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Publicado em 21 de Setembro às 08:30:08

Expresso Bolsa Semanal: Juro Longo, Prêmio Fiscal e o Custo do Frete

Quem mandou no preço da semana foi o juro longo global, não os dados de atividade. Primeiro, o banco central norte-americano elevou a taxa básica pela primeira vez desde 2023, por unanimidade. Na sequência, sinalizou mais um aumento neste ano. Dias depois, o banco central japonês também subiu a sua taxa. Com isso, o juro longo dos Estados Unidos voltou a rondar a marca de 5, patamar que o mercado trata como limite para múltiplos de ações. O petróleo recuou por três pregões seguidos e trouxe algum alívio. Mas o alívio foi tático: com energia cara e atividade americana forte, a pergunta deixou de ser quando os juros caem e virou quanto ainda sobem.

No Brasil o roteiro foi o inverso, e nem por isso mais confortável. O Copom reduziu a Selic pela quinta vez seguida. No entanto, a curva longa ganhou inclinação após o reajuste do Bolsa Família, lido pelo mercado como gasto de véspera eleitoral. Na prática, o Ibovespa fechou o período em recuo moderado, o dólar subiu e as pequenas empresas também cederam. De fato, cada pesquisa eleitoral mexeu mais no preço do que qualquer indicador. A leitura da casa segue sendo de apetite a risco seletivo, limitado pelo juro longo e pelo prêmio fiscal.

Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)

Do lado positivo, o ganho se concentrou onde o juro alto pesa menos. A Vibra apareceu entre as maiores altas, sustentada pelo movimento ascendente que nasceu do rompimento técnico acompanhado pela mesa. As seguradoras, por sua vez, foram o refúgio da semana defensiva. Caixa Seguridade e BB Seguridade subiram justamente enquanto os bancos de carteira ampla recuavam. Assim como elas, a Auren avançou entre as elétricas. Já o bloco de shoppings reagiu no último pregão ao fechamento da curva, porque Multiplan, Iguatemi e Allos vivem de custo de capital para renovar portfólio. A Allos ainda aprovou nova distribuição de dividendos.

As quedas contaram uma história mais concentrada, e ela começa no frete. Com o petróleo acima de cem dólares, o custo de transporte entre Brasil e China atingiu o maior nível desde 2021. Por isso, minas de menor escala deixam de fechar conta. CSN Mineração, CSN e Usiminas lideraram as perdas por esse canal, e uma produtora do setor já anunciou suspensão de planta. A Vale, por sua vez, também recuou, pressionada por receios de demanda por minério. Escala e contratos longos a protegem melhor da volatilidade do frete, enquanto a Bradespar acompanhou como holding. O segundo bloco de perdas veio das incorporadoras. Cury, MRV, Tenda e Direcional sofreram com o juro de mercado travando o financiamento imobiliário. Some a isso a inflação de custos de construção pressionando mão de obra e o aumento de estoques ameaçando o caixa. Marcopolo e Santander Brasil caíram depois de rebaixamentos de recomendação.

Macro & Política

O ciclo monetário internacional virou de vez. A autoridade monetária norte-americana subiu os juros por unanimidade, projetou inflação mais alta e desemprego menor. Inclusive, seu presidente afirmou que a inflação está alta demais há tempo demais. O mercado respondeu precificando mais de uma alta adicional ainda neste ano. Na sequência, o banco central japonês elevou sua taxa com dois votos contrários, o que enfraqueceu o iene e manteve vivo o carry trade global.

Os dados sustentaram o tom duro, mas com uma rachadura. De fato, as vendas no varejo americanas vieram muito acima do esperado. As projeções de crescimento do terceiro trimestre subiram. A produção industrial, porém, recuou em agosto e marcou a maior queda mensal em quase um ano. Na energia, o diesel norte-americano acumula forte elevação em pouco mais de três meses. O mercado segue monitorando restrições de oferta no Oriente Médio, fator que mantém a inflação global sob pressão mesmo com o recuo do petróleo.

