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Publicado em 23 de Outubro de 2026 às 18:44:16

Lula é reeleito à Presidência do Brasil: como investir

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Lula é reeleito à Presidência do Brasil: como investir

O resultado das urnas encerra a principal dúvida que movia os preços nas últimas semanas. Durante a campanha, o mercado passou a embutir nos ativos brasileiros a possibilidade de uma mudança na orientação fiscal: a Bolsa subiu, o real se valorizou e a curva de juros fechou, sobretudo nos vencimentos mais longos, que carregam o prêmio fiscal. Com a continuidade, essa expectativa sai do preço, e o primeiro movimento tende a ser a devolução do prêmio de risco que havia sido retirado. A continuidade combina uma política fiscal que segue sustentando a demanda com uma política monetária que precisa permanecer restritiva para conter a inflação. Sem uma âncora fiscal crível, os juros ficam altos por mais tempo e encarecem a própria dívida, num mecanismo de retroalimentação que o orçamento de 2027 não interrompe: a proposta prevê superávit primário de 0,5% do PIB, mas permite excluir da meta R$ 65,6 bilhões em despesas. É essa dinâmica, e não um evento isolado, que passa a comandar o preço dos ativos brasileiros. Daqui em diante, cada sinal sobre as contas públicas tende a mover câmbio, juros e Bolsa juntos, no mesmo sentido de risco: dólar e juros para cima e Bolsa para baixo, e o contrário quando a notícia é boa.

Um mundo mais caro e uma economia que perde fôlego

C E N Á RI O I N T ER N A C I O N A L : O C U S T O D O D I N H E IR O V O L T O U A S U BIR

O ambiente externo não ajuda. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve voltou a subir juros porque a economia ainda não sente na atividade o aperto necessário para devolver a inflação à meta. O banco central precisa de mais aperto para produzir o mesmo efeito de desaceleração, o que reduz o espaço para flexibilização monetária global e mantém condições financeiras restritivas para todos, emergentes inclusive. Ao mesmo tempo, o balanço de riscos pelo lado da oferta piorou. No Oriente Médio, as restrições no Estreito de Ormuz ampliam o choque para além do preço do petróleo, alcançando fretes, seguros e rotas alternativas. No Mar Negro, os ataques à infraestrutura de grãos voltam a pressionar os alimentos. Quando energia e alimentos pressionam juntos, o risco deixa de ser um evento isolado e passa a ameaçar as expectativas de inflação de forma mais persistente. Nas últimas semanas, um novo vetor entrou no radar: a correção das ações ligadas à inteligência artificial. O movimento começou como realização, com dúvidas sobre o retorno dos investimentos em tecnologia, e pode ter sido ampliado por vendas forçadas para cobrir chamadas de margem. O risco de fundo é que um recuo desse ciclo de investimento, somado à perda de riqueza das famílias com a queda das bolsas, desacelere a economia americana enquanto a inflação segue pressionada. Seria uma combinação difícil para o Fed, sem saída confortável: cortar juros poderia alimentar a inflação; manter ou subir poderia aprofundar a desaceleração. Em qualquer dos casos, o vetor externo não define sozinho a direção dos ativos brasileiros. Neste cenário, o fator dominante é doméstico: mesmo que o mundo ajude, o real tende a perder valor se o prêmio de risco do país subir.

C E N Á RI O D O M É S T I C O : A E C O N O M I A P ER D E F Ô L E G O E O F I S C A L D E C I D E O R U M O D O S PRE Ç O S

