Resultado Consolidado (Banco Central)
O setor público consolidado (governo central, governos regionais e empresas estatais) apresentou déficit primário de R$ 10,0 bi em agosto, vindo significativamente melhor do que o esperado pelo mercado (-R$ 14,6 bi, Broadcast+ ) e também melhor do que a nossa expectativa para o mês de déficit de -R$ 20,1 bi. Este resultado foi decorrente da combinação entre o déficit de R$ 14,7 bi do governo central e dos superávits de R$ 2,7 bi e R$ 2,0 bi dos governos regionais e nas empresas estatais, respectivamente. Os principais desvios em relação à nossa projeção para o mês ficaram por conta de um déficit menor do que o antecipado para o governo central e por conta do superávit das empresas estatais e dos governos regionais.
No acumulado em 12 meses, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 82,1 bi (-0,62% do PIB), ante R$ 89,3 bi (-0,67% do PIB) em julho e R$ 23,1 bi (-0,19% do PIB) no mesmo período de 2025. Apesar da melhora na margem, a deterioração interanual reflete principalmente a ampliação do déficit do governo central, de R$ 28,4 bi para R$ 71,2 bi. Em nossa avaliação, esse movimento decorre da maior execução de despesas primárias no primeiro semestre de 2026, associada ao calendário eleitoral, e dos gastos adicionais com créditos extraordinários em resposta ao conflito no Oriente Médio. Embora esperemos uma moderação do ritmo de execução das despesas até o fim do ano, o ajuste fiscal permanece desafiador, mesmo após as medidas de aumento de arrecadação aprovadas nos últimos anos. Esse quadro reforça nossa avaliação de que uma estratégia concentrada nas receitas tende a ser insuficiente para promover um reequilíbrio duradouro das contas públicas. Nesse contexto, esperamos que 2026 repita o padrão observado em 2025, com cumprimento da meta de resultado primário após a exclusão de determinadas despesas de seu cálculo. Esse resultado, contudo, deve permanecer insuficiente para estabilizar a dívida pública, mantendo os prêmios de risco domésticos pressionados
O resultado nominal do setor público consolidado, que inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$ 115,9 bi em agosto, ante déficit de R$ 97,6 bi em jul/26 e de déficit de R$ 91,5 bi no mesmo mês do ano anterior. No acumulado em 12 meses, o déficit nominal alcançou R$ 1.264,2 bi (9,48% do PIB), ante déficit de R$ 969,6 bi (7,79% do PIB) no mesmo mês do ano anterior.
A dívida bruta do governo geral (DBGG), que engloba o Governo Federal, os Governos Regionais (estaduais e municipais) e o INSS, atingiu 82,9% do PIB (R$ 11,1 tri), avançando 0,3 p.p. em relação ao mês de junho e 5,5 p.p. acima do patamar observado no mesmo mês do ano anterior. O resultado em agosto foi decorrente da combinação entre o efeito da variação do PIB nominal (-0,5 p.p.), da desvalorização cambial (+0,1 p.p.) e dos juros nominais apropriados (+0,8 p.p.). No ano, o aumento de 4,2 p.p. do PIB é derivado da incorporação dos juros nominais (+6,5 p.p.), da emissão líquida de dívida (+1,5), do crescimento do PIB nominal (-3,6 p.p.) e do efeito da valorização cambial (-0,2 p.p.).
Em suma, apesar da surpresa positiva, os dados divulgados hoje reforçam nosso cenário de que o resultado primário consolidado permanecerá pressionado pelo déficit do governo central em 2026. Em nossa avaliação, a ausência de um ajuste estrutural nas despesas primárias e o elevado custo de carregamento da dívida devem sustentar a trajetória de alta da relação dívida/PIB. A persistência das pressões inflacionárias, em um ambiente de descasamento entre as políticas monetária e fiscal, reforça a necessidade de juros elevados por mais tempo, dificultando a estabilização do endividamento público. Nesse contexto, a percepção de risco fiscal deve permanecer elevada e continuar condicionando a trajetória das principais variáveis macroeconômicas brasileiras ao longo de 2027. Incorporando o resultado mais recente e as revisões das premissas de juros, inflação e crescimento, elevamos nossa projeção para a dívida pública ao final de 2026 de 82,9% para 83,3% do PIB.
