se traduz em pressão salarial, menor previsibilidade operacional e maior risco de atraso de obras.
Nesse cenário já adverso, o debate sobre o fim da escala 6×1 adiciona uma camada relevante de risco: segundo estimativas da CBIC, a mudança pode elevar o custo de mão de obra em até 15%, seja pela necessidade de novas contratações, seja pelo maior uso de horas extras (adicional mínimo de 50%). O impacto tende a ser material num setor em que mão de obra representa parcela relevante do custo total da obra.
O efeito é assimétrico entre segmentos: incorporadoras de baixa renda (MCMV) são mais vulneráveis, dada a combinação de margens já comprimidas e capacidade de repasse limitada, enquanto empresas de médio/alto padrão tendem a absorver parte do choque com menor impacto sobre velocidade de vendas.
Dessa forma, a inflação de mão de obra reforça a leitura de que ganhos de eficiência e industrialização deixam de ser apenas diferenciais competitivos e passam a ser vetores centrais de preservação de margem no setor.
Indicadores de inflação de 2022-2026: Custo de mão de obra teve aumentos substancialmente maiores

Fonte: Gov, FGV
Novo Plano Diretor: A sua Importância e Foco em Rio e São Paulo
As revisões dos Planos Diretores de São Paulo (Lei 17.975/2023) e do Rio de Janeiro (LC 270/2024) contribuíram para melhorar significativamente a viabilidade econômica do segmento Minha Casa Minha Vida (MCMV) nessas duas praças. Ao associar maior potencial construtivo em áreas servidas por infraestrutura de transporte à produção de habitação de interesse social (HIS/HMP), as novas legislações ampliaram o universo de terrenos elegíveis, reduziram o custo relativo da terra e elevaram a rentabilidade dos projetos, especialmente nas Faixas 2 e 3 do programa.
Em São Paulo, os impactos já são claramente visíveis. Segundo dados do Secovi-SP, os lançamentos do MCMV atingiram o recorde histórico de 65,9 mil unidades em 2024, crescimento de 63.0% em relação a 2023, impulsionados principalmente pelo adensamento dos eixos de mobilidade urbana e pelos incentivos construtivos vinculados às contrapartidas habitacionais. O movimento reforça como o novo marco urbanístico vem estimulando a produção de habitação popular em regiões com maior acesso a transporte e infraestrutura.
No Rio de Janeiro, embora o processo esteja em estágio mais inicial quando comparado ao observado em São Paulo, a flexibilização de parâmetros urbanísticos, incluindo aumento de gabaritos e expansão das ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), cria condições para uma trajetória semelhante. O exemplo mais emblemático é a região do Porto Maravilha, onde a população é projetada para crescer cerca de 90.0% nos próximos anos. Esse vetor de expansão foi recentemente reforçado pela aprovação do PLC 92/2025 (Praça Onze Maravilha) pela Câmara Municipal, proposta que identifica potencial para viabilizar mais de 37 mil novas moradias entre os bairros do Estácio, Cidade Nova e Catumbi, ampliando de forma relevante o estoque de terrenos aptos ao desenvolvimento residencial de interesse social.
Quem captura o quê
Cury é a maior beneficiária direta desse movimento, com landbank concentrado nos PIUs Arco Tietê e Arco Leste (~82 km² de área potencial) e exposição direta à bonificação construtiva ligada a cotas sociais em São Paulo.
Tenda, com atuação pulverizada em nove regiões metropolitanas, captura o efeito de forma mais diluída geograficamente, mas se beneficia da ampliação geral do estoque de terrenos elegíveis à Faixa 1 em múltiplas praças.
Direcional segue padrão semelhante ao da Tenda com VGV lançado de R$ 7,0 bilhões UDM (+27% a/a), pulverizado nacionalmente, sem concentração em uma reforma regulatória específica. Captura o destravamento de forma mais diluída que a Cury nessas cidades específicas, mas também fica menos exposta caso futuras mudanças ocorram em sentido contrário.
Riva (marca de médio padrão do Grupo Direcional) tem exposição diferente: por atuar fora das faixas mais sensíveis do MCMV, captura menos diretamente o efeito HIS/HMP, dependendo mais de dinâmica de renda e demanda do que de bonificação construtiva.
Destacamos também a perspectiva de Direcional e Riva para Belo Horizonte e a revisão do plano diretor na cidade, representando ~20% das suas operações. Esperamos ver mais com o decorrer da revisão e esperamos ser positivo para a empresa.
Lançamentos totais 2025 (R$ m)

