O Federal Reserve elevou a taxa de juros (Fed Funds rate) em 0,25 p.p., para o intervalo entre 3,75% e 4,00% a.a., em linha com as expectativas de mercado. A decisão reflete a combinação entre resiliência da atividade e do mercado de trabalho e uma inflação mais persistente do que o antecipado. Diferentemente da reunião de julho, a decisão foi unânime, sugerindo amplo consenso no Comitê de que o balanço de riscos associado ao duplo mandato exige maior ênfase no combate à inflação. As projeções e o gráfico de pontos (dot plot) indicam a expectativa de uma nova alta ainda em 2026, em linha com nosso cenário. Para 2027, contudo, parte dos participantes antevê, no máximo, uma elevação adicional, contrastando com nossa projeção de duas altas até o final do primeiro semestre.
Assim como na reunião anterior, a decisão de hoje veio acompanhada de um comunicado bastante enxuto, contudo, com um pouco mais de detalhes em relação à economia americana. De acordo com o documento, a incerteza permanece elevada por conta de fatores geopolíticos globais, ao passo em que a demanda doméstica permaneceu resiliente, sendo marcada por um investimento robusto. No que diz respeito à inflação, o comitê passou a caracterizar a inflação como elevada, ao invés de “relativamente elevada” do comunicado anterior, sugerindo uma piora da percepção da dinâmica inflacionária no período entre reuniões. Por fim, o comitê avalia que a alta de hoje dará suporte a uma convergência mais rápida da inflação para a meta. A nosso ver, o comunicado de hoje reforça a nossa leitura de um Fed cada vez menos preocupado com a atividade econômica e cada vez mais atento aos riscos e à dinâmica inflacionária corrente. Dessa forma, entendemos que tanto a decisão de caráter unânime quanto esses sinais de uma postura mais combativa à inflação reforçam o tom hawkish do comunicado, ficando em linha com a expectativa de mercado de um Fed mais ativo.
Na coletiva de imprensa, Kevin Warsh reforçou a prioridade atribuída ao combate à inflação, diante de uma avaliação mais favorável da atividade e do mercado de trabalho. Segundo o presidente, os indicadores recentes mostram que a economia ganhou força, com crescimento sólido, produtividade elevada e investimento robusto. Ao mesmo tempo, avaliou que o mandato de pleno emprego se encontra em boa situação, com pouca alteração na taxa de desemprego e riscos equilibrados para o mercado de trabalho. Em contrapartida, os riscos para a inflação permanecem inclinados para cima. Em nossa avaliação, essa assimetria ajuda a explicar a decisão de elevar os juros, ao reduzir as preocupações com uma deterioração do emprego e permitir maior foco na estabilidade de preços.
O principal destaque da comunicação foi a avaliação de que a inflação subjacente não apresenta sinais claros de melhora e permanece elevada há tempo excessivo. Warsh afirmou que o Comitê não estava confiante na convergência ao objetivo e que tanto a trajetória quanto a velocidade desse processo ficaram aquém das expectativas. A mensagem, portanto, vai além do desconforto com o nível corrente da inflação e envolve a insuficiência do progresso observado. Ao enfatizar que tendências importam mais do que dados isolados, sujeitos a ruído, foi sinalizado que leituras pontualmente benignas não serão suficientes para alterar essa avaliação sem evidências mais consistentes de desinflação. Outro ponto relevante foi a afirmação de que o comitê não consegue caracterizar as condições financeiras mais amplas como restritivas, corroborando a sua fala em Jackson Hole e sugerindo que a alta da Fed Fund rate não deve se restringir à reunião de hoje.
Em relação aos choques de oferta, Warsh reconheceu que o Fed não consegue determinar preços específicos, como petróleo e alimentos, mas destacou sua responsabilidade de impedir que os efeitos iniciais se disseminem pelo restante da economia. Essa distinção reforça a preocupação com efeitos secundários sobre outros preços, sem implicar que a autoridade monetária pretenda compensar mecanicamente cada oscilação das commodities. Ao mesmo tempo, o presidente afirmou não considerar necessário provocar danos ao mercado de trabalho para alcançar o objetivo de inflação. Assim, a justificativa apresentada para o aperto não foi a necessidade de produzir uma deterioração do emprego, mas de assegurar a estabilidade de preços, que ele caracterizou como fundamental para o crescimento econômico.
Apesar da prioridade conferida à inflação, Warsh evitou novamente antecipar as próximas decisões e reiterou sua resistência ao uso de forward guidance. Ao observar que as projeções divulgadas não representam sua previsão pessoal, reforçou a necessidade de não as interpretar como um compromisso antecipado com determinada trajetória de juros. Também afirmou que os preços de mercado serão observados, mas rejeitou a interpretação de que a decisão tenha sido conduzida pela precificação de mercado. A ausência de uma indicação explícita dos próximos passos não deve ser interpretada como se novas altas não estivessem sobre a mesa, mas sim sendo uma forma de permitir que o Fed tenha uma maior flexibilidade em decidir o timing dessas altas.
As projeções combinaram atividade mais forte e inflação persistente. Para 2026, o crescimento do PIB entre quartos trimestres passou de 2,2% para 2,3%, o desemprego de 4,3% para 4,1%, o PCE de 3,6% para 3,7% e seu núcleo de 3,3% para 3,4%. Para 2027, o crescimento foi elevado de 2,3% para 2,4% e o desemprego reduzido de 4,3% para 4,1%. As medianas de inflação cheia e subjacente atingem 2,0% apenas em 2029. O gráfico de dots também reforçou o viés de aperto. A mediana dos juros para o fim de 2026 subiu de 3,8% para 4,1%, compatível com uma alta adicional de 25 pontos-base. Dos 18 participantes, 12 projetam mais uma alta, quatro indicam duas e apenas dois apontam manutenção até dezembro, tomando como referência o intervalo aprovado hoje. Para 2027, a mediana passou de 3,6% para 4,1%, enquanto a de 2028 subiu de 3,4% para 3,9%, apontando juros mais elevados por mais tempo.
Em suma, avaliamos que a decisão e a coletiva de hoje reforçam uma orientação hawkish, sustentada principalmente pela ausência da melhora convincente da inflação subjacente, pelo fortalecimento da economia e pela avaliação de que as condições financeiras não estão restritivas. A mensagem de Warsh sugere disposição para realizar ajustes adicionais caso a convergência à meta continue ocorrendo em velocidade insuficiente, sem comprometer antecipadamente as próximas decisões. Nesse contexto, avaliamos que a decisão de hoje segue consistente com o nosso cenário de mais uma alta de juros ao longo de 2026 e com as duas altas projetadas para o próximo ano a serem feitas ao longo do primeiro semestre. Na nossa avaliação, uma economia resiliente e a sobreposição de choques de oferta criam um risco bastante significativo para a transmissão de choques inflacionários de primeira ordem para o restante da economia, sendo este um risco que o Fed aparenta querer mitigar.








