A semana teve dois movimentos que se alimentaram. Primeiro, o juro longo americano tocou o maior nível desde 2002, o dólar ganhou força no mundo e pesou sobre as moedas emergentes. Depois, o relatório de emprego trouxe bem menos vagas que o esperado. Com isso, a chance de uma alta do juro em outubro caiu para menos de um terço. O petróleo oscilou entre US$ 100 e US$ 106 e terminou perto de US$ 102, com a Europa discutindo liberar reservas. O alívio, porém, foi de prazo curto, porque a parte longa das curvas seguiu cara.
No Brasil, o roteiro foi mais intenso. O Ibovespa fechou perto de 192 mil pontos, numa alta forte puxada pelo posicionamento para uma alternância de poder. Na sexta, os juros futuros recuaram em toda a curva. Enquanto isso, as pesquisas mostraram um segundo turno tecnicamente empatado, e o dólar terminou um pouco acima do nível anterior. A leitura da casa é de que o preço do dia foi mais fluxo do que informação. Por isso, a sustentação dessa alta depende do que o próximo governo disser sobre as contas públicas.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
As altas vieram de duas frentes, a corporativa e a eleitoral. A Azzas disparou com a notícia, segundo a imprensa, de que o grupo recebeu quinze propostas não vinculantes pela Farm, e novas propostas reforçaram o movimento na quinta. O restante foi o trade eleitoral. Bancos como o Banco do Brasil e papéis sensíveis a juros, como a Magazine Luiza, subiram com a expectativa de uma alternância que reduza juros e prêmio fiscal. O varejo ainda ganhou com a hipótese de que a restrição às apostas online devolva renda ao consumo. Já a Vivara avançou com a expansão de lojas em evidência.
Nas quedas, o destaque foi o Santander Brasil. O papel acompanhou a queda do banco espanhol controlador, num momento em que a discussão sobre fechamento de capital seguia aberta.
Macro & Política
O centro foi o mercado de títulos americano. Os juros de dez e de trinta anos chegaram às maiores marcas desde 2002, e o índice do dólar atingiu o nível mais alto em 17 meses. Na Europa, a inflação surpreendeu para cima na Itália e na França. Enquanto isso, o prêmio que os títulos franceses pagam sobre os alemães foi ao maior nível desde 2011. A inflação de gastos pessoais americana veio mais fraca no núcleo, mas o PIB do segundo trimestre foi revisado para cima. No fim da semana, no entanto, o relatório de emprego ficou abaixo de todas as estimativas: poucas vagas, desemprego em alta e salários perdendo ritmo. A casa mantém uma alta do juro em dezembro como cenário-base, sem urgência para outubro.
No Brasil, a atividade desacelerou. A produção industrial recuou em agosto, contra a expectativa de alta. Ao mesmo tempo, o índice de gerentes de compras da indústria caiu ao menor nível em 41 meses. Mas o crédito também piorou, com inadimplência no maior patamar da série e o pior mês de resgates em fundos de crédito desde 2021. No fiscal, o déficit primário de agosto veio menor que o esperado, mas a dívida bruta subiu pela oitava vez seguida, ao maior nível desde 2021.
A política deu o tom do fim da semana. Primeiro, a TV Globo cancelou o debate após decisões judiciais. Ao mesmo tempo, o governo prorrogou a subvenção ao diesel, proibiu as apostas online e lançou um novo Desenrola. Por fim, o orçamento de 2027 já nasce com cerca de R$ 33 bilhões de gastos novos e perda de receita. A discussão de propostas ficou em segundo plano.
Desempenho do Real (BRL)
O real oscilou numa faixa estreita e terminou mais fraco. O dólar subiu na segunda-feira rumo ao maior nível desde março. Depois, passou a semana entre R$ 5,17 e R$ 5,23 e fechou perto de R$ 5,21.
A pressão veio do dólar forte no mundo, porque ele desmontou operações de carry em emergentes. A demanda por proteção antes da eleição também pesou. Em contrapartida, o diferencial de juro continuou sustentando o real, que chegou a ser uma das moedas emergentes de melhor desempenho no dia da inflação americana.
Curva de Juros
A curva fez uma ida e volta. Na segunda-feira, os vencimentos longos abriram mais de dez pontos com a alta dos títulos americanos. Depois, o recuo do petróleo e a leitura eleitoral devolveram parte do movimento, e na sexta os juros caíram em toda a curva. O vértice de janeiro de 2027 ficou praticamente parado, e o de janeiro de 2031 terminou abaixo do nível da semana anterior, perto de 13,9.
Para a política monetária, o quadro ficou menos favorável aos cortes. Contudo, a atividade fraca sustenta a decisão de novembro, tida como praticamente dada, mas a de dezembro passa a depender do câmbio e do resultado eleitoral.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O estrangeiro alternou entradas e uma saída grande no meio da semana. Ainda assim, o acumulado do mês seguiu positivo na casa dos nove bilhões de reais. Num mercado em que o dólar forte pressionou os emergentes, o Brasil ainda atraiu capital, sustentado pelo juro alto e pelo posicionamento eleitoral.
Narrativas & Cenários
A pergunta da próxima semana é uma só. O alívio externo, com o emprego americano fraco e o petróleo mais baixo, dura o bastante para financiar o Brasil sem exigir ajuste fiscal? Assim, o mercado fechou a semana comprado em alternância, com demanda por opções de compra acima de 210 mil pontos, mas nenhum candidato apresentou um plano para a dívida. Se o prêmio externo seguir cedendo, a bolsa pode manter o ganho. Mas se o primeiro gasto pós-urna vier sem contrapartida, o prêmio volta.
Como mostra a carteira recomendada de ações, a casa não aposta num dos dois caminhos. A carteira de outubro junta empresas com receita em dólar, negócios domésticos que reagem primeiro à queda dos juros e geradoras de caixa que pagam dividendos. Assim, ela atravessa tanto a continuidade quanto a alternância.
Os gatilhos vêm em sequência. No domingo, o país vai às urnas no primeiro turno, e as últimas pesquisas saem no sábado. Na quarta, sai a ata da última reunião do banco central americano e, na sexta, a inflação brasileira de setembro. Fora do calendário, o segundo turno, em 25 de outubro, segue como o evento binário de maior peso.