Fonte: Tenda, MRV, Cyrela, Cury, Direcional, Plano & Plano, Eztec
A Importância da Permuta:
A aquisição de terrenos via permuta é prática comum no setor: a incorporadora obtém o terreno sem desembolso inicial relevante, entregando em contrapartida uma parcela do VGV do empreendimento, em unidades prontas ou participação financeira nas vendas.
A permuta favorece as incorporadoras ao reduzir o consumo de caixa em um negócio intensivo em capital, liberando recursos para construção e comercialização. A contrapartida é um custo econômico implícito: reduz o VGV líquido apropriado pela empresa, tornando eficiência operacional e controle de custos fundamentais para preservação de margem.
Tipologia de Construção:
Embora exista ampla variedade de tipologias construtivas, poucas são economicamente relevantes do ponto de vista do investidor. Na prática, as incorporadoras se diferenciam menos pelo sistema técnico em si e mais pela consistência com que conseguem replicar soluções construtivas ao longo do tempo.
Tipologias padronizadas e industrializadas, comuns em habitação popular, tendem a reduzir prazo de obra e, sobretudo, limitar o uso de mão de obra (cujo custo vem subindo estruturalmente acima da inflação, conforme seção anterior). Tipologias mais complexas, típicas de renda mais elevada, ampliam potencial de margem, mas aumentam risco de execução e alongam o ciclo de retorno do capital.
Como cada player resolve esse trade-off
Tenda é o caso mais avançado de industrialização: ênfase em formas de alumínio na operação principal, reduzindo o ciclo de obra de ~20 para ~11 meses frente à alvenaria estrutural convencional. O grande destaque vem também da marca Alea, dentro do grupo, aposta em wood frame para reduzir ainda mais a dependência de mão de obra.
Direcional reporta a entrega de 40 apartamentos em 45 dias, reforçando sua capacidade de replicação em escala, e sendo relevante com o uso da forma de alumínio.
Cury segue caminho diferente: aposta em padronização e repetição de projeto, sem o mesmo grau de pré-fabricação/industrialização das duas concorrentes. Contudo, a Cury começará a testar a forma de alumínio de maneira gradual, testando a viabilidade no seu modelo de negócios.
Ambas as estratégias (industrialização agressiva vs. padronização replicável) perseguem o mesmo objetivo, proteção de margem via redução de variabilidade de execução, por caminhos distintos. Essa diferença deve se tornar um diferenciador de tese cada vez mais relevante caso a pressão de custo de mão de obra se intensifique e perpetue. Além disso, vale destacar o uso de forma de alumínio requer uma mão de obra menos especializada e gera muito menos resíduos quando comparado a alvenaria estrutural.
Ilustração do tempo de construção de forma de alumínio x alvenaria estrutural para Tenda: Forma de alumínio é substancialmente mais rápido

Fonte: Tenda
E o Juros?
O setor carrega uma dinâmica intrínseca de descasamento de caixa (efeito Curva J), em que a intensidade de capital no início das obras exige captação robusta e barata. Por consequência, a viabilidade dos projetos tem forte correlação com a trajetória futura de juros. Estatisticamente, a variação das ações das maiores incorporadoras apresentou correlação de -0,44 com a variação da ETTJ Prefixada (janeiro 2016 a abril 2025). O resultado ilustra um impacto negativo e relevante, mas historicamente menor nas empresas expostas ao MCMV, que operam blindadas por linhas de crédito reguladas e de baixo custo.
Movimentação de juros com maiores incorporadoras

Fonte: Genial, Economatica
Stand de Vendas:
Os estandes de venda seguem centrais na comercialização de imóveis, ao tangibilizar um produto que, em muitos casos, ainda não existe fisicamente. Apartamentos decorados, maquetes e atendimento presencial reduzem a assimetria de informação e aumentam a confiança do comprador numa decisão de alto valor e longo prazo, efeito especialmente relevante em segmentos como MCMV e médio padrão, onde a experiência física reforça percepção de valor, segurança e credibilidade, influenciando diretamente velocidade de vendas e sucesso do lançamento.
Cury e Direcional ilustram modelos opostos para o mesmo objetivo: a Cury aposta em rede terceirizada de mais de 3.500 corretores, com análise de crédito já no estande. A Direcional verticalizou a operação, com estrutura própria respondendo por 60% das vendas. A Direcional também se destaca por oferecer um range de produtos mais amplo, por atender mais faixas, facilitando a oferta de um produto aderente para o cliente que entra em um estande.
Glossário
VGV (Valor Geral de Vendas) — valor potencial total de venda de todas as unidades de um empreendimento ou de um conjunto de lançamentos. Métrica de escala, não de receita: só vira receita conforme vendas e evolução de obra.
Lançamento — momento em que o empreendimento é oficialmente colocado à venda, após registro de incorporação. O VGV lançado é o principal indicador de crescimento futuro de receita.
VSO (Vendas Sobre Oferta) — vendas líquidas do período divididas pela oferta total (estoque inicial + lançamentos). Mede velocidade de vendas; VSO alto indica boa absorção de mercado.
Landbank (banco de terrenos) — estoque de terrenos da companhia, geralmente medido em VGV potencial. Indica capacidade de lançamentos futuros e consumo de capital.
Permuta — aquisição de terreno pagando o proprietário com unidades futuras (permuta física) ou percentual da receita de vendas (permuta financeira), em vez de caixa. Reduz necessidade de capital, mas comprime margem bruta contábil. No balanço, aparece como “Credores por Imóveis Compromissados” ou, em certas estruturas, participação minoritária na SPE.
SPE (Sociedade de Propósito Específico) — entidade criada para cada empreendimento, segregando patrimônio, dívida e resultado. Facilita parcerias, patrimônio de afetação e o regime RET.
Patrimônio de afetação — regime que segrega o patrimônio do empreendimento do patrimônio da incorporadora, protegendo compradores em caso de falência. Pré-requisito para o RET.
RET (Regime Especial de Tributação) — tributação simplificada de 4% sobre a receita (1% para MCMV faixas específicas), englobando IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Aplicável por empreendimento com patrimônio de afetação.
FGTS / SBPE — as duas principais fontes de funding imobiliário: FGTS financia o segmento econômico (MCMV) com taxas subsidiadas; SBPE (poupança) financia médio/alto padrão a taxas de mercado, sendo mais sensível ao ciclo da Selic e à captação líquida da poupança.