O primeiro turno levou o Ibovespa ao recorde acima de 209 mil pontos, derrubou o dólar abaixo de R$ 5 e fez os juros longos desabarem. O que sustenta o rali é o ajuste fiscal sair do papel depois de 25 de outubro.
A melhor semana desde 2020
A semana foi do Brasil. O resultado do primeiro turno, com a liderança de Flávio Bolsonaro e um Congresso mais à direita, disparou a maior reprecificação dos ativos locais desde 2020. Assim, a bolsa teve a melhor semana em seis anos, o dólar caiu forte e os juros futuros desabaram. Lá fora, porém, o cenário seguiu pesado. O juro longo americano continuou perto das máximas desde 2002, e o petróleo oscilou com as tensões no Irã. Só na sexta a commodity aliviou, depois que Trump descartou um ataque antes das eleições americanas.
No Brasil, o Ibovespa subiu com força e fechou acima de 209 mil pontos, em nível recorde. Além disso, a segunda-feira teve o maior volume negociado da série histórica, e as small caps foram ainda mais longe. A leitura da casa é de que o mercado deu ao Brasil o benefício da dúvida. Ainda assim, a alta só se sustenta se o ajuste fiscal prometido pela campanha ganhar forma depois do segundo turno, em 25 de outubro.
O resultado eleitoral abriu espaço para reprecificar o Brasil, mas a continuidade depende da equipe econômica e de um ajuste fiscal concreto.
Domésticas na frente, exportadoras atrás
As maiores altas vieram das empresas mais sensíveis a juros e ao consumo doméstico. A Magazine Luiza liderou, já que o custo de capital e o crédito parcelado pesam no seu lucro. Por isso, o mercado passou a pagar mais pela perspectiva de juros menores. A Vamos subiu junto com as empresas do grupo Simpar, porque o aluguel de caminhões exige frota financiada com dívida. A Smart Fit acompanhou o grupo das domésticas que puxaram o índice de small caps. Já a MRV disparou na sexta, depois de uma prévia operacional resiliente e da redução da dívida com a venda das operações nos Estados Unidos.
Na outra ponta ficaram as exportadoras. Elas serviam de proteção caso não houvesse alternância e, com o real mais forte, perderam esse papel. A Embraer liderou as perdas, sem notícia própria que explicasse o recuo. A Vale caiu com o minério de ferro no menor nível em dezoito meses. Enquanto isso, a Suzano acompanhou a fraqueza das exportadoras com o dólar em queda.
Liderou a semana: o custo de capital e o crédito parcelado pesam no lucro, e o mercado passou a pagar pela perspectiva de juros menores.
Subiu com as empresas do grupo Simpar: o aluguel de caminhões exige frota financiada com dívida, e a live citou possível cobertura de vendidos.
Sem notícia própria; acompanhou as domésticas sensíveis a juros que puxaram o índice de small caps.
Sem notícia própria; caiu com as exportadoras, que perderam o papel de proteção com o real mais forte.
Caiu com o minério de ferro no menor nível em dezoito meses, com oferta maior e demanda fraca na China.
Acompanhou a fraqueza das exportadoras com o dólar em queda depois do primeiro turno.
Small caps são a duration da bolsa: mais sensíveis ao custo de capital, ao crédito e aos juros reais, ganham mais quando a curva fecha, mas também seriam as que mais sofreriam num cenário de continuidade.
Fed duro, petróleo nervoso, IPCA acima
O pano de fundo externo seguiu desafiador. A ata do Fed mostrou que a maioria dos dirigentes vê provável mais uma alta de juros até o fim do ano. Depois, novas falas reforçaram a postura dura diante da inflação. Por isso, o juro de dez anos americano ficou perto das máximas em mais de duas décadas. Na Europa, a França voltou ao centro das atenções, com déficit elevado e juros longos em alta.
Na geopolítica, ataques atribuídos ao Irã contra navios no Estreito de Ormuz fizeram o petróleo saltar no meio da semana. Na sexta, porém, a declaração de Trump devolveu parte desse prêmio de guerra. Ao mesmo tempo, a receita maior da OpenAI animou as bolsas americanas, embora o ciclo de inteligência artificial dependa cada vez mais de dívida.
