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Publicado em 30 de Outubro de 2026 às 15:29:03

A nebulosidade fiscal pede CDI e conservadorismo | Carta do Estrategista - Nov.26

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O resultado das eleições trouxe de volta a dúvida sobre as contas públicas. Por isso, a carteira volta ao CDI, à proteção contra a inflação e ao dólar.

Outubro foi marcado pelas eleições presidenciais no Brasil, e o mercado via dois caminhos muito diferentes. Com uma troca de governo, a expectativa era de um ajuste fiscal crível, o que possivelmente permitiria ao Banco Central levar a Selic para baixo de dois dígitos. Sem alternância, iríamos ver uma continuidade da política econômica atual, com a sua fragilidade fiscal, que acelera o endividamento brasileiro e, por consequência, aumenta o risco Brasil. Nesse caso, o cenário era de nenhum ajuste consistente, com medidas semelhantes às já adotadas, ou até mais intensas, elevando ainda mais a dívida pública.

O Brasil optou pela continuidade do governo, e isso causou um forte movimento de aversão ao risco, pois os investidores estavam alavancados na tese de mudança de poder após o primeiro turno. Comprados em Bolsa e vendidos em dólar e juros, precisaram sair em uma corrida desenfreada para refazer suas posições. Em 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,88%, de 205.083 para 176.608 pontos, com o circuit breaker acionado pela primeira vez desde março de 2020. O índice de small caps caiu 26,9%, e o dólar subiu 8,2%, de R$ 4,99 para R$ 5,40. Em Nova York, o EWZ, ETF de ações brasileiras, caiu 19,82%, uma queda que, pelos modelos estatísticos tradicionais, teria chance menor que 1 em 50 quatrilhões e mostra o tamanho da aposta que estava nos preços.

Foi uma das maiores quedas da história do Ibovespa: a 9ª maior em um único pregão desde 1968, a 5ª desde o Plano Real e a 3ª dos últimos 20 anos, superada apenas por dois dias de março de 2020. O tamanho do tombo quantifica a insatisfação e o receio do mercado diante da ausência de mudança fiscal, e mostra o grau de alavancagem das posições montadas para o resultado oposto.

O sinal mais importante veio dos juros de longo prazo, referência para o custo do capital em toda a economia. A taxa prefixada de 10 anos saltou de 12,74% para 15,13% ao ano em um único dia, a maior alta diária dos últimos 20 anos. Quando o juro longo sobe, investir fica mais caro e as empresas valem menos. O Tesouro Nacional reagiu suspendendo a venda de títulos e recomprando parte deles, o que aliviou um pouco a alta. Foi a resposta certa, mas trata o sintoma, não a causa.

Dados de mercado até o fechamento de 26/10/2026, salvo indicação em contrário.

O que está em jogo agora: as contas públicas

A causa está nas contas públicas. Até agora, o governo não sinalizou se fará algum ajuste, e essa é a dúvida que assombra o mercado. Enquanto a resposta não vem, dólar, juros e Bolsa tendem a se mexer juntos a cada notícia sobre o tema: o Brasil virou um trade fiscal, em que o preço dos investimentos depende, antes de tudo, da confiança nas contas do governo. Nosso cenário mais provável é intermediário: algumas medidas de ajuste, insuficientes para resolver o problema das contas, mas capazes de tirar o mercado do modo pânico.

O estresse tende a se acomodar, mas os prêmios de risco devem continuar elevados. O custo de perder essa confiança já é conhecido: entre 2012 e 2015, ela ajudou a quase dobrar os juros prefixados de cinco anos, de 8,64% para 16,62% ao ano. Não esperamos uma crise como aquela, mas o risco é do mesmo tipo: juros altos com a economia mais fraca. E a economia já esfria. Indústria, serviços e comércio desaceleraram, parte do mercado já espera queda do PIB no terceiro trimestre, e as famílias, com uma parte recorde da renda comprometida com dívidas, consomem menos. O problema é que a economia mais fraca ainda não fez a inflação cair: os serviços voltaram a subir, petróleo e alimentos seguem caros, e o dólar alto encarece os importados. Esperamos mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em novembro, para 13,50% ao ano, e depois uma pausa longa. Crescimento baixo com inflação acima da meta aumenta o risco de estagflação.

Um mundo que não ajuda

O FED subiu os juros em setembro e, em 28 de outubro, manteve a taxa entre 3,75% e 4,00% ao ano, com dois votos por nova alta. Com a inflação americana ainda alta, o dinheiro segue caro no mundo, inclusive para o Brasil. O petróleo acima de US$ 110 o barril, com os conflitos no Oriente Médio sem solução, pressiona a inflação. E as ações de inteligência artificial caíram forte, com dúvidas sobre o retorno dos investimentos em tecnologia. Somados, esses fatores formam um ambiente pouco favorável para a economia mundial, e menos ainda para o Brasil, que o enfrenta com as contas públicas fragilizadas.

O que os preços estão dizendo

Ainda assim, o dólar subiu sobretudo por um motivo daqui de dentro: sem um plano para a dívida, o estrangeiro pede mais retorno para ficar no Brasil, e o investidor local e as empresas buscam proteção na moeda. Na Bolsa, as maiores quedas de 26 de outubro foram de empresas que dependem da economia brasileira ou têm muitas dívidas, várias com perdas acima de 40%. As poucas altas vieram de exportadoras, que recebem em dólar, como Suzano, Embraer, WEG, Vale e Klabin.

