A renda pessoal (personal income) registrou expansão de 0,2% m/m em agosto, desacelerando em relação aos 0,4% m/m observados no mês imediatamente anterior, vindo aquém da expectativa consensual de mercado de alta de 0,5% m/m (Bloomberg). Em valores nominais, o avanço correspondeu a US$ 66,6 bilhões na métrica anualizada. Por sua vez, a renda pessoa disponível (disposable personal income) apresentou expansão de 0,3% m/m, equivalente a US$ 68,6 bi, enquanto em termos reais, a renda disponível avançou 0,2% m/m, ante expansão de 0,3% m/m em julho. Cabe destacar que a alta na renda em agosto reflete principalmente o crescimento da remuneração dos trabalhadores, com destaque para os salários no setor privado, além do avanço dos benefícios sociais pagos pelo governo, sobretudo o Medicare e benefícios da previdência social.
Por sua vez, os gastos com consumo pessoal (personal consumption expenditures) avançaram 0,9% m/m em agosto, acelerando em relação à alta de 0,1% m/m em julho e ficando em linha com o consenso de mercado (Bloomberg). Em termos reais, o consumo cresceu 0,6% m/m, ante 0,1% m/m no mês anterior, superando ligeiramente a expectativa de expansão de 0,5% m/m (Bloomberg). O aumento nominal de US$ 190,8 bilhões, na métrica anualizada, combinou avanços de US$ 114,1 bilhões nos gastos com bens e de US$ 76,7 bilhões nos serviços. A recuperação dos bens é compatível com uma normalização dos gastos após a fraqueza de julho, que sucedeu o Prime Day realizado em junho. Entre os bens, destacaram-se outros bens não duráveis, gasolina e demais bens energéticos, veículos e peças e bens recreativos, com aumentos de US$ 24,7 bilhões, US$ 20,9 bilhões, US$ 20,1 bilhões e US$ 17,0 bilhões, respectivamente. Nos serviços, os principais avanços ocorreram em alimentação e hospedagem, saúde e transportes, com altas de US$ 20,6 bilhões, US$ 15,1 bilhões e US$ 12,6 bilhões, respectivamente. Em contrapartida, os gastos com serviços de recreação recuaram US$ 10,3 bilhões.
Em relação ao índice de preços dos gastos com consumo (PCE price index), o índice cheio avançou 0,3% m/m em agosto, vindo em linha com o consenso de mercado (Bloomberg), enquanto o núcleo, que exclui alimentos e energia, registrou alta de 0,2% m/m, vindo ligeiramente melhor do que a projeção mediana de mercado de 0,3% m/m (Bloomberg). Ambos aceleraram em relação às variações revisadas de 0,1% m/m em julho. Na comparação interanual, o PCE cheio acumulou 3,4% a/a, e o núcleo, 3,0% a/a, ficando ambas as iguais às suas respectivas leituras revisadas de julho, contudo vindo abaixo das expectativas de 3,7% a/a e 3,3% a/a (Bloomberg), na mesma ordem. A surpresa baixista, sobretudo na comparação interanual, deve ser interpretada à luz das revisões históricas associadas à atualização metodológica do BEA. Entre as mudanças, destacam-se três componentes. Em software e acessórios de informática, o órgão substituiu a utilização exclusiva do CPI por um índice composto que incorpora também PPIs de jogos e de serviços de hospedagem e infraestrutura de tecnologia. Em gestão de carteiras e consultoria de investimentos, passou a estimar a quantidade de serviços com base no emprego e nas horas trabalhadas do setor, obtendo o deflator implicitamente a partir dos gastos nominais. Já em serviços jurídicos, substituiu o CPI por uma composição de índices de preços ao produtor. Dessa forma, a leitura mais baixa em 12 meses não representa, por si só, uma aceleração do processo de convergência à meta.