Aqui, o IPCA de setembro veio acima do esperado, puxado por serviços, combustíveis e o fim do bônus de Itaipu. Mesmo assim, a eleição dominou a precificação. Flávio Bolsonaro recebeu apoio de partidos do centro e liderou as pesquisas de segundo turno. Além disso, a campanha passou a falar em um ajuste fiscal de R$ 250 bilhões, ainda sem detalhes.
Apesar do IPCA mais forte, a leitura ainda contempla cortes nas duas próximas reuniões do Copom, com ajuda de uma política fiscal mais crível.
O real abaixo de R$ 5
O real teve a melhor semana desde 2022. O dólar caiu forte na segunda e terminou a semana abaixo de R$ 5. Ao mesmo tempo, a volatilidade da moeda despencou, e o real passou a andar junto com o peso mexicano e o rand sul-africano.
O suporte veio da leitura de que um ajuste fiscal crível reduziria o prêmio de risco do país. Prova disso, o CDS do Brasil caiu ao menor nível desde o início de 2020. Já a pressão veio de fora, com o dólar forte no mundo e o petróleo volátil.
O dólar global pode ter feito o teto depois da reunião do Fed, o que ajudaria o real e os ativos emergentes.
A curva fechou em cinco dias
A curva teve um fechamento histórico, apostando no ajuste fiscal. Os juros longos caíram com força na segunda, e a B3 chegou a ampliar os limites de oscilação dos contratos. Na semana, o vencimento de janeiro de 2029 recuou perto de cento e cinquenta pontos-base. Em seguida, o Tesouro aproveitou e fez a maior oferta de prefixados do ano, concentrada nos prazos curtos.
Com isso, a curva passou a precificar Selic abaixo de 12 ao fim de 2027. Nem o IPCA acima do esperado mudou essa leitura, porque a perspectiva fiscal a partir de 2027 pesou mais que a inflação. O risco, portanto, é a reversão: se o ajuste sair desidratado, esse prêmio pode voltar.
A queda dos juros futuros reflete a expectativa de alternância e de responsabilidade fiscal, que precisa se concretizar para a reprecificação se sustentar.
O estrangeiro comprou forte
O estrangeiro foi comprador decidido. Ele trouxe cerca de R$ 10 bilhões num único pregão, na segunda. Por isso, bancos globais elevaram a recomendação para a bolsa brasileira. Até a terça, o mês acumulava entrada de R$ 13,7 bilhões, enquanto a pessoa física e os fundos locais venderam. Além disso, o Brasil passou a ser visto como contrapeso a carteiras concentradas em inteligência artificial.
O processo de entrada do estrangeiro está apenas começando, e o Brasil pode servir de contrapeso a carteiras muito expostas a inteligência artificial.
Ajuste cheio ou desidratado
A tensão das próximas semanas é se o ajuste fiscal sai cheio ou desidratado. Afinal, a curva já embutiu a versão completa. Se a proposta chegar forte ao Congresso, o rali tem espaço. Por outro caminho, promessas de campanha podem diluir o pacote, como o reajuste acima da inflação para aposentados e a PEC do fim da reeleição. Nesse caso, os juros longos devolvem parte da queda.
A posição estrutural do Brasil melhorou, mas o teto externo continua. Isto é, o juro americano alto e o petróleo caro limitam até onde o Banco Central pode cortar. Na carta de outubro, a casa deu o primeiro passo do CDI para o risco: a bolsa brasileira virou a maior posição de risco da carteira, com preferência pelas domésticas e pelas small caps, que funcionam como a duration da bolsa. Ainda assim, parte da liquidez segue guardada, porque o voto decide o nome, mas o fiscal decide o preço.
Na agenda, o segundo turno em 25 de outubro é o grande catalisador. Depois vêm as eleições de meio de mandato americanas, em 3 de novembro, e o Copom, em 4 de novembro. Nesta semana, as pesquisas e os debates ditam o humor, e a temporada de balanços começa a ganhar corpo. Portanto, a volatilidade deve seguir alta até a urna, porque cada pesquisa testa o prêmio que o mercado acabou de comprimir.
Alternância confirmada e metas fiscais críveis da nova equipe: é o gatilho para a segunda etapa da rotação do CDI para a bolsa e para os ativos longos.
Um pacote desidratado por promessas de campanha devolve prêmio aos juros longos e ao dólar; o juro americano alto limita o Banco Central.