O IPCA de setembro registrou alta de 0,82% m/m, um pouco acima da expectativa de mercado de 0,76% m/m (Broadcast+) e em linha com nossa projeção. Apesar disso, o qualitativo é um pouco pior que o esperado. Alimentos trouxeram surpresa benigna em proteínas, mas foram mais que compensados por um qualitativo desfavorável nos serviços e surpresa altista em todos os combustíveis. Todos os núcleos do BC ficaram acima do esperado. Na média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (MM3SAAR), serviços subjacentes aceleram de 4,61% para 5,68% e média dos núcleos de 3,64% para 4,29% em relação a agosto, corroborando esse diagnóstico. Com isso, nossa projeção preliminar para outubro passa de 0,26% m/m para 0,29% m/m, mas com a projeção para o ano se mantendo em 5,2%, com alta em serviços e administrados compensada por queda em alimentos.
Alimentação no domicílio registrou alta de 0,96% m/m, abaixo da nossa expectativa de 1,27% m/m, contribuindo com -5 bps de baixa no índice em relação à nossa projeção. O qualitativo é bem favorável. Tubérculos, raízes e legumes de fato subiram muito, alcançando alta de 19% m/m em relação a agosto, com estes somente contribuindo com +14 bps e vindo em linha com o esperado, mas frutas e hortaliças trouxeram contrapeso relevante, fazendo os in natura como um todo subir menos do que o esperado. No entanto, o qualitativo bom veio das proteínas. As carnes bovinas, suínas, aves e leite ficaram abaixo do esperado, contribuindo com -3 bps em relação à projeção. Isso é importante pois são itens de peso relevante e inerciais, podendo trazer revisões de baixa à frente.
Serviços registraram variação de 0,61% m/m, próxima dos 0,59% m/m projetados, mas com composição pior nos subjacentes. O núcleo avançou 0,36% m/m ante expectativa de 0,25% m/m (+2 bps), com surpresa explicada por conserto de automóvel (+1 bp) e alimentação fora do domicílio (+1 bp), trazendo um qualitativo desfavorável. Intensivos em trabalho ficaram próximos do esperado, isto é, bem pressionados, com 6,9% na MM3SAAR e 7,4% no acumulado em 12 meses. O grupo como um todo ficou próximo do projetado devido a transporte por aplicativo (-2 bps), item bem volátil e contido nos ex-subjacentes, evidenciando o qualitativo mais desfavorável. Sem passagem aérea e transporte por aplicativo, o grupo teria registrado 0,41% m/m ante 0,33% m/m projetado, deixando mais clara a mensagem. Na MM3SAAR, o grupo volta a subir de 5,0% para 5,6%, se sustentando em 6,0% no acumulado em 12 meses.
Industriais registraram variação de 0,17% m/m, próxima da nossa projeção de 0,15% m/m. O núcleo do grupo ficou em linha com o projetado, com composição neutra. No lado benigno, automóveis vieram próximo ou abaixo da projeção, item de peso substancial e bastante inércia, sinalizando continuidade da folga à frente. Por outro lado, vestuário veio acima (+1 bp) e o alívio nos não duráveis se concentrou em perfume (-1 bp), com demais itens de higiene pessoal ficando acima da projeção. Na MM3SAAR e no acumulado em 12 meses, o grupo se mantém em 3,1%, número bem em linha com as projeções anuais para o grupo.
Administrados registraram alta de 1,59% m/m, acima da nossa expectativa de 1,43% m/m. O quadro é bem desfavorável. Gasolina, óleo diesel e até etanol (este último nos industriais) vieram acima da projeção. O destaque é a gasolina. A ANP apontava 0,40% m/m, a nossa projeção era 0,30% m/m. O fundamento para setembro deveria ser queda devido ao desconto do PIS/Cofins. O realizado foi uma alta de 1,21% m/m, causando sozinho +5 bps de surpresa em relação à nossa projeção. Aquele risco que pontuávamos nos relatórios anteriores parece se materializar, com a leitura sugerindo que os agentes podem estar se antecipando às altas de custos esperadas pela frente diante da continuidade do conflito no Oriente Médio. O fundamento é desfavorável tanto pelo canal direto quanto indireto. Óleo diesel também subiu 1,69% m/m, o principal combustível utilizado para frete, importante fator presente no custo de todos os itens da cesta de consumo, especialmente os alimentos. Esse fator reforça nossa percepção de que, apesar de um cenário de alternância de poder ser muito favorável para os preços dos ativos, a inflação está contaminada por intensos choques de oferta, o que pode limitar o ritmo de calibração da taxa de juros.