O P/L caiu porque o preço caiu, e não porque as previsões de lucro foram cortadas. Esse desconto, somado ao histórico de recuperação depois de grandes quedas, é o argumento mais forte contra a nossa visão. Aos 176.608 pontos, o Ibovespa está só cerca de 8% acima do valor que o nosso modelo Genial Investimentos 2 Carta do Estrategista · Novembro 2026 indica para o fim de 2026 no cenário sem ajuste nas contas públicas, de 163.431 pontos, e cerca de 2% acima do valor para o fim de 2027, de 172.680 pontos. Boa parte da piora já está no preço. Por que, então, não comprar? Porque a correção ainda não terminou: o preço já caiu, mas os lucros ainda não refletem crescimento menor, juros altos e dólar mais caro. Se forem revistos, a Bolsa que hoje parece barata deixa de ser. Preferimos esperar que os lucros confirmem os preços a apostar numa solução para as contas públicas que, por enquanto, vemos como pouco provável.

Como a carteira de outubro se saiu

Na carta de outubro, demos o primeiro passo para sair do CDI: aumentamos a Bolsa brasileira de 10% para 25%, com destaque para as small caps, subimos o IPCA+ de prazo longo de 10% para 15% e incluímos fundos imobiliários e fundos de investimento. O resultado das eleições mudou o cenário. As perdas de 26 de outubro se concentraram justamente nessas posições e no prefixado, que perde valor quando os juros sobem. Duas decisões limitaram o impacto. Mantivemos 25% em caixa e reduzimos o prefixado de 15% para 5%, garantindo o ganho do primeiro turno. E mantivemos as proteções: o fundo cambial e a Bolsa americana ganharam com a alta do dólar, e a operação estruturada com BOVA11 e put fez o seu papel. Esse colchão permite reorganizar a carteira agora com calma, sem vender às pressas.

A carteira de novembro: de volta ao CDI, com proteção em dólar

A carteira de novembro desfaz o primeiro passo de outubro e se apoia em três pilares: dinheiro disponível, proteção contra a inflação e proteção em dólar. O caixa, aplicado no CDI, sobe de 25% para 40%, e a parte em moeda forte sobe de 20% para 35%. Os pós-fixados voltam a ser a base: rendem bem com a Selic alta e deixam recursos à mão para quando o cenário mudar. Nos prefixados, preferimos prazos de até dois anos, que garantem taxas altas com menos risco e ganham se a desaceleração antecipar novos cortes de juros. No IPCA+, preferimos prazos de até cinco anos e títulos isentos de imposto de renda. O objetivo é proteção, não valorização. Hoje, com a Selic em 13,75% e a inflação em 4,58% em 12 meses, o CDI rende cerca de 8,7% acima da inflação antes do imposto de renda, e perto de 6,7% depois dele, considerando a alíquota de 15%, aplicada a investimentos com mais de dois anos. Mas, se a economia desacelerar de forma mais acentuada sem que a inflação ceda, e o Banco Central optar por cortar os juros e deixar a inflação correr, reduzindo o peso real da dívida pública, quem perde é o poder de compra de quem investe no pós-fixado. É nesse cenário que o IPCA+ protege, porque, levado até o vencimento, garante um retorno acima da inflação.

No crédito privado, a cautela dos investidores tende a derrubar os preços, sobretudo dos papéis mais longos e mais difíceis de vender. Preferimos empresas sólidas, que geram bastante caixa e dependem pouco de novos empréstimos, com prazos curtos e médios. No dólar, as compras devem ser graduais depois da alta recente, mas ter parte do dinheiro fora do Brasil é uma decisão permanente, que reduz a dependência do risco Brasil. A Bolsa americana protege contra a alta do dólar, mas tem o risco normal das ações. Na renda fixa americana, usamos três ETFs: o SGOV, com títulos do governo americano de até três meses, é a parte mais conservadora; o VCIT, com títulos de empresas sólidas e prazo médio de cerca de 5,9 anos, é a principal fonte de renda; e o STIP, com títulos do governo americano corrigidos pela inflação e prazo médio de cerca de 2,2 anos, protege contra a inflação americana. Conservadores ficam no SGOV; moderados e arrojados combinam os três.

A Bolsa brasileira cai de 25% para 5%, e fundos de investimento e fundos imobiliários saem, porque dependem de juros em queda e de uma economia mais forte. Os 5% que ficam podem ser a própria operação estruturada com BOVA11 e put, que vence em setembro de 2027. Para quem quer manter ações, a preferência é por setores defensivos, que sofrem menos com juros altos e dólar caro.

Conclusão: o que nos faria mudar de ideia

Em outubro, escrevemos que quem precisava se justificar era quem deixava tudo no CDI. As eleições inverteram isso: hoje, é o risco que precisa provar que vale a pena. Nossa estratégia é defensiva, mas pode mudar. Voltaremos a aumentar o risco no Brasil se o governo apresentar uma regra confiável para controlar os gastos; se os juros longos devolverem boa parte da alta do pós-eleição; se o dólar se firmar em um nível mais baixo; e se os lucros mostrarem que a queda da Bolsa já reflete o novo cenário. Até lá, acompanhamos os sinais do governo sobre a meta fiscal, o Copom de 3 e 4 de novembro, o FED em dezembro, o orçamento de 2027 e a inflação.

Prazos médios informados pelos gestores (Vanguard, 30/09/2026; iShares, 19/10/2026). VCIT e STIP oscilam com os juros americanos, e o VCIT também com o risco de crédito das empresas; todos variam com o dólar. Investimentos no exterior têm regras tributárias e sucessórias próprias, a avaliar com o seu assessor. Empresas selecionadas pelo modelo da Carteira Recomendada Genial (força de alta das ações em seis meses, ajustada pela oscilação dos preços, com dados até 27/10/2026) e pela cobertura da Genial Analisa. Não constituem recomendação individual de compra.

Acesse o disclaimer.

Thainá Rambaldo

Analista Macro

Filipe Villegas

Estrategista de Ações

Roberto Motta

Estrategista Macro

Leitura Dinâmica

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