O desmonte das posições em inteligência artificial derrubou as bolsas lá fora e o petróleo seguiu subindo; aqui, a eleição de domingo descolou os ativos: o Ibovespa terminou estável, as small caps subiram forte e o real foi a moeda de melhor desempenho.
A semana em que o risco travou
A semana foi de desmonte das posições em inteligência artificial. Na quinta, as ações de tecnologia americanas tiveram um tombo forte, e ouro, bitcoin e bolsas caíram juntos, algo raro desde a pandemia. Ao mesmo tempo, os títulos do Tesouro americano voltaram a servir de proteção, com o juro de dez anos em queda firme. Enquanto isso, o petróleo caminhou para a terceira alta semanal seguida, com ataques à infraestrutura de petróleo na Arábia Saudita.
No Brasil, a eleição de domingo ditou o preço, e os ativos domésticos se descolaram do exterior. O Ibovespa subiu com força na terça, quando as pesquisas favoreciam a alternância de poder, devolveu o ganho na quarta e na quinta e terminou a semana praticamente estável. Já as small caps tiveram alta forte, e o real foi a moeda de melhor desempenho entre as que acompanhamos. A leitura da casa é de que o Brasil virou um evento binário: proteger a carteira nunca custou tanto desde a pandemia.
O Brasil virou um trade eleitoral binário: a proteção nunca esteve tão cara desde a pandemia, e muitos investidores preferem reduzir a posição a pagar caro pelo seguro. ▶ Fechamento 22/10
Domésticas sobem, exportadoras caem
As altas vieram das empresas mais ligadas aos juros e à economia doméstica, as que mais ganham com a alternância de poder. A MRV liderou, puxada pelo trade eleitoral nas construtoras. A Magazine Luiza foi elevada a compra por uma casa estrangeira no início da semana e disparou na terça, junto com as varejistas. A Vamos acompanhou o mesmo movimento das empresas ligadas à economia doméstica.
Em contrapartida, as exportadoras ficaram na outra ponta. A WEG liderou as perdas depois de um balanço abaixo do esperado, com margem pressionada pelo cobre e pelo câmbio e uma avaliação considerada exigente. A Vale caiu com o minério de ferro mais fraco, a demanda chinesa e o frete mais caro, e teve na quinta a maior queda diária desde julho. A Bradespar caiu junto com a Vale, sem notícia própria.
Com a chance de juros menores numa mudança fiscal, empresas domésticas sensíveis a juros ganham da exportadora no custo de oportunidade; é isso que separa as duas pontas da bolsa. ▶ Fechamento 21/10
A inteligência artificial em xeque
Lá fora, o centro do debate foi se o investimento em inteligência artificial vai se pagar. Os balanços da semana reacenderam a dúvida: a Meta caiu forte ao anunciar mais gastos, e as ações de semicondutores despencaram. Fundos muito alavancados no tema sofreram uma das quedas mais generalizadas desde a pandemia. Para a casa, parte da queda é venda forçada para cobrir margem, e não só busca por proteção. O petróleo seguiu no sentido oposto, acima de US$ 110, porque os ataques no Oriente Médio aumentaram o risco para o Estreito de Ormuz.
Em seguida, os dados americanos reforçaram a dúvida sobre o crescimento. As vendas de imóveis caíram ao menor nível da série, e a confiança dos construtores está no pior patamar em catorze anos. Desse modo, o mercado passou a discutir quando o Fed volta a cortar juros, mesmo com a energia cara pressionando a inflação. Na Europa, o juro francês de dez anos subiu acima do americano, sem sinal claro de ajuste fiscal.
Aqui, por sua vez, a campanha manteve a dúvida fiscal no radar. Nenhum dos candidatos apresentou plano para a Previdência, e as promessas de gasto têm custo relevante já em 2027. As pesquisas mostraram empate técnico até a véspera, com o Datafolha dando metade dos votos válidos a cada lado. Na sexta, o IPCA-15 de outubro veio abaixo do esperado, um alívio para a inflação corrente, e o Bradesco entregou lucro em linha com as estimativas.
