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Publicado em 01 de Setembro às 15:51:01

Fiscal (Jul/26): Resultado fiscal decepciona e dívida avança para 82,5% do PIB

Resultado Consolidado (Banco Central)

O setor público consolidado (governo central, governos regionais e empresas estatais) apresentou superávit primário de R$ 1,4 bi em julho, vindo significativamente pior do que o esperado pelo mercado (R$ 6,6 bi, Broadcast+), e também aquém da nossa expectativa de superávit de R$ 5,1 bi no período. O resultado do governo consolidado no mês foi reflexo da combinação entre o superávit de R$ 11,0 bi do governo central que foi parcialmente compensado pelos déficits de R$ 8,5 bi e R$ 1,1 bi dos governos regionais e empresas estatais, respectivamente. O principal desvio em relação à nossa projeção ficou por conta de um déficit bem acima do esperado para os entes subnacionais, sugerindo uma execução de despesas acima do esperado por conta do período eleitoral.

Com este resultado, no acumulado em 12 meses, o setor público consolidado obteve um déficit primário de R$ 89,3 bi (-0,67% do PIB), ante déficit de R$ 157,2 bi (-1,19% do PIB) em junho e déficit de R$ 27,3 bi (-0,22% do PIB) no mesmo período do ano anterior. Cabe destacar que a piora no resultado em relação à 2025 reflete uma significativa piora do governo central que saiu de um déficit de R$ 34,8 bi para um déficit de R$ 72,4 bi, principalmente devido a uma maior execução de despesas primárias no primeiro semestre do ano por conta do calendário eleitoral. Embora a expectativa seja de redução de tais gastos ao longo dos próximos meses, fator este que deve contribuir para uma redução do déficit acumulado em 12 meses nas próximas leituras, avaliamos que o Executivo segue enfrentando um grande desafio para promover o ajuste fiscal brasileiro, mesmo após a aprovação de diversas medidas de aumento de receitas ao longo dos últimos anos. Nesse contexto, o ano de 2026 tende a repetir o padrão observado em 2025, com cumprimento da meta de resultado primário, após a exclusão de algumas despesas de seu cálculo. Porém, isso deve seguir sendo insuficiente para promover a estabilização da dívida pública brasileira, fato este que tende a continuar pressionando os prêmios de risco domésticos.

O resultado nominal do setor público consolidado, que inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$ 97,6 bi em julho, ante déficit de R$ 166,0 bi em jun/26 e de déficit de R$ 175,6 bi no mesmo mês do ano anterior. No acumulado em 12 meses, o déficit nominal alcançou R$ 1.239,8 bi (9,34% do PIB), ante déficit de R$ 968,5 bi (7,82% do PIB) no mesmo mês do ano anterior.

A dívida bruta do governo geral (DBGG), que engloba o Governo Federal, os Governos Regionais (estaduais e municipais) e o INSS, atingiu 82,5% do PIB (R$ 10,9 tri), avançando 0,6 p.p. em relação ao mês de junho e 5,3 p.p. acima do patamar observado no mesmo mês do ano anterior. O resultado em julho foi decorrente da combinação entre o efeito da variação do PIB nominal (-0,5 p.p.), das emissões líquidas de dívida (+0,2 p.p.) e dos juros nominais apropriados (+0,8 p.p.). No ano, o aumento de 3,9 p.p. do PIB é derivado da incorporação dos juros nominais (+5,7 p.p.), da emissão líquida de dívida (+1,5), do crescimento do PIB nominal (-3,1 p.p.) e do efeito da valorização cambial (-0,3 p.p.).

Em suma, os dados divulgados hoje seguem corroborando o nosso cenário de que o resultado primário consolidado do governo seguirá sendo pressionado pelo déficit a ser registrado pelo governo central ao longo de 2026. A nosso ver, a ausência de um ajuste estrutural pelo lado das despesas primárias somado ao desembolso com os juros nominais da dívida, que devem seguir elevados em um contexto de inflação mais pressionada e necessidade de juros mais elevados, devem continuar sendo os principais responsáveis pela continuidade da trajetória de deterioração da relação dívida/PIB. Seguimos com a avaliação de que a percepção de risco fiscal segue elevada, fato este que deve continuar exercendo um importante papel na determinação da trajetória das principais variáveis macroeconômicas brasileiras ao longo de 2027. Apesar dos números terem vindo em linha com o nosso cenário, a elevação da dívida como proporção do PIB excedeu nossas expectativas, impondo um viés altista para a nossa projeção para o final do ano atualmente de 82,9% do PIB.


Resultado do Governo Central (Tesouro Nacional)


Em julho, o governo central registrou superávit primário de R$ 10,8 bi, vindo ligeiramente pior do que o esperado pelo consenso de mercado (R$ 11,1 bi, Broadcast+) e também aquém da nossa expectativa para o mês de superávit de R$ 11,7 bi. Esse resultado representa uma melhora em relação ao número, corrigido pela inflação, registrado no mesmo período do ano anterior de déficit de R$ 61,7 bi, sendo reflexo da combinação entre uma alta de 7,7% a/a (+R$ 16,1 bi) nas receitas líquidas e do recuo de 20,7% a/a nas despesas totais (-R$ 56,4 bi), devido ao descasamento no calendário de pagamento dos precatórios entre os anos de 2025 e 2026.