No Brasil, política monetária e política eleitoral puxaram para lados opostos. O Copom cortou a Selic por unanimidade, para 13,75 ao ano, sem antecipar os próximos passos. Mesmo assim, a maior parte dos economistas passou a projetar nova redução de mesma magnitude em novembro. A atividade colabora com esse desenho, já que o índice de atividade do Banco Central voltou a cair. O reajuste do piso do Bolsa Família mudou o eixo da discussão. Anunciado a poucos dias do primeiro turno, com custo na casa dos bilhões neste ano e um múltiplo disso no seguinte, ele reabriu o debate sobre a meta fiscal. Quando a pesquisa Datafolha saiu, na mesma semana, a disputa apareceu apertada nos dois turnos.

Desempenho do Real (BRL)

O real perdeu terreno, ainda que sem romper faixa. O dólar circulou entre R$ 5,11 e R$ 5,18, com a máxima no dia do anúncio fiscal, e encerrou perto de R$ 5,14.

A sustentação veio do diferencial de juros, que segue elevado mesmo depois dos cortes. Em contrapartida, a pressão veio de fora e do fluxo. O índice do dólar permaneceu acima de cem pontos e o fluxo cambial do mês ficou negativo em bilhões de dólares. O Banco Central atuou como amortecedor, com leilão de linha e rolagem integral do lote de swap cambial.

Curva de Juros

A curva brasileira ganhou inclinação ao longo da semana. O vértice de janeiro de 2027, por sua vez, ficou praticamente parado. Os vencimentos de 2029 em diante concentraram a abertura, com o papel de janeiro de 2031 rondando a casa dos quatorze. O desenho é clássico: alívio na ponta curta, onde manda a Selic, e prêmio crescente na ponta longa, onde manda a percepção fiscal. No dia do anúncio do benefício social, os juros futuros chegaram a subir em duas ondas dentro da mesma sessão.

Para a política monetária, a leitura é de continuidade condicionada. Mesmo assim, o mercado ainda precifica nova redução em novembro, e parte das casas revisou para baixo a taxa terminal do ano. O limite dessa leitura é a inflação implícita, negociada para os próximos cinco anos bem acima da meta. É isso que explica por que a ponta longa não acompanha o alívio da ponta curta.

Fluxo Investidor Estrangeiro

O fluxo foi irregular, com entradas e saídas alternadas ao longo dos pregões. Ainda assim, o acumulado do mês seguiu positivo na casa dos bilhões de reais. O estrangeiro parou de vender pesado, mas não virou comprador estrutural. Na comparação regional, o Brasil resistiu melhor que os pares latino-americanos no dia da decisão norte-americana.

Narrativas & Cenários

A tensão que define a próxima semana é objetiva. O recuo do petróleo é suficiente para superar o juro longo americano na casa de 5, a curva local inclinada e a despesa eleitoral? Se a energia ceder e o juro longo global acompanhar, abre-se uma janela de alívio tático para ativos brasileiros de prazo curto. Caso o petróleo volte a subir, a inflação importada retorna ao centro e a janela fecha antes de ser aproveitada.

Por enquanto, o posicionamento da casa não persegue a alta recente. A alocação vigente na carteira recomendada de ações privilegia liquidez remunerada e juro prefixado curto, com proteção real e exposição medida em bolsa. O papel longo cobra dois riscos, o fiscal doméstico e o juro global, para expressar uma convicção só. A bolsa, por sua vez, responde mais rápido a uma leitura eleitoral construtiva.

A agenda concentra os gatilhos logo no começo. Na segunda saem duas pesquisas eleitorais e o boletim de expectativas do Banco Central. Na terça vem a ata do Copom, que deve detalhar o balanço de riscos. Na quarta chegam os indicadores antecedentes de atividade da zona do euro e dos Estados Unidos, e na sexta a prévia da inflação de setembro. Fora do calendário, seguem vivos as contas públicas após o reajuste do benefício e a nova sessão do Supremo prevista para o dia 23.

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Filipe Villegas

Analista de Ações

Leitura Dinâmica

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