Em julho, as transações correntes do balanço de pagamentos registraram déficit de US$ 8,11 bilhões, ante déficit de US$ 6,9 bilhões no mesmo período do ano anterior. O resultado veio pior do que o consenso de mercado (-US$ 6,7 bilhões, Broadcast+) e do que a nossa projeção (-US$ 6,1 bilhões). No acumulado em 12 meses, o déficit somou US$ 63,1 bilhões (2,49% do PIB), apresentando melhora em relação ao observado no início do ano, quando alcançava US$ 65,7 bilhões (2,84% do PIB) em janeiro. Apesar da surpresa levemente negativa no mês, a situação das contas externas permanece saudável, com o IDP mais do que suficiente para financiar o déficit em transações correntes. Na conta corrente, as importações seguem fortes, ainda que contrabalançadas pelo bom desempenho das exportações, que continuam beneficiadas pelo cenário favorável às vendas de petróleo. Além das importações, chama atenção o comportamento da conta de serviços, cujo déficit segue em patamares historicamente elevados, sugerindo uma demanda doméstica ainda resiliente por serviços externos, sobretudo nas rubricas relacionadas à tecnologia.
A surpresa negativa se concentrou principalmente na balança comercial de bens, cujo superávit foi de US$ 6,2 bilhões em julho, ficando 3,7% abaixo do observado em julho de 2025 e também abaixo da nossa projeção de US$ 7,4 bilhões. O resultado refletiu tanto exportações abaixo da nossa expectativa quanto importações mais fortes. Apesar do resultado abaixo do esperado, a composição não trouxe uma leitura particularmente negativa. As exportações permaneceram em patamar elevado, avançando 5,7% a/a e alcançando o maior valor já registrado para um mês de julho, e seguem encontrando suporte no cenário favorável às exportações de petróleo diante dos gargalos logísticos associados ao conflito no Oriente Médio. Do lado das importações, chama a atenção a manutenção de um ritmo elevado de crescimento, de 8,1% a/a, sugerindo alguma resiliência da demanda doméstica mesmo diante de condições financeiras ainda restritivas. No acumulado em 12 meses, a balança comercial registrou superávit de US$ 70,2 bilhões, ante US$ 70,5 bilhões no mês imediatamente anterior.
A conta de serviços registrou déficit de US$ 5,3 bilhões em julho, ante US$ 4,8 bilhões no mesmo período de 2025. No acumulado em 12 meses, o déficit alcançou US$ 53,1 bilhões. A rubrica segue apresentando déficits elevados ao longo do ano, com julho registrando o maior déficit para o mês em sua série histórica, mas sem mudança relevante na direção observada nos últimos meses. Na comparação anual, o déficit avançou 9,6%. Entre as principais contribuições para o resultado destacaram-se transportes, fretes, viagens, serviços de propriedade intelectual e telecomunicação, computação e informações. No caso das viagens internacionais, a apreciação cambial observada no período, combinada à resiliência da renda doméstica, segue favorecendo as despesas de brasileiros no exterior. Já transportes e fretes permanecem pressionados pelos custos logísticos associados ao cenário internacional. Por sua vez, os serviços de propriedade intelectual e de telecomunicação, computação e informações seguem apresentando déficits historicamente elevados, reforçando a persistência da contribuição negativa dessas rubricas para o resultado do balanço de pagamentos.
O déficit em renda primária foi de US$ 9,4 bilhões em julho, ante US$ 9,0 bilhões no mesmo mês de 2025, acumulando US$ 86,2 bilhões em 12 meses. Parte relevante do déficit elevado no mês possui caráter mais mecânico do que econômico, refletindo a sazonalidade do calendário de pagamentos de juros e cupons de títulos negociados no mercado doméstico, sem sinalizar uma deterioração adicional dos fundamentos das contas externas.
Em relação à conta financeira, o IDP totalizou entradas líquidas de US$ 7,5 bilhões em julho, ligeiramente abaixo da nossa expectativa (US$ 7,8 bilhões). Acumulando em 12 meses um superávit de US$88,4 bilhões, equivalente a 3,5% do PIB. O resultado veio abaixo do observado em julho de 2025 (US$ 8,4 bilhões) em 11,2%, reversão de comportamento após meses de surpresa positiva. Na composição, a maior contribuição veio novamente de participação no capital, com entradas de US$ 7,2 bilhões, com um crescimento de 4,0% em comparação ao mesmo período do ano passado. A leitura segue positiva para o financiamento externo, especialmente porque o IDP permanece acima do déficit em transações correntes acumulado em 12 meses. Apesar da volatilidade dos fluxos financeiros, o financiamento estrutural do déficit externo segue confortável.
Os investimentos em carteira no mercado doméstico registraram ingressos líquidos de US$ 1,1 bi em julho de 2026. O resultado refletiu a combinação entre os ingressos líquidos em ações e fundos de investimento, de US$ 1,9 bi, e as saídas líquidas de US$ 0,7 bi dos investimentos em títulos negociados no mercado doméstico. No acumulado em 12 meses, os investimentos em carteira no mercado doméstico registraram ingressos líquidos de US$ 19,1 bi. A leitura de julho aponta para uma recomposição dos fluxos em direção a ações e fundos, revertendo o movimento observado em junho, enquanto os títulos domésticos apresentaram saída líquida no mês. Ainda assim, diante da elevada volatilidade característica dos investimentos em carteira, o movimento deve ser interpretado com cautela antes de caracterizar uma mudança mais persistente na composição dos fluxos.