Resultado do Governo Central (Tesouro Nacional)
Em agosto, o governo central registrou déficit primário de R$ 13,6 bi, vindo ligeiramente melhor do que o esperado pelo consenso de mercado (R$ 14,2 bi, Broadcast+) e também melhor do que a nossa expectativa para o mês de déficit de R$ 15,7 bi. Esse resultado representa uma melhora em relação ao número, corrigido pela inflação, registrado no mesmo período do ano anterior de déficit de R$ 16,2 bi, sendo reflexo da combinação entre uma alta de 3,5% a/a (+R$ 6,3 bi) nas receitas líquidas e do avanço de 1,9% a/a nas despesas totais (+R$ 3,7 bi), refletindo principalmente o avanço da arrecadação nas receitas administradas pela RFB em função da resiliência da economia e sobre o aumento da alíquota da exportação sobre o óleo bruto.
Pelo lado das receitas, a arrecadação total avançou 5,7% em termos reais (+R$ 13,1 bilhões), mas o aumento de 14,3% das transferências por repartição de receita (+R$ 6,8 bilhões) limitou o ganho da receita líquida. As receitas administradas pela RFB cresceram 5,6% (+R$ 7,6 bilhões), com destaque para Cofins (+R$ 1,9 bilhão), refletindo um aumento no volume de vendas no varejo e em serviços; Imposto de Importação e IPI (+R$ 1,6 bilhão cada); e outras receitas administradas (+R$ 2,8 bilhões), que incluíram R$ 1,9 bilhão de imposto de exportação sobre óleo bruto. O Imposto de Renda recuou R$ 1,1 bilhão. A arrecadação líquida do RGPS subiu 6,3% (+R$ 3,9 bilhões), apoiada pelo mercado de trabalho e pela reoneração escalonada da folha. Nas receitas não administradas, a alta de R$ 2,9 bilhões em exploração de recursos naturais, com destaque para as receitas de comercialização de óleo e gás natural pela PPSA, foi parcialmente compensada pela queda de R$ 1,4 bilhão em dividendos e participações.
Pela ótica das despesas, o principal destaque foi o pagamento de R$ 4,9 bilhões ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha, sem despesa correspondente em agosto de 2025. Também aumentaram os gastos com benefícios previdenciários (+R$ 2,7 bilhões), abono e seguro-desemprego (+R$ 2,4 bilhões) e créditos extraordinários (+R$ 1,3 bilhão). Esses últimos incluíram medidas relacionadas aos efeitos do conflito no Oriente Médio e aporte ao FGHab. Em sentido contrário, as despesas discricionárias caíram 28,1% (-R$ 5,6 bilhões), sobretudo na Saúde (-R$ 2,9 bilhões), enquanto pessoal e encargos recuaram R$ 1,2 bilhão.
No acumulado de janeiro a agosto, o déficit primário chegou a R$ 94,9 bilhões, ante R$ 85,9 bilhões no mesmo período de 2025, em valores correntes. Corrigidos pelo IPCA a preços de agosto de 2026, os déficits foram de R$ 93,7 bilhões e R$ 87,4 bilhões, respectivamente — piora de R$ 6,2 bilhões. A receita líquida cresceu R$ 90,0 bilhões em termos reais, mas as despesas aumentaram R$ 96,3 bilhões. Entre os gastos, sobressaiu a alta das despesas discricionárias (+R$ 35,8 bilhões), concentrada no primeiro semestre de 2026 em razão da execução mais acelerada associada ao calendário eleitoral. Também avançaram os benefícios previdenciários (+R$ 29,3 bilhões), as despesas com pessoal (+R$ 15,0 bilhões) e os créditos extraordinários (+R$ 10,6 bilhões), em função da aprovação de medidas voltadas para mitigar os impactos econômicos do conflito no Oriente Médio.
Apesar do superávit de julho ter vindo praticamente em linha com o esperado pelo mercado, refletindo uma arrecadação robusta no mês, avaliamos que os dados seguem apontando para um cenário desafiador em termos de equalização das contas públicas do governo central. A nosso ver, a expectativa de que a economia brasileira entre em trajetória de arrefecimento ao longo dos próximos meses impõe um risco significativo para a estratégia atual de ajuste fiscal pelo lado das receitas. Adicionalmente, o risco de prolongamento do conflito e a consequente manutenção das medidas de subsídio devem mitigar os impactos arrecadatórios de uma maior cotação do petróleo, gerando um ganho limitado em termos de arrecadação para o governo federal. Com os resultados de hoje, mantemos a nossa projeção de déficit primário em R$ 53,2 bi em 2026, equivalente a cerca de -0,40% do PIB, patamar que, por ora, não exige esforço fiscal adicional para o cumprimento do limite inferior da meta de déficit zero em 2026.









