Na segunda-feira 26 de outubro de 2026, dia seguinte ao segundo turno da eleição presidencial, o Ibovespa caiu 13,88% e fechou em 176.608 pontos. O circuit breaker foi acionado logo depois da abertura, pela primeira vez desde março de 2020, e o dólar subiu 9,2% pela PTAX. Medida na série diária da B3, que começa em 1968, foi a 9ª maior queda de um único pregão da história do índice, a 5ª desde o Plano Real e a 3ª desde 2000, atrás apenas de dois dias de março de 2020.
Este estudo coloca a queda em perspectiva. Reunimos as dez maiores quedas diárias do Ibovespa, o que provocou cada uma, o momento econômico do país em cada episódio e como o índice se comportou 3, 6 e 12 meses depois. A conclusão mais útil não está no tamanho do tombo, e sim no que veio em seguida: em quase todas as grandes crises a primeira queda não foi o fundo, e o rumo dos meses seguintes dependeu da resposta de política econômica.
A queda de 26 de outubro
O resultado do segundo turno pegou o mercado posicionado para o cenário oposto. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa virada sobre o primeiro turno, em que Flávio terminou à frente. Até então, nenhum candidato que liderou o primeiro turno de uma eleição presidencial da Nova República tinha perdido o segundo.
O pregão abriu em queda livre. Com o Ibovespa 10% abaixo do fechamento de sexta, a B3 interrompeu os negócios por 30 minutos, com retomada em leilão às 10h30, e ampliou para 20% o limite do segundo acionamento, que não chegou a ser atingido. Na mínima do dia o índice perdeu cerca de 17%. O giro financeiro passou de R$ 88 bilhões, mais de três vezes a média, e o investidor estrangeiro retirou cerca de R$ 2,8 bilhões da bolsa no dia.
A venda foi generalizada, mas não uniforme. As maiores quedas ficaram com empresas ligadas a consumo doméstico, crédito e juros, como varejo, saúde e locação, além dos bancos: Banco do Brasil caiu 27% e Bradesco, 22%. Petrobras caiu bem menos, cerca de 8%. Do outro lado, as exportadoras subiram com o dólar, entre elas Suzano, Embraer, WEG e Vale. Os juros futuros longos subiram cerca de 2,5 pontos percentuais e o risco-país medido pelo CDS de cinco anos subiu com força.
A leitura predominante entre analistas foi de desmonte do chamado trade eleitoral: o mercado esperava um governo de ajuste fiscal e juros reais em queda, e passou a precificar mais quatro anos com gasto público elevado, dívida em alta e juros reais altos por mais tempo. A ausência de sinais sobre a meta fiscal e sobre a equipe econômica no discurso da vitória, e a contestação do resultado pelo candidato derrotado, somaram incerteza. Nos dois pregões seguintes não houve recuperação: o índice caiu 0,51% na terça e 2,68% na quarta, fechando a 171.006 pontos.
O contexto do momento
A queda veio de perto do recorde. Depois do primeiro turno, em 4 de outubro, o Ibovespa subiu 7,7% num só pregão e marcou o recorde histórico de fechamento em 9 de outubro, a 209.067 pontos, com o dólar perto de R$ 5,00. Na véspera do segundo turno o índice estava a 205.083 pontos, 1,9% abaixo do recorde e com alta de 27% no ano, e as últimas pesquisas mostravam empate técnico, com leve vantagem de Flávio em parte delas.
O pano de fundo econômico era de juros altos e contas públicas pressionadas. A Selic estava em 13,75% ao ano, depois de cinco cortes, com o boletim Focus de 5 de outubro projetando 13,50% no fim de 2026. O IPCA acumulava 4,58% em 12 meses até setembro, levemente acima do teto da meta, de 4,5%. O setor público teve déficit primário de R$ 88,9 bilhões de janeiro a agosto, e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, o maior nível desde 2021. No exterior, o Federal Reserve mantinha os juros americanos e o conflito no Oriente Médio seguia no radar do petróleo.
Esse é o ponto que liga 26/10 às outras grandes quedas do Ibovespa: em várias delas havia um mercado posicionado numa direção e um evento que desmontou essa aposta de uma vez, num país com fragilidade fiscal ou externa que amplificou o choque.
As maiores quedas da história
Queda por queda
Em 16 de março de 1990, um dia depois da posse, o governo Collor anunciou o plano que bloqueou por 18 meses os depósitos acima de NCz$ 50 mil em contas, poupança e aplicações, para conter uma inflação que passava de 80% ao mês. Sem liquidez, investidores venderam o que podiam: foram três pregões seguidos de queda, de 12%, 21% e 22%, este último o maior tombo de um único dia da história do índice.
Em termos nominais o índice se recuperou em poucas semanas, mas a inflação esconde a perda: descontado o IPCA, um ano depois o Ibovespa estava praticamente no mesmo lugar. O plano não segurou a inflação, e o país entrou em recessão em 1990.