O debate de fundo é se o investimento em inteligência artificial vai se pagar. Ele questiona os dois motores do crescimento americano e pode mudar a conversa sobre o Fed, com risco de estagflação com o petróleo acima de US$ 110. ▶ Fechamento 22/10
O real na frente, a proteção cara
O real ganhou terreno e terminou a semana como a moeda de melhor desempenho contra o dólar, com o dólar abaixo de R$ 5,04. O carrego alto, a expectativa de alternância de poder e o petróleo caro, que favorece as moedas de países exportadores, sustentaram o real, que só perdeu terreno no meio da semana, com a aversão global a risco.
Mesmo assim, o que chamou a atenção foi o preço da proteção. A volatilidade implícita do real superou a do primeiro turno, e a procura por seguro contra a alta do dólar foi a maior desde 2011. Além do mais, a entrada de dólares no país seguiu positiva na primeira metade de outubro.
Numa alternância de poder com o dólar mais fraco no mundo, o real tem espaço para se valorizar; na continuidade, o prêmio de risco tende a seguir elevado. ▶ Fechamento 21/10
A curva no ritmo das pesquisas
Os juros futuros seguiram a eleição. Na terça e na quarta, a curva cedeu mais de dez pontos-base nos vencimentos intermediários e longos, com a leitura de que a alternância segue provável. Na quinta, a aversão global devolveu parte do movimento, mas no saldo da semana os juros caíram nos vencimentos intermediários e longos.
A curva continua invertida: os vencimentos curtos pagam mais que os longos, o que mostra cortes de juros embutidos, mas condicionados ao resultado de domingo. O IPCA-15 mais fraco ajuda o Banco Central. Ainda assim, a casa alerta que os subsídios aos combustíveis e a reforma tributária podem pressionar a inflação de 2027, e só a credibilidade fiscal sustenta juros menores.
Com a inflação de 2027 pressionada por combustíveis e pela reforma tributária, só a credibilidade fiscal, como um ajuste aprovado na virada do ano, sustenta juros menores. ▶ Fechamento 22/10
O estrangeiro tirou um pouco do pé
Enquanto isso, o estrangeiro tirou um pouco do pé. A B3 divulga o fluxo com cerca de dois dias de atraso, e nos pregões desta semana já divulgados a saída de segunda superou as entradas seguintes. Ainda assim, os últimos cinco pregões somam entrada, e no ano o saldo continua bem positivo; os fundos de Brasil no exterior receberam recursos fortes em outubro, sinal de posicionamento para a alternância.
Se a tese de alternância se validar e o capital estrangeiro entrar na bolsa, o Ibovespa pode retomar o movimento comprador. ▶ Fechamento 22/10
Domingo decide a segunda
A tensão para a próxima semana é o resultado de domingo e a primeira reação dos ativos na segunda. Uma vitória da oposição, seguida de equipe econômica e plano fiscal críveis, tende a fechar juros e valorizar o real. Já a continuidade, ou uma demora na transição, devolve prêmio aos juros longos e ao dólar. Em qualquer caso, o petróleo alto e o juro americano elevado limitam o espaço para alívio.
A posição estrutural do Brasil não mudou: a bolsa segue barata e o país tem carrego alto, mas o preço depende do fiscal de 2027. A carta de outubro já tinha dado o primeiro passo do CDI para a bolsa e guardou a segunda etapa para depois da urna. Por isso, a semana mostrou o mercado posicionado, mas protegido.
Na agenda, a segunda-feira traz a reação ao voto. Depois, o Fed decide os juros na quarta, seguido pelo Banco Central Europeu e pelo PIB e pela inflação de consumo americanos na quinta, e pelo Banco do Japão na sexta. Os balanços de Microsoft e Alphabet vão testar a tese de inteligência artificial, e a primeira reunião do Copom depois da eleição ganha peso.
Vitória da oposição seguida de equipe econômica e plano fiscal críveis: fecha juros, valoriza o real e abre a segunda etapa da rotação do CDI para a bolsa.
Continuidade ou transição demorada devolve prêmio aos juros longos e ao dólar; petróleo alto e juro americano elevado limitam o Banco Central.
Primeira reação de juros, dólar e bolsa ao resultado das urnas.
Um Fed preocupado com o crescimento abre espaço para cortes; com o petróleo alto, a mensagem pode vir dura.
Juros europeus em alta, com a França no centro, pesam sobre o juro global.
Mostra se o crescimento americano está mesmo perdendo força.
A inflação japonesa acelerou; juro maior mexe com o iene e com as operações de carrego.
Mede a desaceleração da economia que o Banco Central espera ver.