O PIB cresceu 0,5% t/t no primeiro trimestre de 2026, em relação ao trimestre imediatamente anterior, vindo ligeiramente melhor do que o consenso de mercado (0,4% t/t, Broadcast+) e também do que a nossa expectativa para o mês de expansão de mesma magnitude. Apesar do número ter vindo acima do esperado, vale destacar que as aberturas confirmam a nossa expectativa de perda de dinamismo da economia, saindo de crescimento de 1,1% t/t no 1T26, com surpresas baixistas concentradas em componentes mais cíclicos do PIB, sugerindo que o ambiente macroeconômico adverso está pesando sobre a atividade econômica e impõe um viés baixista para o crescimento ao longo do 2S26. Na comparação interanual, o PIB avançou 2,0% a/a, vindo também um pouco melhor do que o esperado pelo mercado (1,9% a/a, Broadcast+) e do que por nós (1,9% a/a).
Em nossa avaliação, os números divulgados hoje seguem consistentes com a nossa expectativa de arrefecimento da economia ao longo do segundo semestre, embora introduzam um viés baixista para nossas projeções de crescimento nos próximos trimestres. A retração do consumo das famílias é particularmente relevante nesse diagnóstico, uma vez que ocorre mesmo diante de uma taxa de desemprego em níveis historicamente baixos, sugerindo que os efeitos da política monetária contracionista, do elevado comprometimento de renda e das condições ainda restritivas de crédito começam a se sobrepor, ainda que parcialmente, aos vetores de sustentação da demanda. Sinais semelhantes podem ser observados na indústria, cujo crescimento agregado foi sustentado pelas atividades extrativas, enquanto a indústria de transformação e a construção recuaram. Nos serviços, segmentos importantes mais diretamente associados à demanda doméstica também apresentaram estabilidade ou contração. Dessa forma, embora o PIB tenha vindo 0,1 p.p. acima da nossa projeção, entendemos que o qualitativo da divulgação aponta em direção menos favorável do que o índice cheio, impondo um viés baixista às nossas projeções trimestrais à frente, ainda insuficiente, contudo, para alterar nossa expectativa de crescimento de 1,9% em 2026. Para 2027, por sua vez, avaliamos que a composição do resultado reforça nosso viés preliminar baixista para a atual projeção de crescimento de 1,5%, diante dos sinais de perda adicional de dinamismo da atividade. Para o terceiro trimestre, nossos modelos apontam preliminarmente para expansão de 0,2% t/t, dando continuidade à trajetória de desaceleração da economia brasileira.
No que diz respeito à condução da política monetária, entendemos que os dados divulgados hoje seguem compatíveis com a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário nas próximas reuniões. Ainda assim, diante do elevado grau de incerteza no ambiente doméstico e internacional, mantemos, por ora, nossa expectativa de redução de 25 bps da Selic na reunião de setembro, para 13,75% a.a. A partir daí, avaliamos que os próximos passos do Banco Central deverão permanecer em aberto, condicionados à evolução do cenário inflacionário e da atividade, bem como aos desdobramentos dos principais eventos geopolíticos no exterior e do processo eleitoral brasileiro.
O resultado também veio acompanhado de revisões nas séries anteriores. O crescimento do 2T25 foi revisado de 0,3% t/t para 0,4% t/t, enquanto o resultado do 4T25 passou de 0,3% t/t para 0,2% t/t. As variações do 3T25 e do 1T26 foram mantidas em 0,1% t/t e 1,1% t/t, respectivamente. Houve também mudanças relevantes na composição do primeiro trimestre. A agropecuária foi revisada de 2,0% t/t para 2,3% t/t e a indústria de 1,0% t/t para 1,2% t/t, enquanto serviços passaram de 0,5% para 0,4%. Pela demanda, o consumo das famílias foi revisado de 1,0% t/t para 0,8% t/t, a FBCF de 3,5% para 3,4% e as exportações de queda de 1,7% para recuo de 2,1%. A partir da série dessazonalizada divulgada pelo IBGE, estimamos que o PIB deixa um carrego estatístico de aproximadamente 1,8% para 2026.
