O Federal Reserve manteve a taxa de juros (Fed Funds rate) no intervalo entre 3,75% e 4,00% a.a., em linha com as expectativas de mercado (Bloomberg). A decisão reflete a opção do Comitê por reunir informações adicionais para avaliar o grau de restrição monetária necessário à convergência da inflação à meta. A surpresa em relação ao nosso cenário ficou no placar da votação, com duas dissidências favoráveis à continuidade do ciclo de alta, de Lisa Cook e Beth Hammack, ante as três que esperávamos. A composição dos votos também surpreendeu, uma vez que Neel Kashkari e Lorie Logan, considerados integrantes da ala mais hawkish do Comitê, acompanharam a decisão de manutenção.
O comunicado destacou a persistência de elevada incerteza geopolítica e a resiliência da demanda doméstica, sustentada por investimentos robustos. A principal mudança foi a caracterização do ritmo de crescimento, que passou de “sólido” para “forte”, sugerindo que as leituras mais fracas do payroll não alteraram de forma relevante o diagnóstico do Fed sobre a atividade. Em nossa avaliação, essa sinalização mantém a inflação no centro das preocupações do Comitê e reforça a expectativa de que o próximo movimento seja de alta. Assim, apesar da manutenção dos juros e do número de dissidências inferior ao antecipado, interpretamos a comunicação como hawkish, em linha com nossa projeção de elevação de 25 pontos-base da Fed Funds rate em dezembro.
Na coletiva de imprensa, Kevin Warsh manteve a prioridade atribuída ao combate à inflação, em continuidade à mensagem de setembro. A avaliação de uma economia mais forte, sustentada por investimentos robustos e pela expansão dos gastos em tecnologia, veio acompanhada de um diagnóstico favorável do mercado de trabalho. O presidente destacou a estabilidade do desemprego e a criação de vagas superior à observada no ano anterior, reforçando que o componente de emprego do duplo mandato se encontra em situação confortável. Em contrapartida, a inflação permanece acima da meta há quase seis anos, justificando a concentração das discussões do Comitê na estabilidade de preços. Em nossa avaliação, essa combinação preserva espaço para novas altas, sem indicar que a pausa decorreu de maior preocupação com uma desaceleração da economia.
O principal destaque da coletiva foi o anúncio de mudanças no calendário do Fed, com redução de oito para sete reuniões com decisão sobre juros em 2027. Serão mantidos oito encontros anuais, mas um deles será dedicado exclusivamente à discussão da estratégia de política monetária, sem votação sobre a taxa básica. Segundo Warsh, os detalhes desse novo formato ainda serão apresentados. Em relação ao cenário, Warsh reconheceu que as condições financeiras e de crédito começaram a se apertar desde setembro, embora ainda não as considere restritivas. Essa avaliação, somada à caracterização da última alta como uma retirada de acomodação, reforça nossa leitura de que há espaço para novos aumentos de juros. A melhora das medidas de compensação inflacionária e das expectativas, contudo, parece ter dado ao Comitê algum conforto para aguardar novos dados e avaliar os efeitos do ajuste de setembro antes de voltar a elevar a taxa.
A coletiva também trouxe sinais dovish. Warsh afirmou que a maioria dos membros não considera a economia superaquecida e ponderou que o crescimento elevado não implica, necessariamente, maior pressão inflacionária. Ao avaliar que a economia caminha na direção correta, o presidente apresentou uma leitura mais favorável do cenário, apesar da persistência da inflação acima da meta. Em nossa avaliação, essas falas suavizam o tom da comunicação e reforçam a justificativa para a pausa, sem afastar a possibilidade de novas altas caso o progresso da desinflação se mostre insuficiente.
Em suma, avaliamos que a reunião trouxe sinais mistos. O comunicado preservou um viés hawkish, ao destacar a força da atividade e a persistência da inflação, reforçado pelos dois votos dissidentes favoráveis a uma alta de juros. Na coletiva, contudo, Warsh suavizou essa mensagem ao afirmar que a maioria do Comitê não considera a economia superaquecida e que o crescimento elevado não implica, necessariamente, maior pressão inflacionária. O reconhecimento dos efeitos iniciais do aperto, da melhora das expectativas e de que a economia caminha na direção correta também sinaliza algum conforto para aguardar novos dados. Em nossa avaliação, esses elementos dovish reduzem a urgência de um novo ajuste e afastam a interpretação de que a comunicação represente um forward guidance para uma alta em dezembro. Mantemos nossa projeção de elevação de 25 pontos-base nessa reunião, diante da persistência inflacionária e da avaliação de que as condições financeiras ainda não são restritivas. Essa expectativa, porém, não decorre de uma sinalização antecipada do Fed, que preservou espaço para prolongar a pausa caso os próximos dados mostrem avanços mais consistentes na convergência da inflação à meta.