Segundo dia de pregão depois do anúncio do bloqueio dos ativos financeiros. A queda de 20,95% é a segunda maior da série e mostra o efeito do confisco sobre a liquidez: quem precisava de dinheiro vendia ações, que eram um dos poucos ativos negociáveis.
Descontada a inflação, o índice estava 25% abaixo um ano depois. É o caso mais claro em que a queda diária foi o começo de um período ruim, e não o fundo.
Na segunda-feira 19 de outubro de 1987, a bolsa de Nova York caiu 22,6%, a maior queda diária da história do Dow Jones. No Brasil, o Ibovespa caiu 5,8% no mesmo dia e mais 16,1% no pregão seguinte, num país que vivia o fracasso do Plano Cruzado, a moratória da dívida externa decretada em fevereiro e o Plano Bresser, de junho, com a inflação voltando a subir.
Com inflação alta, os números nominais enganam. Descontado o IPCA, o Ibovespa caiu mais 9% em três meses, mas estava 35% acima em seis meses e 52% acima um ano depois. O crash não mudou o rumo da economia brasileira: Bresser-Pereira deixou a Fazenda em dezembro, e a inflação seguiu acelerando até o Plano Verão, em janeiro de 1989.
A moratória da Rússia, em agosto de 1998, provocou fuga de capital dos emergentes, e o Brasil, com câmbio administrado e déficit externo alto, perdia reservas a cada dia. No dia 10 de setembro, com saída de cerca de US$ 2 bilhões e dois acionamentos do circuit breaker, o Ibovespa caiu 15,82%, e naquela noite o Banco Central elevou sua taxa de juros de 29,75% para 49,75% ao ano.
A resposta começou na mesma noite, com a alta de juros, e o índice recuperou o nível da véspera em quatro dias. O ajuste fiscal e o acordo com o FMI, de US$ 41,5 bilhões, vieram em novembro. Mesmo com a desvalorização do real em janeiro de 1999, o Ibovespa subiu 58% em três meses e 139% em doze meses a partir do dia da queda. Nenhuma outra queda da lista teve recuperação tão forte.
A crise que começou na Tailândia em julho chegou a Hong Kong em outubro e derrubou as bolsas do mundo. No dia 27, a bolsa de Nova York caiu mais de 7% e teve o primeiro circuit breaker de sua história. O Brasil, com o real atrelado ao dólar e déficit externo crescente, era visto como o próximo alvo.
O Banco Central dobrou os juros, para 43% ao ano, e o governo lançou um pacote fiscal em novembro. Entre as quedas da lista posteriores ao Plano Real, foi o pior desdobramento: o índice levou 137 dias para voltar ao nível da véspera e, um ano depois, já no meio da crise da Rússia, estava 30% abaixo.
Desde maio, as denúncias de Pedro Collor contra PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial, alimentavam uma CPI no Congresso, e a cada semana crescia a hipótese de impeachment. Não há um fato único registrado para o pregão de 29 de junho: a queda veio no auge do clima da CPI, dias antes de o depoimento do motorista Eriberto França ligar o esquema às despesas da Casa da Dinda. A inflação passava de 20% ao mês e o país ainda vivia os efeitos do Plano Collor.
O índice voltou ao nível da véspera em oito dias. Descontada a inflação, subiu 30% em três meses, período em que a CPI concluiu seu relatório e a Câmara autorizou o processo de impeachment, por 441 votos a 38, em 29 de setembro. Collor renunciou em dezembro, Itamar Franco assumiu, e um ano depois da queda o índice estava 79% acima, descontado o IPCA.
Na véspera, a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia de covid-19, e os Estados Unidos suspenderam voos da Europa. A bolsa brasileira já vinha de uma guerra de preços do petróleo entre Arábia Saudita e Rússia, que tinha derrubado o índice 12% no dia 9. No dia 12 o circuit breaker foi acionado duas vezes, e a queda de 14,78% é a terceira maior desde o Plano Real.
A queda não foi o fundo: o índice ainda caiu mais 14% no dia 16 e só tocou a mínima no dia 23 de março. Depois, com juros zerados no mundo, estímulos fiscais e a Selic na mínima histórica, subiu 28% em três meses e 57% em doze meses.
No domingo 15 de março, o Federal Reserve cortou os juros americanos para perto de zero em reunião extraordinária. Em vez de acalmar, o corte foi lido como sinal de que a crise seria grave, e as bolsas despencaram na segunda. No Brasil, o circuit breaker foi acionado logo na abertura.
Uma semana depois, em 23 de março, o índice tocou o fundo do ciclo, a 63.570 pontos. A partir dali, juros perto de zero no mundo, programas de compra de ativos dos bancos centrais e auxílio fiscal às famílias sustentaram a recuperação: foram 44 dias para voltar ao nível da véspera da queda e alta de 60% em doze meses.
Na leitura de analistas de mercado, os preços vinham embutindo a vitória de Flávio Bolsonaro e a expectativa de um ajuste fiscal mais forte. A reeleição de Lula, numa virada inédita sobre o primeiro turno, levou ao desmonte dessas apostas no primeiro pregão seguinte, com circuit breaker, dólar 9,2% mais caro e juros longos subindo cerca de 2,5 pontos.
