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Publicado em 04 de Setembro de 2026 às 20:36:32

Expresso Bolsa Semanal: Rali Eleitoral, Petróleo e Fed Dividido

A semana foi do rali eleitoral. Quatro institutos mostraram a disputa presidencial apertando, com Flávio Bolsonaro encostando no presidente no segundo turno. Em um deles, apareceu à frente pela primeira vez desde maio. Como resultado, o Ibovespa emendou onze altas seguidas, subiu ao maior patamar desde maio e liderou o desempenho global do período, na contramão das bolsas americanas e europeias. O movimento foi carregado pelo investidor local e por opções de compra do índice; o estrangeiro apenas parou de vender.

O pano de fundo externo, contudo, seguiu adverso. A retomada dos confrontos entre Estados Unidos e Irã devolveu o petróleo à casa dos noventa e cinco dólares, enquanto os juros longos globais renovaram máximas de vários anos. O Brasil descolou por três vetores próprios: a eleição mais competitiva, a atividade em desaceleração que reabriu o debate de cortes da Selic e as commodities em alta. A leitura da casa é que o descolamento é real, mas tático. O rali eleitoral se sustenta em probabilidade, não em fundamento, e probabilidade muda com uma pesquisa.

Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)

A ponta positiva misturou domésticas sensíveis a juros e histórias corporativas. A Magazine Luiza liderou, impulsionada pela queda da curva e pela parceria com o Mercado Livre para vender no marketplace. A CSN veio logo atrás por dois motivos em sequência. Primeiro, a expectativa de venda da vertical de cimentos, que reduziria a alavancagem; depois, a troca de comando após mais de duas décadas, lida como pragmatismo. A Azzas disparou com a cisão que separa de novo Arezzo e Soma, encerrando uma fusão que destruiu valor. Vamos, C&A e Assaí vieram no embalo do consumo reprecificado por juros menores. Já o Banco do Brasil seguiu como termômetro da percepção eleitoral.

Do lado negativo, a lista foi curta. A Rumo caiu depois que uma casa de análise reduziu a recomendação para neutra, citando volumes conservadores e menor capacidade de dividendos. A Cosan, por sua vez, sofreu por tabela, pela exposição à ferrovia. A MBRF devolveu parte do rali das proteínas, e a PRIO cedeu na sexta com o recuo pontual do barril. A Vale ficou de lado: subiu com o minério no meio da semana, mas o pagamento de dividendos descontou o papel na quinta. Embraer e Totvs completaram as baixas.

Macro & Política

Lá fora, a semana começou com o Fed no modo duro e terminou dividida. O tom firme de Jackson Hole colocou uma alta de juros em setembro no preço, e os juros longos americanos voltaram às máximas desde o fim de 2023. A geopolítica agravou o quadro, pois Estados Unidos e Irã voltaram a se atacar e o diesel americano bateu recorde. Assim, a correlação entre petróleo e juro americano chegou à maior desde a crise financeira. No meio da semana, a fala mais branda de um dirigente votante do Fed reduziu as apostas de alta e deu fôlego às bolsas de Nova York.

O emprego de sexta desfez parte desse alívio. A economia americana criou vagas bem acima de todas as estimativas, então as apostas de alta do Fed voltaram a subir. O Japão foi o outro foco. A possibilidade de uma alta maior de juros e a suspeita de intervenção fortaleceram o iene, o que reabriu o debate sobre o custo do funding global.

No Brasil, o dado que importou foi a composição, não o número cheio. O PIB do segundo trimestre veio acima do esperado, mas o consumo das famílias recuou e a indústria registrou a maior contração em quarenta meses. Ou seja, o consumidor bateu no limite depois de anos de estímulo, e a curva passou a embutir mais dois cortes da Selic. A política andou em paralelo. O orçamento de 2027 chegou ao Congresso com o esforço fiscal por fazer, o fim da escala 6x1 ficou para depois do primeiro turno e a crise no STF escalou com o caso Master. Esse ruído institucional alimenta o rali eleitoral e eleva o prêmio de risco de quem carrega Brasil.

