Em agosto, o saldo das operações de crédito registrou avanço de 9,2% a/a, sofrendo ligeira desaceleração em relação aos 9,3% a/a observados no mês imediatamente anterior, dando continuidade a uma sequência de três resultados consecutivos de relativa estabilidade, contudo ficando abaixo dos 10,4% a/a observados no mesmo período do ano anterior. Com isso, o volume de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) avançou para R$ 7,40 tri (ante R$ 7,36 tri). Esse resultado combinou altas de 7,1% a/a no saldo das pessoas jurídicas e de 10,5% a/a no das pessoas físicas. Por modalidade, o saldo de crédito com recursos livres cresceu 6,5% a/a, ante 6,7% em julho, enquanto o direcionado avançou 12,9% a/a, praticamente estável em relação ao mês anterior. Na margem, o saldo total aumentou 0,5%, com expansão de 0,8% para as famílias e ligeiro recuo de 0,1% para as empresas.
As concessões totais, na série com ajuste sazonal, cresceram 1,7% m/m, para R$ 738,8 bilhões, após recuo de 0,5% em julho. O resultado combinou altas de 3,2% m/m nas operações com pessoas jurídicas e de 0,7% m/m com pessoas físicas. Por tipo de recurso, as concessões livres avançaram 3,3% m/m, com expansão de 5,3% para PJ e de 1,0% para PF. As concessões direcionadas, por sua vez, recuaram 12,2% m/m, com quedas de 9,9% para PJ e de 7,6% para PF. A média móvel trimestral das concessões totais subiu 0,6% em agosto, ante 0,4% em julho; no crédito livre, acelerou de 0,5% para 1,3%, enquanto no direcionado passou de alta de 1,1% para queda de 4,7%. A expansão do crédito livre compensou a retração do direcionado na leitura mensal.
De maneira geral, a leitura de agosto mostra crescimento do saldo de crédito e recuperação das concessões ajustadas, embora o desempenho tenha sido desigual entre as modalidades. Essa combinação é compatível com uma desaceleração gradual do mercado de crédito, sem contração generalizada. A resiliência do mercado de trabalho ainda oferece suporte à atividade, mas a taxa de juros restritiva, o elevado endividamento das famílias e a alta da inadimplência reduzem a capacidade de sustentação do consumo nos próximos meses. Esperamos, portanto, que o dinamismo se torne mais concentrado entre segmentos e modalidades nas próximas leituras.
Para as pessoas físicas, as concessões livres somaram R$ 346,6 bilhões em agosto, com alta nominal de 9,0% a/a, ou R$ 28,6 bilhões. Na comparação mensal sem ajuste sazonal, houve recuo de 2,1%, ou R$ 7,5 bilhões. O cartão de crédito total avançou 10,6% a/a, ou R$ 27,5 bilhões: a modalidade à vista cresceu 8,1%, ou R$ 17,1 bilhões; o rotativo, 25,1%, ou R$ 8,3 bilhões; e o parcelado, 14,0%, ou R$ 2,2 bilhões. As concessões de consignado para trabalhadores do setor privado aumentaram 44,3% a/a, ou R$ 2,7 bilhões, mas recuaram 0,9% no mês. O consignado total cresceu 13,7% a/a, enquanto o financiamento para aquisição de veículos avançou 22,0%, ou R$ 4,1 bilhões. Entre as modalidades de menor dinamismo, o consignado para servidores públicos caiu 3,6% a/a. O crédito pessoal não consignado cresceu 6,7% a/a e o consignado para beneficiários do INSS, 2,1% a/a.
Para as pessoas jurídicas, as concessões livres somaram R$ 301,3 bilhões em agosto, com expansão nominal de 23,9% a/a, equivalente a R$ 58,1 bilhões. Na comparação mensal sem ajuste sazonal, houve alta de 1,7%; na série ajustada, o avanço foi de 5,3%. Entre as modalidades, o capital de giro cresceu 118,0% a/a, ou R$ 29,2 bilhões. A antecipação de faturas de cartão avançou 31,7%, ou R$ 13,8 bilhões, e o desconto de duplicatas aumentou 19,1%, ou R$ 12,1 bilhões. O cartão empresarial total cresceu 17,1%, ou R$ 3,9 bilhões, enquanto o ACC subiu 6,4%, ou R$ 1,0 bilhão. Na ponta negativa, a aquisição de veículos recuou 22,9% a/a, ou R$ 1,1 bilhão, e o financiamento às exportações caiu 28,7%, ou R$ 2,1 bilhões.
A taxa média de juros das novas operações subiu 0,2 p.p. em agosto, de 32,1% para 32,3% a.a., ficando 0,4 p.p. acima do nível observado um ano antes. O spread bancário aumentou 0,3 p.p. no mês, para 21,2 p.p. Nas novas operações, a taxa cobrada às empresas recuou 1,0 p.p., para 19,8% a.a., enquanto a das famílias avançou 0,7 p.p., para 38,2% a.a. No crédito livre, a taxa PJ caiu 1,0 p.p., para 24,2% a.a., ao passo que a taxa PF subiu 1,4 p.p., para 61,7% a.a. Nos recursos direcionados, a taxa PJ recuou 1,1 p.p., para 12,7% a.a., e a PF diminuiu 0,1 p.p., para 11,3% a.a. O Indicador de Custo do Crédito (ICC) ainda não apresenta observação de agosto na planilha; em julho, última leitura disponível, ficou em 24,1% a.a., com queda de 0,1 p.p. no mês e alta de 0,9 p.p. em doze meses. Na abertura por tomador, o ICC de julho foi de 17,5% a.a. para as empresas e de 28,2% a.a. para as famílias. O aumento das taxas das novas operações para PF mantém pressão sobre o custo do crédito às famílias.
A inadimplência, considerando atrasos superiores a 90 dias, voltou a subir em agosto. A taxa da carteira total do SFN avançou 0,1 p.p. no mês e 0,9 p.p. em doze meses, para 5,0%. Entre as empresas, ficou estável no mês, em 3,3%, mas aumentou 0,5 p.p. em doze meses; entre as famílias, subiu 0,2 p.p. no mês e 1,1 p.p. em doze meses, para 6,0%. No crédito livre, a inadimplência alcançou 6,6%, com alta mensal de 0,2 p.p.; para PJ, atingiu 4,3%, e para PF, 8,0%. No direcionado, a taxa total passou de 2,9% para 3,0%, com recuo de 2,1% para 2,0% em PJ e avanço de 3,4% para 3,6% em PF. A inadimplência total, a de PF no agregado e a de PF no crédito livre renovaram as máximas da série disponível desde março de 2011, reforçando a piora da qualidade da carteira.
O endividamento das famílias chegou a 49,9%, com alta de 0,2 p.p. na passagem de junho para julho e de 1,1 p.p. em doze meses. O comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu 28,7%, com avanços de 0,1 p.p. no mês e de 1,4 p.p. em doze meses. A combinação entre renda comprometida, inadimplência crescente e juros ainda elevados limita o espaço para sustentação do consumo nos próximos meses.
Em suma, a leitura de agosto combina crescimento dos saldos e recuperação das concessões ajustadas com nova piora da inadimplência. A expansão mensal do crédito livre sustentou o fluxo total, apesar da retração do direcionado. Ao mesmo tempo, a inadimplência da carteira total alcançou 5,0% e a das famílias, 6,0%, enquanto as taxas das novas operações para PF subiram. Esses resultados mantêm o crédito resiliente no presente, mas reforçam a perspectiva de perda gradual de impulso nos próximos meses, sobretudo para as famílias.