Pela ótica da demanda, a principal surpresa qualitativa ficou por conta do consumo das famílias, que recuou 0,4% t/t após alta revisada de 0,8% t/t no primeiro trimestre. Na comparação interanual, o crescimento do consumo desacelerou de 1,7% para apenas 0,5%, levando o avanço acumulado no primeiro semestre para 1,1%. O resultado reforça os sinais observados nos indicadores mensais de uma perda gradual de dinamismo do consumo, em um contexto no qual os efeitos positivos da renda e do mercado de trabalho seguem presentes, mas são contrapostos pelas condições financeiras restritivas. Em sentido oposto, o consumo do governo avançou 0,4% t/t e 3,1% a/a, mantendo ritmo significativamente superior ao consumo privado. A FBCF cresceu 1,2% t/t após alta de 3,4% no trimestre anterior e avançou 1,4% a/a. Segundo o IBGE, a expansão interanual refletiu importações de bens de capital, desenvolvimento de software e construção, que mais do que compensaram a queda da produção doméstica de bens de capital. O setor externo voltou a exercer pressão negativa sobre a atividade na margem. As exportações recuaram 0,8% t/t, após queda de 2,1% t/t no 1T26, enquanto as importações avançaram 1,8% t/t após alta de 4,2%. Na comparação interanual, exportações e importações cresceram 3,8% e 5,5%, respectivamente. Entre as exportações, o IBGE destacou os embarques da indústria extrativa, da agropecuária e de produtos alimentícios. Nas importações, sobressaíram veículos automotores, artigos de vestuário e materiais elétricos.
Pela ótica da oferta, o principal destaque positivo ficou novamente com a agropecuária, que cresceu 2,8% t/t e 6,8% a/a. Na comparação anual, o desempenho foi favorecido pela pecuária e pela maior produção e produtividade de culturas importantes no trimestre, com destaque para soja e café. A indústria apresentou expansão de apenas 0,1% t/t, com uma composição bastante heterogênea. A indústria extrativa avançou 3,4% t/t, sustentada sobretudo pela produção de petróleo e gás, enquanto a indústria de transformação recuou 0,4% t/t, a construção caiu 0,4% /t e eletricidade, gás, água e saneamento recuou 1,1% t/t. Na comparação interanual, a indústria cresceu 1,5% a/a, novamente com forte contribuição da extrativa, que avançou 12,0% a/a, enquanto a transformação recuou 0,9% a/a.
Os serviços avançaram apenas 0,2% t/t, desacelerando frente aos 0,4% t/t registrados no primeiro trimestre. Informação e comunicação, com alta de 2,1% t/t, e transportes, com avanço de 1,1% t/t, foram os principais destaques positivos. Em contrapartida, comércio e outras atividades de serviços ficaram estáveis, enquanto atividades financeiras recuaram 0,3% t/t e administração, defesa, saúde e educação públicas caíram 0,4% t/t. Na comparação interanual, os serviços cresceram 1,5% a/a, abaixo dos 2,1% a/a observados no 1T26, reforçando a percepção de perda de dinamismo do setor que responde pela maior parcela do valor adicionado da economia.
Por fim, a taxa de investimento recuou para 16,1% do PIB no segundo trimestre, ante 16,5% no trimestre anterior e 16,6% no mesmo período de 2025. Com isso, estimamos que a média dos últimos quatro trimestres tenha recuado de aproximadamente 16,6% para 16,5%, mantendo a tendência de acomodação observada desde o ano passado. Já a taxa de poupança ficou em 16,6%, ligeiramente abaixo dos 16,7% observados no 2T25. Com o resultado de hoje, estimamos que a média móvel dos últimos quatro trimestres da taxa de poupança tenha ficado estável em 14,4% do PIB, permanecendo no nível mais baixo desde o 3T20.