Ainda sem horizonte para medir 3, 6 e 12 meses. Nos dois primeiros pregões seguintes o índice caiu mais 0,51% e 2,68%. Os próximos sinais relevantes são a escolha da equipe econômica, a meta fiscal e a reunião do Copom de 3 e 4 de novembro.
No início de junho de 1989, o corte de crédito e os cheques sem fundos ligados às operações do investidor Naji Nahas, que movimentava enormes posições alavancadas com ações de primeira linha, levaram à quebra da Bolsa do Rio de Janeiro. O contágio chegou a São Paulo nos pregões seguintes, num ano de hiperinflação, com o Plano Verão fracassado e a eleição presidencial à frente. A responsabilidade pela quebra foi disputada por anos, e Nahas acabou absolvido na Justiça.
Em termos nominais o índice multiplicou de valor no ano seguinte, mas isso é inflação, que chegou a 81% ao mês em março de 1990: descontado o IPCA, um ano depois o Ibovespa estava 69% abaixo, já sob o confisco do Plano Collor. A Bolsa do Rio nunca recuperou a importância que tinha, e o mercado de ações se concentrou em São Paulo.
O que veio depois
Desde o Plano Real houve 37 pregões com queda acima de 7%. Contados um a um, o retrato é animador: em 27 dos 36 casos que já têm um ano de história, o Ibovespa estava mais alto 12 meses depois, com mediana de alta de 49%. Mas essa conta engana, porque as quedas grandes chegam em grupos: oito delas são do episódio que vai de agosto de 1998 a janeiro de 1999, seis de 2008 e seis de 2020. Quem conta cada dia está, na prática, comprando várias vezes a mesma crise, inclusive nos dias mais baratos dela.
Uma leitura mais cuidadosa agrupa as quedas por episódio (quedas com até 90 dias entre si) e mede a partir da primeira delas, que é o que o investidor conhece no dia. São 11 episódios desde 1994, contando o de 2026. Nos 10 que já têm um ano de história, o índice estava acima em 6, com mediana de alta de 12,6% em 12 meses, e, em metade deles, ainda abaixo três meses depois. Em 1997, 2008 e 2020 a primeira queda foi seguida de outras maiores.
Os episódios de recuperação mais rápida coincidiram com respostas fortes de política econômica. Em 1998, a alta de juros veio na mesma noite e o ajuste fiscal e o acordo com o FMI, dois meses depois. Em 2020, a ação conjunta de bancos centrais e governos acompanhou a volta do índice ao nível pré-crise em menos de um ano. Em 1997, a defesa do câmbio com juros não eliminou o desequilíbrio externo, e a crise da Rússia chegou antes de o índice superar o nível de antes da crise asiática. É uma associação observada nos episódios, não uma regra.
Leitura final
A queda de 26/10/2026 está entre as maiores da história, mas a sua natureza é diferente das demais do topo da lista: não houve pandemia, crise externa nem confisco. Foi uma reprecificação provocada por um evento doméstico de data conhecida, sobre um mercado que estava perto do recorde e, segundo analistas, posicionado para o resultado oposto. A queda de 18 de maio de 2017 (-8,8%), na crise do governo Temer, também teve origem política doméstica, mas com gatilho inesperado e tamanho bem menor.
O histórico sugere acompanhar menos o tamanho da queda e mais o que vem depois dela. Para 2026, os pontos que o mercado observa são as definições sobre a equipe econômica e a meta fiscal, o comportamento dos juros longos e do câmbio, e a comunicação do Copom em 3 e 4 de novembro. Nos episódios desde o Plano Real, a primeira queda foi o fundo em alguns casos e o começo de um ajuste mais longo em outros, e desempenho passado não é garantia de resultado futuro.
Método e fontes
Série diária oficial do Ibovespa publicada pela B3, de 2 de janeiro de 1968 a 28 de outubro de 2026, com 14.508 pregões. Entre 1983 e 1997 o índice teve 11 cortes de zeros, divisões por 10 ou por 100 que aparecem na série como quedas de cerca de 90%; nesses dias usamos a variação real do pregão.
A reação em 3, 6 e 12 meses compara o fechamento do dia da queda com o último fechamento até a mesma data, meses depois. O IPCA mensal é distribuído pelos dias do mês de forma geométrica, uma aproximação. Antes do Plano Real, com inflação de dois dígitos ao mês, a variação nominal não diz nada; por isso mostramos a variação descontada do IPCA. Depois do Real, mostramos a nominal. O tempo de recuperação é o número de dias até o primeiro fechamento igual ou acima do fechamento da véspera da queda, em termos nominais, e o fundo em 12 meses é o menor fechamento nesse período. O gráfico de trajetória conta pregões, até 252 depois da queda, enquanto a tabela de reação usa meses do calendário. Episódio de crise é o conjunto de quedas acima de 7% separadas por até 90 dias.