A vitória de Lula pegou o mercado posicionado para a alternância: o Ibovespa teve uma das piores semanas da história, o dólar passou de R$ 5,40 e os juros longos dispararam, enquanto lá fora a tecnologia voltou a cair.
A semana que reprecificou o Brasil
A semana foi de reprecificação violenta dos ativos brasileiros. A vitória de Lula no segundo turno pegou a maior parte do mercado posicionada para a alternância de poder, e a segunda-feira teve um dos piores pregões da história da bolsa. Lá fora, a dúvida sobre o retorno do investimento em inteligência artificial voltou a derrubar a tecnologia, e o Fed manteve o tom duro.
No Brasil, o Ibovespa teve uma queda acentuada na semana, a maior parte dela na segunda, e as small caps despencaram ainda mais. Consequentemente, o dólar subiu com força e os juros futuros longos dispararam. Na segunda, a B3 precisou mudar a regra do circuit breaker para o mercado conseguir abrir. Depois de um alívio na terça, a pressão voltou na quarta e na quinta. A leitura da casa é de que o Brasil voltou a ser um debate de sustentabilidade da dívida: sem uma equipe econômica com credibilidade e respaldo explícito do presidente, o cenário é de juros mais altos, dólar mais caro e bolsa mais baixa.
O Brasil é um play de juros, e o debate é a sustentabilidade da dívida. Diferente de 2022, o mercado não dará o benefício da dúvida: o governo precisa contratar credibilidade com um nome forte na economia e respaldo explícito. ▶ Fechamento 26/10
Exportadoras sobem, alavancadas despencam
As exportadoras lideraram as poucas altas. A Suzano liderou as altas, porque a receita em dólar ganhou valor com o câmbio, e ainda anunciou aumento no preço da celulose. A WEG e a Embraer seguiram o mesmo caminho: são exportadoras que se beneficiam do dólar mais forte e ficam fora da discussão doméstica.
Em contrapartida, as maiores quedas vieram das empresas alavancadas e dependentes de juros menores, as que mais tinham subido com a aposta na alternância. A Vamos liderou as perdas, junto com as small caps e as empresas ligadas à economia doméstica, que despencaram já na segunda. A Magazine Luiza, que era a ação símbolo do trade eleitoral, perdeu o vento favorável dos juros em queda. A Cosan caiu sem notícia própria.
A queda é mais justa para umas empresas do que para outras: as alavancadas, que devolveram o prêmio, dificilmente voltam sem uma equipe econômica comprometida. ▶ Fechamento 26/10
Eleição muda o jogo, tecnologia em xeque
Lá fora, os balanços reacenderam a dúvida sobre o investimento em inteligência artificial. A Alphabet caiu forte depois de anunciar mais gastos, a Amazon mostrou o crescimento de vendas online mais lento em três anos, e a Intel ampliou o pessimismo. Em contraste, a Microsoft subiu com o crescimento da nuvem. Assim, o Nasdaq voltou a cair, enquanto setores defensivos ganharam espaço. O ouro e o bitcoin também recuaram, sinal de venda para cobrir perdas.
O Fed manteve os juros, mas com dois votos a favor de alta, e anunciou que algumas reuniões dos próximos anos não terão votação. Por sua vez, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão também soaram mais duros. Enquanto isso, o petróleo seguiu acima de US$ 110, com o risco no Estreito de Ormuz ainda no preço.
Aqui, o resultado da eleição mudou o jogo em um dia. A curva de juros apagou a chance de corte da Selic e passou a embutir alta, e o Tesouro precisou recomprar títulos e cancelar leilões. Ao mesmo tempo, a dívida bruta subiu ao maior nível desde 2021, e o mercado espera o nome do novo ministro da Fazenda. Na quinta, a notícia de um nome bem visto para a Fazenda trouxe algum alívio.