A composição do resultado trouxe uma leitura menos favorável na margem, com intensificação das pressões tanto em bens quanto em serviços. Conçsiderando o histórico revisado, a inflaão de bens passou de uma queda de 0,1% m/m em julho para uma alta de 0,3% m/m em agosto. O movimento refletiu principalmente a reversão dos bens não duráveis, que saíram de uma deflação de 0,4% m/m para uma alta de 0,5% m/m. Em contrapartida, os bens duráveis apresentaram moderação, desacelerando de 0,4% m/m para 0,1% m/m, constituindo um contraponto favorável à piora do agregado. Entre os componentes mais voláteis, os preços de energia voltaram a pressionar, passando de uma queda de 1,4% m/m para uma alta de 2,3% m/m, enquanto os alimentos ficaram praticamente estáveis (0,0% m/m), após recuo de 0,1% m/m em julho. Pelo lado dos serviços, a inflação acelerou de 0,1% m/m para 0,3% m/m, contribuindo para a retomada das pressões mensais, mesmo diante da moderação dos duráveis. Adicionalmente, o PCE excluindo alimentos e energia avançou 0,3% m/m, ante 0,1% m/m no mês anterior, indicando que a piora na margem não ficou restrita à reversão dos preços de energia. Dessa forma, avaliamos que a abertura recomenda cautela na interpretação da surpresa baixista da inflação em 12 meses. Embora as revisões tenham alterado a avaliação da trajetória passada, agosto apresentou aceleração dos serviços, parcialmente contrabalançada pelo comportamento mais contido dos bens duráveis. Essa combinação não caracteriza, por si só, uma reaceleração generalizada da inflação, mas tampouco permite interpretar a leitura anual mais baixa como evidência de uma melhora equivalente da dinâmica corrente.
A poupança pessoal apresentou uma queda relevante em agosto. As despesas pessoais cresceram US$ 190,7 bilhões, superando o avanço de US$ 68,6 bilhões da renda disponível. A diferença implica uma redução de aproximadamente US$ 122,1 bilhões da poupança, para US$ 990,2 bilhões na métrica anualizada, com taxa de poupança de 4,1% da renda disponível, ante 4,6% na leitura imediatamente anterior. Cabe destacar que o nível de poupança revisado em julho é de aproximadamente US$ 1.112,3 bilhões, bastante superior aos US$ 712,0 bilhões apresentados no relatório anterior. Assim, a revisão aponta para uma capacidade de poupança previamente maior do que se estimava, mas agosto trouxe redução dessa poupança, sugerindo que o consumo pode se manter resiliente por um período maior do que o previamente estimado dada a poupança mais elevada e uma renda relativamente estável.
De modo geral, avaliamos que os dados divulgados hoje apresentaram uma composição mista. A revisão baixista da inflação passada e a moderação do núcleo na métrica de três meses melhoram o diagnóstico inflacionário, enquanto a recuperação do consumo reduz a preocupação com uma perda persistente de dinamismo da demanda das famílias. Para o Fed, esses sinais atuam em direções distintas. A inflação revisada oferece mais conforto do que a série anterior sugeria, mas a força dos gastos e a retomada das pressões mensais em energia e serviços recomendam cautela e sugerem que a surpresa positiva em 12 meses não deve ser interpretada como uma convergência mais rápida da inflação à meta. Nesse contexto, entendemos que o resultado de hoje segue corroborando a nossa expectativa de uma nova alta de juros a ser praticada pelo Fed ao longo de 2026, contudo retira a urgência de que essa alta seja dada na próxima reunião, como forma do comitê avaliar se haverá uma melhora da tendência inflacionária em um ambiente que tem mostrado um consumo ainda resiliente, corroborando o nosso cenário de alta apenas na reunião de dezembro. Para o próximo ano, seguimos com a expectativa de duas altas concentradas no primeiro semestre do ano, refletindo a nossa expectativa de prolongamento do impasse no Oriente Médio e as crescentes pressões inflacionárias associadas ao aumento de custos derivado desse conflito.