Desempenho do Real (BRL)

O real esteve entre as moedas emergentes de melhor desempenho na primeira metade da semana. Na quarta, após a terceira pesquisa seguida com a disputa apertada, o dólar caiu abaixo de R$ 5,10, menor fechamento em um mês.

Na segunda metade o movimento perdeu força. A quinta trouxe realização; em seguida, o emprego americano forte de sexta devolveu fôlego ao dólar, com a moeda testando R$ 5,12. Mesmo assim, a sustentação segue firme: petróleo e commodities agrícolas em alta, balança comercial robusta, carry elevado e a interrupção da venda estrangeira. O Banco Central rolou os swaps e, ao deixar vencer parte do estoque em agosto, guardou munição para a volatilidade eleitoral.

Curva de Juros

A curva brasileira fechou a semana inteira, sobretudo nos vértices intermediários e longos. As pesquisas eleitorais comprimiram o prêmio de risco da ponta longa, enquanto os dados de atividade mais fracos reforçaram as apostas em cortes adicionais da Selic. Os contratos de 2029 tiveram o maior recuo, sinal de que o mercado comprou o meio da curva como aposta na mudança política. O Tesouro aproveitou e fez a segunda maior colocação de prefixados do ano, com demanda bem acima da média.

Na sexta, mesmo com o emprego americano forte pressionando o câmbio, os vencimentos médios e longos seguiram cedendo. Por isso, a precificação de cortes ganhou lastro na atividade. No entanto, o desenho segue inclinado: o trecho longo carrega o prêmio fiscal e a contaminação do juro global, cobrando dois riscos para uma convicção só. O Copom decide no dia 16, horas antes do Fed, com um corte já embutido.

Fluxo Investidor Estrangeiro

O estrangeiro virou o mês diferente. Agosto terminou com saída pesada de capital externo da bolsa, na casa das dezenas de bilhões de reais. Setembro, em contrapartida, começou com entradas líquidas nos primeiros pregões e o acumulado do mês já positivo. Ainda é pouco diante do que saiu: o vendedor parou de vender antes de o comprador chegar com convicção. O que traria esse comprador é uma leitura eleitoral mais concreta e uma regra fiscal crível.

Narrativas & Cenários

A tensão binária da próxima semana opõe o rali eleitoral doméstico ao choque de energia global. De um lado, pesquisas confirmando a disputa apertada, atividade em desaceleração e uma curva que já embute cortes. De outro, petróleo perto dos cem dólares, juros longos globais nas máximas e um Fed que recebeu um dado de emprego forte antes de decidir. A leitura da casa é que o rali é político e tático, já que parte relevante do movimento veio de derivativos com vencimento depois das eleições. Logo, uma pesquisa desfavorável devolve o movimento com velocidade ainda maior.

No médio prazo, a posição estrutural do Brasil não mudou. A dívida bruta segue perto do maior nível em anos e quase metade das emissões recentes está atrelada à Selic. O orçamento de 2027, por sua vez, depende de um ajuste que ninguém detalhou. Por isso o posicionamento da casa mantém a liquidez remunerada como opção sobre a volatilidade de setembro, com a bolsa brasileira em fatia medida. É a mesma lógica da carteira recomendada de setembro, com uma perna de resultado presente e outra de recuperação. Sem regra fiscal crível, o rali eleitoral continua sendo um trade, não uma tese.

A agenda concentra respostas. Na segunda a bolsa fecha pelo feriado, e o mercado volta na terça com a reação completa ao emprego americano. Na quinta sai a inflação americana de agosto, que decide se o Fed pausa ou sobe. Novas pesquisas devem chegar na semana, com o Banco do Brasil como termômetro. E no dia 16 os dois relógios batem juntos: Copom e Fed decidem no mesmo dia, com a curva local já embutindo um corte e a americana dividida ao meio.

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Filipe Villegas

Estrategista de Ações

Leitura Dinâmica

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