A atividade brasileira dá sinais de que a política monetária começa a prevalecer sobre os estímulos fiscais que vinham sustentando a demanda. Os dados mais recentes mostram a economia perdendo fôlego, e parte do mercado já projeta retração do PIB no terceiro trimestre. O canal mais relevante é o crédito: o que importa para o consumo é o fluxo líquido, o crédito novo que entra menos o que sai em juros e amortizações. Com a inadimplência e o comprometimento da renda nos maiores níveis da série histórica, esse fluxo se deteriora, e o consumo recua mesmo com desemprego baixo e renda elevada. Entre as empresas, as recuperações judiciais, antes concentradas na indústria e nos serviços, passaram a atingir também o agronegócio nos últimos anos. Com famílias, empresas e governo mais endividados, sobra menos espaço para o investimento produtivo. A inflação corrente ainda favorece o Banco Central, mas essa janela começa a se fechar já neste quarto trimestre e deve piorar no início de 2027, com alimentos sob efeito de um El Niño forte e petróleo pressionado pelos choques geopolíticos. O Copom enfrenta uma decisão de risco assimétrico: cortar demais arrisca afastar ainda mais da meta expectativas de inflação que já estão acima dela; cortar de menos aprofunda uma desaceleração que já está em curso. Na continuidade, a alta do prêmio de risco e a pressão cambial estreitam esse caminho, e o ciclo de cortes tende a ser mais lento e mais raso do que o mercado esperava. É nesse ponto que o fiscal amarra todo o quadro. Um governo mais endividado sustenta um prêmio de risco mais alto nos juros de mercado, o que encarece o crédito que já pesa sobre famílias e empresas e reduz a eficácia de cada corte da Selic. A desaceleração, por sua vez, enfraquece a arrecadação e torna o ajuste ainda mais difícil.

Fontes: Federal Reserve (decisão de 16/09/2026, faixa de 3,75% a 4,00%); Banco Central (inadimplência das famílias de 6,0% em agosto e comprometimento da renda com dívidas de 28,9% em junho, maiores níveis da série); NOAA (El Niño forte em 2026 e 2027); Serasa Experian (recuperações judiciais no agro); Reuters (Estreito de Ormuz e Mar Negro).

Dois caminhos dentro da continuidade

Depois da reprecificação inicial, enxergamos dois caminhos possíveis. Eles pedem proteções diferentes e podem até se suceder ao longo do mandato, por isso a carteira precisa estar preparada para os dois.

Liquidez, inflação curta e moeda forte

A estratégia parte de uma constatação: num país negociado como trade fiscal, o risco mais caro de carregar é o doméstico. A carteira, portanto, privilegia proteção em vez de exposição ao ciclo brasileiro e prepara o investidor para os dois caminhos descritos na página anterior. Ela se organiza em torno de três funções, liquidez remunerada no pósfixado, preservação do poder de compra no IPCA+ de prazo curto e moeda forte, que responde por 30% da carteira, e de uma aposta moderada, no prefixado curto, de que os juros caiam. A Bolsa brasileira tem posição mínima, de 5%, concentrada em setores defensivos.

Bolsa defensiva e renda fixa em dólar

B O L S A BR A S I L E IR A : N Ã O RE C O M E N D A M O S A U M E N T A R A E X P O S I Ç Ã O

Neste cenário, a Bolsa perde atratividade no agregado, porque dois vetores jogam contra o índice ao mesmo tempo. O primeiro é o custo de capital próprio (Ke), o retorno mínimo exigido pelos acionistas para manter recursos investidos nas empresas, em vez de aplicá-los em outra alternativa de risco semelhante: quando o prêmio de risco do país sobe, esse custo exigido aumenta e o múltiplo que o investidor aceita pagar pelos lucros (P/L) diminui. O segundo é a desaceleração, que pressiona os próprios lucros. Em nosso modelo de valuation, o cenário sem ajuste fiscal, com Ke maior, P/L menor e lucros em desaceleração, leva o Ibovespa a 163.431 pontos no fim de 2026 e a 172.680 pontos no fim de 2027. Com o índice em 204.120 pontos (fechamento de 22/10/2026), isso implica queda de cerca de 20% até o fim de 2026 e de cerca de 15% até o fim de 2027. O alvo de 2027 é maior que o de 2026 porque o valor justo avança com o crescimento dos lucros ao longo do tempo, mas segue abaixo do nível atual, porque o múltiplo menor pesa mais.

Para o investidor que gosta de ações e quer manter uma posição, a preferência é por setores defensivos, que prestam serviços essenciais, têm receita mais previsível e tendem a atravessar melhor um ambiente de juros altos e câmbio depreciado:

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Thainá Rambaldo

Analista Macro

Filipe Villegas

Estrategista de Ações

Roberto Motta

Estrategista Macro

Leitura Dinâmica

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