A queda da tecnologia é um evento macro, e não só setorial: está ligada ao investimento em inteligência artificial, ao efeito riqueza e ao custo de financiamento. ▶ Morning Call 30/10
O dólar acima de R$ 5,40
O real teve a pior semana entre as moedas que acompanhamos, e o dólar subiu de R$ 5,04 para perto de R$ 5,42. Na segunda, o dólar chegou a R$ 5,60, a maior alta dentro do dia desde a maxidesvalorização de 1999.
Mesmo assim, o real foi o ativo brasileiro que menos sofreu. Na terça, depois que a oposição reconheceu a derrota, a moeda foi a melhor entre as emergentes, mas a falta de sinal fiscal levou o dólar de volta para cima até o fim da semana.
O real foi o ativo brasileiro que menos sofreu, mas o caminho do câmbio daqui para frente depende do anúncio de uma equipe econômica com credibilidade. ▶ Fechamento 26/10
A curva trocou corte por alta
Os juros futuros longos dispararam na segunda, com saltos de mais de duzentos pontos-base, e a taxa de juros de dois anos teve a maior variação desde 2002. Na terça, as recompras do Tesouro fizeram a curva devolver parte da alta; contudo, ela voltou a abrir na quarta. No saldo da semana, a curva abriu com força nos vencimentos intermediários e longos; a ponta curta subiu bem menos.
Com isso, a curva trocou os cortes de antes por alta da Selic à frente. Para a casa, só a credibilidade fiscal, com uma equipe econômica forte, devolve os juros para baixo; enquanto isso, o Tesouro reduziu as emissões e os títulos longos seguem pressionados.
O prêmio de risco sobe enquanto não houver agenda fiscal, e ajustes a conta-gotas não resolvem a equação; os ativos brasileiros só voltam a ser oportunidade quando juros e câmbio pararem de ser reprecificados. ▶ Morning Call 30/10
O estrangeiro virou vendedor
O estrangeiro virou vendedor forte. A B3 divulga o fluxo com cerca de dois dias de atraso, e os últimos pregões divulgados mostram saída pesada, que devolveu boa parte da entrada de outubro. No ano, o saldo ainda é positivo, mas bem menor que o da semana anterior, enquanto a pessoa física comprou a queda.
O estrangeiro ainda pode sair mais da bolsa, enquanto a pessoa física compra a queda. ▶ Morning Call 29/10
O nome da Fazenda decide o preço
A tensão para a próxima semana é o nome do ministro da Fazenda e o compromisso fiscal do novo governo. Um nome com credibilidade, com respaldo explícito do presidente e metas claras para as contas públicas, tende a aliviar os juros longos e o dólar. Já a demora ou um sinal de mais gasto devolve prêmio aos juros e mantém a bolsa sob pressão. Além do nome, o mercado acompanha a medida provisória do Imposto Seletivo, prevista para terça.
A posição estrutural do Brasil piorou na semana: a bolsa ficou ainda mais barata, mas o preço depende do fiscal, e o risco de recessão em 2027 entrou no debate. Desse modo, o benefício da dúvida ao governo é quase nenhum, e o mercado vai cobrar números antes de voltar a comprar.
Na agenda, o pronunciamento do presidente à nação está previsto para a próxima semana. Depois, o Copom decide a Selic na quarta, com a expectativa de manutenção, e a produção industrial sai na quinta. Lá fora, o relatório de emprego americano fecha a semana na sexta.
Ministro da Fazenda com credibilidade, respaldo explícito do presidente e metas claras para as contas públicas: alivia juros longos e dólar e reabre espaço para a bolsa.
Demora no anúncio ou sinal de mais gasto devolve prêmio aos juros e ao dólar; o Fed duro e o petróleo alto tiram a âncora externa.
Primeiro sinal concreto da agenda de impostos do novo mandato.
A expectativa é de manutenção; o comunicado diz como o Banco Central lê o choque nos juros.
Mede a desaceleração que alimenta o debate de recessão em 2027.
Mostra se o mercado de trabalho americano sustenta o Fed duro.
O mercado precifica nova alta; o ritmo do Fed define o juro global.