Em julho, o saldo das operações de crédito registrou avanço de 9,5% a/a, sofrendo ligeira desaceleração em relação aos 9,7% a/a observados no mês imediatamente anterior, dando continuidade a uma sequência de três resultados consecutivos de relativa estabilidade, contudo ficando abaixo dos 10,9% a/a observados no mesmo período do ano anterior. Com isso, o volume de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) avançou para R$ 7,37 tri (ante R$ 7,35 tri). Esse resultado foi proveniente da combinação entre as altas de 7,4% a/a do segmento de pessoas jurídicas e de 10,8% a/a no saldo das pessoas físicas. Em relação às modalidades de crédito, houve alta de 7,0% a/a na modalidade de crédito com recursos livres e de 12,8% a/a no crédito direcionado, com a primeira desacelerando marginalmente em relação aos 7,4% a/a de alta observados em jun/26, enquanto a segunda permaneceu estável na margem, repetindo a expansão do mês anterior.
As concessões totais, na série com ajuste sazonal, permaneceram praticamente estáveis em julho (0,0% m/m), em R$ 731,0 bilhões, após alta de 0,4% m/m em junho. O resultado combinou recuo de 0,3% m/m nas operações com empresas e alta de 0,3% m/m nas operações com famílias. Por tipo de recurso, as concessões livres avançaram 0,5% m/m, refletindo queda de 0,2% m/m para PJ e expansão de 2,0% m/m para PF. As concessões direcionadas recuaram 0,8% m/m, com alta de 2,2% m/m para empresas e queda de 2,7% m/m para famílias. A média móvel trimestral das concessões totais cresceu 0,6% em julho, ante 1,4% em junho. Para o crédito livre, a alta da média móvel desacelerou de 1,3% para 0,7%, enquanto no direcionado acelerou de 1,6% para 1,9%, com o arrefecimento das concessões na carteira de crédito livres corroborando a nossa expectativa de arrefecimento ao longo dos próximos meses frente a um cenário macroeconômico adverso marcado por uma política monetária restritiva.
De maneira geral, a resiliência dos volumes de crédito em julho é compatível com a nossa avaliação de que o mercado deve apresentar uma desaceleração gradual ao longo dos próximos meses, sem que isso implique uma contração generalizada. Em nossa avaliação, o descasamento entre as políticas monetária e fiscal, aliado a resiliência do mercado de trabalho, ainda oferece algum suporte ao crédito e à atividade em 2026. No entanto, esperamos que essa resiliência se torne progressivamente mais concentrada entre segmentos e modalidades nas próximas leituras. A combinação entre uma taxa de juros ainda significativamente restritiva, o elevado endividamento das famílias e a trajetória de alta da inadimplência aponta para uma deterioração da qualidade do crédito e sugere menor capacidade de sustentação da atividade à frente. Somam-se a esse quadro os riscos provenientes de um cenário global mais adverso, especialmente em relação à inflação, cuja persistência pode manter as condições financeiras internacionais restritivas e reduzir a liquidez global.
Para as pessoas físicas, as concessões livres totalizaram R$ 359,3 bilhões em julho, com expansão nominal de 11,4% a/a, ou R$ 36,9 bilhões, acelerando ante 10,0% em junho. Na comparação mensal sem ajuste sazonal, houve alta de 6,1%, ou R$ 20,5 bilhões. O principal destaque foi o cartão de crédito, cujas concessões totais avançaram 14,5% a/a, ou R$ 37,6 bilhões. A modalidade à vista cresceu 13,2%, ou R$ 28,0 bilhões; o rotativo, 19,6%, ou R$ 6,6 bilhões; e o parcelado, 20,1%, ou R$ 3,1 bilhões. As concessões de consignado para trabalhadores do setor privado aumentaram 72,8% a/a, ou R$ 3,7 bilhões, e 15,0% m/m. Embora ainda forte, o ritmo desacelerou significativamente frente aos 196,6% a/a de junho, refletindo uma base de comparação progressivamente mais elevada após a expansão do Crédito do Trabalhador no ano passado. O consignado total cresceu 20,6% a/a, enquanto o financiamento para aquisição de veículos avançou 18,0%, ou R$ 3,5 bilhões. Na ponta negativa, o crédito pessoal não consignado recuou 1,2% a/a, ou R$ 276 milhões, e as concessões para beneficiários do INSS diminuíram 1,4% a/a, apesar da alta mensal de 14,8%.
