Pesquisas de segundo turno empatadas e propostas de gasto devolveram parte do rali pós-urna: o Ibovespa caiu, as small caps recuaram mais, o dólar voltou para cima de R$ 5 e os juros futuros abriram.
A semana que devolveu o rali
A semana devolveu parte do rali pós-urna. As pesquisas de segundo turno mostraram a disputa praticamente empatada, e propostas de gasto da campanha do governo reacenderam a dúvida fiscal. Lá fora, a liquidação em tecnologia ligada à inteligência artificial derrubou o Nasdaq. Ao mesmo tempo, a inflação americana veio acima do esperado e o petróleo seguiu acima de US$ 100.
No Brasil, o Ibovespa recuou e fechou a semana perto de 205 mil pontos, depois de renovar o recorde na sexta anterior. As small caps caíram mais, porque foram as que mais tinham subido. Por isso, o dólar voltou para cima de R$ 5 e os juros futuros abriram. A leitura da casa é de que o mercado tirou o excesso de certeza do preço: o rali dependia de uma vitória folgada e de um ajuste fiscal crível, e a semana colocou as duas coisas em dúvida.
O mercado está reagindo principalmente às eleições e às propostas de gasto, e não aos dados correntes de atividade. ▶ Fechamento 15/10
Petróleo em alta, domésticas em queda
As altas vieram de quem não depende do ciclo doméstico. A PRIO liderou com o petróleo acima de US$ 100, e a live de fechamento citou ainda a elevação de preço-alvo por uma casa estrangeira. A Petrobras subiu pelo mesmo motivo, e o setor de energia foi o melhor da bolsa em mais de um pregão. Já a Ambev avançou sem notícia própria, num movimento típico de busca por empresas defensivas.
Na outra ponta ficaram as empresas mais sensíveis a juros e crédito, justamente as que lideraram o rali. A Vamos liderou as perdas, porque o aluguel de caminhões depende de frota financiada com dívida e sofreu com a abertura da curva. Enquanto isso, a Direcional despencou depois de uma prévia operacional fraca, com vendas e lançamentos em queda forte, que a análise ligou à seletividade da Caixa no crédito. A Tenda seguiu o setor de construção de baixa renda, pressionado pelos juros e pelas prévias fracas das concorrentes.
Varejistas e empresas domésticas são as mais sensíveis aos juros e ao crédito; por isso a diferença entre exportadoras e small caps abriu tanto na semana. ▶ Fechamento 13/10
Inflação americana acima, IA em xeque
Nos Estados Unidos, o núcleo da inflação ao consumidor veio acima do esperado, e a inflação ao produtor também surpreendeu para cima. Mesmo assim, os juros longos caíram na semana. A leitura da casa é de que o mercado passou a temer uma desaceleração ligada ao investimento em inteligência artificial, com os semicondutores em queda prolongada. Na sexta, o presidente do Fed evitou sinalizar nova alta de juros, e as apostas de aperto em outubro recuaram.
O petróleo seguiu pressionado pelo conflito com o Irã, e a Alemanha aprovou liberar estoques depois de um acordo do G7. Desse modo, a combinação de energia cara e atividade em desaceleração mantém o risco de estagflação no radar dos mercados globais.
Aqui, a eleição dominou a semana. A pesquisa PoderData mostrou a vantagem de Flávio Bolsonaro caindo para dois pontos, e a Quaest e o Datafolha confirmaram o empate técnico. Além disso, o perdão de dívidas de MEIs, a renegociação de dívidas de famílias e a proposta de tarifa zero no transporte reforçaram a dúvida fiscal. O Congresso também aprovou o fim da escala 6x1, que eleva o custo da mão de obra para varejo e serviços. Na sexta, o IBC-Br de agosto veio acima do esperado, mas a leitura da casa segue apontando sinais de desaceleração da atividade, com o varejo praticamente parado.
A queda dos juros longos americanos pode ser uma reprecificação do crescimento, diante do risco de o investimento em inteligência artificial desacelerar. Com energia cara, o risco é estagflação. ▶ Fechamento 15/10
O dólar voltou para cima de R$ 5
O real devolveu parte do ganho da semana anterior. O dólar subiu em quase todos os pregões e chegou a passar de R$ 5,09 na quinta, depois da pesquisa Quaest e da notícia sobre a tarifa zero no transporte.
A moeda apanhou do lado doméstico, porque a dúvida fiscal voltou a pesar no prêmio de risco com as pesquisas mais apertadas. Em contrapartida, o dólar mais fraco no mundo limitou a alta, já que os juros americanos recuaram.
O dólar mais fraco no mundo pode beneficiar o real, mas aqui a volatilidade segue presa às pesquisas, às propostas fiscais e ao debate de domingo. ▶ Morning Call 16/10
A curva devolveu parte do fechamento
A curva devolveu parte do fechamento histórico. Os juros futuros abriram mais de vinte pontos-base na terça, logo depois do feriado, e voltaram a saltar na quinta, nos vencimentos médios e longos. Assim, o trecho de 2029 subiu de volta para perto de 12,7.
A precificação da Selic também mudou. A curva tinha passado a embutir juros abaixo de 12 ao fim de 2027, e parte dessa aposta foi desfeita com a dúvida fiscal. Ainda assim, operadores seguem vendo espaço para o Banco Central continuar cortando, desde que o pacote fiscal se materialize.
A valorização recente e o fechamento da curva refletiam a expectativa de responsabilidade fiscal numa alternância; a aproximação nas pesquisas e o perdão de dívidas levantaram dúvidas sobre isso. ▶ Fechamento 13/10
O estrangeiro tirou o pé
O estrangeiro desacelerou depois da entrada recorde da semana anterior, e a B3 divulga o fluxo com cerca de dois dias de atraso. Por isso, o saldo dos últimos pregões divulgados mostra entrada bem menor, sem nenhum dia perto do ingresso recorde de outubro. No ano, o saldo continua positivo, sustentado pelo forte ingresso do começo de outubro.
Depois da reação às pesquisas e às propostas econômicas, o fluxo estrangeiro é o termômetro a acompanhar. ▶ Morning Call 16/10
Empate ou vantagem clara
A tensão para as próximas semanas é se as pesquisas voltam a dar vantagem clara a um dos lados ou se o empate persiste. Afinal, o preço ainda carrega parte da aposta de alternância. Se a vantagem de Flávio Bolsonaro se recompuser e a equipe econômica ganhar nomes, o prêmio fiscal volta a cair; por outro caminho, a dúvida fiscal das novas propostas de gasto e o empate prolongado devolvem mais prêmio aos juros longos e ao dólar.
A posição estrutural do Brasil não mudou na semana, mas a volatilidade subiu. A carta de outubro deu o primeiro passo do CDI para o risco e guardou liquidez justamente para a segunda etapa, que depende da urna e dos sinais fiscais. Por isso, a correção desta semana testa a tese sem desmontá-la, porque o voto decide o nome, mas o fiscal decide o preço.
Na agenda, o debate de domingo e as últimas pesquisas abrem a semana. Depois, o segundo turno em 25 de outubro é o grande catalisador, seguido pelas eleições de meio de mandato americanas, em 3 de novembro, e pelo Copom, em 4 de novembro. Portanto, a volatilidade deve seguir alta até a urna.
Vantagem clara de um lado nas pesquisas e sinais fiscais concretos, com equipe econômica definida: é o gatilho para a segunda etapa da rotação do CDI para a bolsa.
Empate prolongado e novas propostas de gasto devolvem prêmio aos juros longos e ao dólar; o juro americano alto limita o Banco Central.