Pelo lado das receitas líquidas, em termos reais, o bom desempenho em relação ao mesmo período do ano anterior (+7,7% a/a ou +R$ 16,1 bi), foi derivado da combinação entre a alta de 7,1% a/a da receita administrada pela RFB (+R$ 11,9 bi), do aumento de 7,4% a/a da arrecadação líquida para o RGPS (+R$ 4,2 bi) e a alta de 16,9% a/a das receitas não administradas pela RFB (+R$ 4,9 bi). Em relação ao primeiro grupo, o bom desempenho no mês foi reflexo principalmente das altas de 9,1% a/a na arrecadação com o Imposto de Renda (+R$ 7,0 bi), refletindo o aumento de 29,9% a/a na arrecadação de IR retido na fonte (+29,9% a/a), devido ao bom desempenho do mercado de trabalho e maiores recolhimentos de aplicações de renda fixa e JCP; alta de 109,9% a/a em Outras receitas administradas pela RFB, reflexo das alterações legislativas associadas ao imposto de exportação sobre o óleo bruto (MP 1340/2026); e avanço de 21,9% a/a (+R$ 1,5 bi) na arrecadação com o IOF, impulsionado pelos recolhimentos associados à operações de crédito e saída de moeda estrangeira, refletindo alterações promovidas pelo Decreto 12499/2025. Essas altas foram parcialmente compensadas pelas reduções na arrecadação com a Cofins (-9,0% a/a ou -R$ 3,0 bi) e de com o PIS/Pasep (-10,9% a/a ou -R$ 1,0 bi) devido ao aumento das restituições tributárias. Já a arrecadação previdenciária seguiu sendo beneficiada pelo bom momento do mercado de trabalho. Por fim, o bom desempenho das receitas não administradas no mês foi derivado do avanço de 29,4% a/a na rubrica de receitas de exploração de recursos naturais (+R$ 5,0 bi), impulsionados pela produção de petróleo e uma contação mais elevada da commodity no mercado internacional.

Pela ótica das despesas, os principais destaques ficaram pelos recuos de 18,1% a/a e 8,9% a/a nas despesas com o pagamento de Benefícios previdenciários e de Pessoal e encargos (-R$ 18,1 bi e -R$ 4,2 bi, respectivamente), refletindo o descasamento entre os calendários de pagamento dos precatórios entre de 2025 e 2026. Além disso, destacamos também o recuo de 45,4% a/a na rubrica de Outras despesas obrigatórias (-R$ 32,3 bi), refletindo também esse mesmo motivo (-R$ 37,1 bi em gastos com pagamento de Sentenças judiciais e precatórios). Em contrapartida, tivemos alta de 314,4% a/a na rubrica de créditos extraordinários (+R$ 4,2 bi), em função das medidas de mitigação dos impactos do conflito no Oriente Médio. Por sua vez, as despesas do poder executivo sujeitas à programação financeira registraram recuo de 3,4% a/a (-R$ 1,7 bi), sendo este resultado derivado da queda de 3,9% a/a nas despesas obrigatórias com controle de fluxo (-3,9% a/a ou -R$ 1,3 bi) e recuo de 2,4% a/a nas despesas discricionárias (-R$ 442,0 mi), com destaque para o recuo de 23,8% a/a das despesas com a saúde (-R$ 1,5 bi).

Com o resultado de julho, no acumulado no ano, em termos reais, o governo central registrou um déficit primário de R$ 80,4 bi, frente a um déficit de R$ 71,5 bi no mesmo período do ano anterior, registrando uma piora de R$ 8,9 bi. Esse resultado foi reflexo da combinação entre a alta de 5,9% a/a na receita líquida (+R$ 84,0 bi) e o aumento de 6,2% a/a nas despesas totais (+R$ 92,9 bi), refletindo principalmente a execução mais acelerada de despesas no primeiro semestre de 2026 devido ao calendário eleitoral, com um aumento de 44,6% a/a (+R$ 41,5 bi) nas despesas discricionárias, que têm sido parcialmente compensadas por um bom desempenho nos primeiros meses do ano de rubricas mais ligadas ao ciclo econômico e de mudanças legislativas que promoveram aumentos de arrecadação sem contrapartida no ano passado.

Apesar do superávit de julho ter vindo praticamente em linha com o esperado pelo mercado, refletindo uma arrecadação robusta no mês, avaliamos que os dados seguem apontando para um cenário desafiador em termos de equalização das contas públicas do governo central. A nosso ver, a expectativa de que a economia brasileira entre em trajetória de arrefecimento ao longo dos próximos meses impõe um risco significativo para a estratégia atual de ajuste fiscal pelo lado das receitas. Adicionalmente, o risco de prolongamento do conflito e a consequente manutenção das medidas de subsídio devem mitigar os impactos arrecadatórios de uma maior cotação do petróleo, gerando um ganho limitado em termos de arrecadação para o governo federal. Com os resultados de hoje, mantemos a nossa projeção de déficit primário em R$ 53,2 bi em 2026, equivalente a cerca de -0,40% do PIB, patamar que, por ora, não exige esforço fiscal adicional para o cumprimento do limite inferior da meta de déficit zero em 2026.

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Yihao Lin

Analista de Ações

Jose Camargo

Economista-Chefe

Gabriel Pestana

Analista de Ações

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