Para as pessoas jurídicas, as concessões livres somaram R$ 296,9 bilhões, com expansão nominal de 16,3% a/a, equivalente a R$ 41,7 bilhões, mas desaceleração relevante ante os 24,5% registrados em junho. A queda mensal de 10,0% na série sem ajuste sazonal deve ser interpretada com cautela, dada a sazonalidade; na série ajustada, as concessões livres PJ recuaram 0,2%. Entre as modalidades, o capital de giro total avançou 71,8% a/a, ou R$ 18,3 bilhões, com forte concentração nas operações de prazo inferior a 365 dias, que cresceram 211,5%, ou R$ 24,4 bilhões. Em sentido contrário, o capital de giro acima de 365 dias caiu 45,8%, ou R$ 6,0 bilhões, sinalizando piora da composição em direção a prazos mais curtos. A antecipação de faturas de cartão cresceu 22,2% a/a, ou R$ 10,6 bilhões; o desconto de duplicatas e recebíveis avançou 15,6%, ou R$ 10,0 bilhões, mas desacelerou significativamente frente aos 43,8% de junho; e o cartão empresarial total aumentou 37,5%, ou R$ 7,8 bilhões. O ACC voltou ao campo positivo, com alta de 1,0% a/a, após queda de 28,2% em junho. Entre os destaques negativos ficaram aquisição de veículos, com recuo de 31,9%, ou R$ 1,7 bilhão; outros, com queda de 21,7%, ou R$ 2,2 bilhões; e financiamento às exportações, com contração de 7,8%, ou R$ 766 milhões.
A taxa média de juros das novas operações recuou 1,2 p.p. no mês, de 33,3% para 32,1% a.a., mas permaneceu 0,3 p.p. acima de julho de 2025. O spread bancário diminuiu 0,9 p.p. no mês, para 20,9 p.p. Por sua vez, o Indicador de Custo do Crédito (ICC), que mensura o custo médio das operações mantidas na carteira, recuou apenas 0,1 p.p., para 24,1% a.a., permanecendo 0,9 p.p. acima do nível observado um ano antes. Na abertura por tomador, o ICC recuou 0,1 p.p. tanto para as empresas quanto para as famílias, atingindo 17,5% e 28,2% a.a., respectivamente. No crédito livre, o indicador permaneceu em 35,8% a.a., apesar da queda de 0,4 p.p. para PF, para 45,0% a.a. No agregado das novas concessões, a taxa cobrada às empresas subiu 0,3 p.p., para 21,0% a.a., enquanto para as famílias recuou 2,0 p.p., para 37,4% a.a. No crédito livre, a taxa PJ aumentou 1,1 p.p., para 25,4% a.a., ao passo que a taxa PF caiu 3,9 p.p., para 60,0% a.a. Segundo a decomposição do BCB, essa redução no segmento livre PF refletiu tanto o efeito das taxas, de -2,7 p.p., quanto o efeito da composição da carteira, de -1,2 p.p. Nos recursos direcionados, a taxa PJ recuou 1,0 p.p., para 13,9% a.a., enquanto a taxa PF aumentou 0,3 p.p., para 11,5% a.a. A queda da taxa média das novas operações, portanto, oferece algum alívio, mas a manutenção do ICC em um patamar elevado deve continuar pressionando os indicadores de crédito ao longo das próximas leituras.
A inadimplência, considerando atrasos superiores a 90 dias, apresentou deterioração relevante. A taxa da carteira total do SFN subiu 0,3 p.p. no mês e 0,9 p.p. em doze meses, para 4,9%. Entre as empresas, aumentou 0,1 p.p. no mês e 0,5 p.p. em doze meses, para 3,3%; entre as famílias, avançou 0,4 p.p. e 1,1 p.p., respectivamente, para 5,8%. No crédito livre, a inadimplência atingiu 6,4%, com alta mensal de 0,4 p.p.; para PJ, alcançou 4,2%, e para PF, 7,8%. A piora também chegou ao direcionado: a taxa total subiu de 2,7% para 2,9%, com o indicador PJ em 2,1% e o PF em 3,4%. A inadimplência total, a de PF no agregado e a de PF no crédito livre atingiram as maiores leituras da série disponível desde março de 2011, sendo estes os principais pontos negativos da divulgação de hoje.
Os indicadores de endividamento e comprometimento de renda são divulgados com defasagem e, nesta edição, referem-se a junho. O endividamento das famílias permaneceu em 49,8%, com estabilidade mensal e alta de 1,0 p.p. em doze meses. O comprometimento da renda com o serviço da dívida aumentou 0,4 p.p. no mês e 1,7 p.p. em doze meses, alcançando 28,9%, o maior nível da série. A combinação entre comprometimento recorde, inadimplência crescente e taxas ainda elevadas reduz o espaço para uma sustentação do consumo ao longo dos próximos meses.
Em suma, a leitura de julho se mostra de certa forma mista, mas com uma assimetria para piora da qualidade do crédito. O crescimento dos saldos e a estabilidade das concessões afastam, por ora, um cenário de desaceleração abrupta. Porém, a inadimplência em máximas históricas e o comprometimento recorde da renda aumentam o risco de maiores despesas com provisões e de critérios maias restritivos de concessões. A queda dos juros médios para as pessoas físicas é positiva, porém insuficiente para neutralizar a piora da qualidade. O balanço líquido da divulgação, portanto, é de resiliência corrente da atividade, mas com deterioração prospectiva do impulso de crédito, o que deve contribuir para arrefecer a economia nos próximos meses.



