A semana teve dois tempos, e o segundo apagou o primeiro. No início, a queda do petróleo e a expectativa de diálogo entre Estados Unidos e Irã trouxeram alívio aos ativos de risco. No entanto, no meio do caminho, dados de atividade americana muito fortes e um leilão fraco de títulos do Tesouro empurraram o juro longo americano ao maior patamar desde 2007. Enquanto isso, o petróleo voltou a subir com a tensão no Estreito de Ormuz, e o dólar ganhou força no mundo. Ao final do período, um plano iraniano para encerrar o conflito devolveu parte do alívio, sem mudar o saldo: a pergunta do mercado continua sendo quanto o juro global ainda sobe.
No Brasil, esse vento externo se somou a dois pesos domésticos. A corrida presidencial seguiu tecnicamente empatada nas pesquisas, e o governo anunciou medidas de apelo eleitoral enquanto revisava para baixo a arrecadação. Para completar, a prévia da inflação de setembro veio acima de todas as estimativas. Assim, o Ibovespa recuou e perdeu o piso da faixa em que oscilava havia semanas, enquanto o dólar subiu. A leitura da casa segue de cautela, com liquidez remunerada até que eleição e juro global deem mais clareza.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
As maiores altas tiveram gatilhos corporativos. A Magazine Luiza liderou o índice depois da liberação para intermediar a venda de medicamentos em seu marketplace. Em seguida, no fim da semana, ganhou fôlego com a expectativa de que as medidas sobre apostas online e dívidas das famílias liberem renda para o consumo. A Azzas, por sua vez, disparou com rumores de venda da Farm Rio, marca capaz de destravar valor no grupo. A Yduqs avançou com o acordo para combinar operações com a Afya, com potencial de sinergias acima de R$ 2 bilhões. Já a Vamos se beneficiou da rotação para empresas domésticas quando os juros cederam.
Nas quedas, o mesmo movimento que ajudou a Magazine Luiza pesou sobre as farmácias. A Raia Drogasil ficou entre as maiores baixas do índice depois que o Mercado Livre anunciou a venda de medicamentos com retenção de receita. A CSN Mineração sofreu porque o minério enfraqueceu e o frete encareceu, efeito direto do petróleo. Suzano e Klabin recuaram com a perspectiva de oferta global de celulose crescendo mais rápido, puxada pela expansão chinesa. O Banco do Brasil caiu com a inadimplência elevada, a meta de resultado difícil de alcançar e a sensibilidade ao quadro eleitoral. Por fim, a Prio acompanhou a queda do petróleo.
Macro & Política
O centro da semana esteve no mercado de títulos americano. Os índices de gerentes de compras dos Estados Unidos vieram no maior nível desde 2022, e os pedidos de auxílio-desemprego caíram. Com o banco central norte-americano já de volta ao ciclo de alta, o mercado passou a embutir mais aumentos de juros. Como resultado, o título de 30 anos alcançou o maior patamar desde 2004, numa das maiores altas diárias dos últimos anos.
O petróleo agravou o quadro. A commodity voltou a superar a marca de cem dólares com Estados Unidos e Irã distantes sobre o Estreito de Ormuz. Inclusive, a hipótese de uma restrição americana à exportação de diesel tocou diretamente o Brasil, principal destino desse combustível. A cúpula entre os presidentes dos Estados Unidos e da China, por sua vez, rendeu apenas a extensão da trégua comercial por dois meses, sem avanço em tarifas ou tecnologia.
No Brasil, política monetária e política fiscal seguiram em direções opostas. A ata do Copom manteve a porta aberta para novos cortes, e o relatório trimestral do Banco Central reduziu a projeção de crescimento. A prévia da inflação, porém, surpreendeu para cima de forma disseminada, com o fim do bônus de Itaipu na conta de luz e aceleração de serviços e núcleos. No fiscal, o relatório bimestral cortou a estimativa de arrecadação em R$ 15,7 bilhões, enquanto o governo ampliou o Bolsa Família e anunciou medidas provisórias sobre apostas online e renegociação de dívidas.
Desempenho do Real (BRL)
O real oscilou dentro da faixa recente, mas terminou mais fraco. No início da semana, o dólar recuou ao patamar de R$ 5,10. Depois, no meio do período, veio a maior alta intradiária em quase três meses, e o fechamento ficou perto de R$ 5,19.
A pressão veio do dólar forte no mundo, da proteção contra o risco eleitoral e da demanda por moeda à vista no fim do trimestre. Diante disso, o Banco Central respondeu com leilão de linha de US$ 1 bilhão, e o diferencial de juros segue sustentando o real.
Curva de Juros
A curva fez uma ida e volta. No início da semana, os vencimentos longos recuaram com o petróleo mais baixo e a leitura eleitoral. Mas, no meio, a disparada dos títulos americanos devolveu esse ganho numa só sessão. Ao final, o plano iraniano trouxe novo recuo, mesmo com a inflação acima do esperado. O vértice de janeiro de 2027 ficou praticamente parado, e a ponta longa encerrou perto da casa dos quatorze.
Para a política monetária, o quadro ficou mais apertado. A atividade em desaceleração ainda sustenta a continuidade dos cortes, com o próximo passo esperado para novembro. Contudo, a surpresa da inflação levou a casa a revisar para cima a projeção do ano, e dezembro passa a depender do câmbio e do efeito das eleições sobre o real.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O estrangeiro alternou entrada e saída, com retirada no dia de maior estresse global. Mesmo assim, o acumulado do mês seguiu positivo na casa dos bilhões de reais, e o saldo do ano permanece no azul. No dia mais tenso para os emergentes, o real caiu menos que os pesos mexicano e colombiano, sinal de que o juro alto ainda protege o real.
Narrativas & Cenários
A tensão da próxima semana é direta. O alívio externo, com petróleo cedendo e títulos americanos respirando, dura o suficiente para compensar o choque doméstico de inflação e fiscal? Se o plano iraniano avançar, abre-se espaço para a curva devolver prêmio antes do Copom de novembro. Se o petróleo voltar a subir, a inflação importada se soma à surpresa da prévia e o espaço para cortes encolhe. Acima de tudo, o primeiro turno é um evento binário capaz de mudar o regime fiscal em qualquer direção.
Como mostra a carteira recomendada de ações, a bolsa brasileira segue descontada. Só que desconto sozinho não atrai comprador: ele vira fluxo quando juro, fiscal e eleição derem clareza. Por isso, a casa privilegia liquidez remunerada e juro prefixado curto, com exposição medida em bolsa.
A agenda concentra os gatilhos. Na segunda e na terça saem novas pesquisas eleitorais, e à noite de terça chegam os indicadores de atividade da China. Na quarta, o índice de preços preferido do banco central norte-americano vem junto com a revisão do PIB dos Estados Unidos, e na sexta sai o relatório de emprego americano. No domingo, o país vai às urnas no primeiro turno.
