A primeira prévia do PIB dos EUA do 3º trimestre de 2026 veio acima do consenso de mercado (3,2% t/t anualizado, Bloomberg), ao registrar um avanço anualizado de 3,4% t/t, mostrando uma significativa aceleração em relação ao desempenho observado no segundo trimestre do ano (2,2% t/t anualizado). Cabe destacar que o forte desempenho registrado no período foi derivado principalmente de um avanço mais significativo dos investimentos privados acelerando significativamente em relação ao crescimento observado no trimestre anterior, ainda beneficiada pelos investimentos em infraestrutura de IA. Além disso, destacamos a resiliência do consumo que manteve o robusto ritmo de expansão no trimestre imediatamente anterior, surpreendendo o mercado e surgindo uma maior resiliência da demanda privada doméstica mesmo diante de um cenário mais incerto e adverso no período.
Os gastos com consumo pessoal mantiveram crescimento de 3,8% t/t anualizado, repetindo o ritmo revisado do segundo trimestre e contribuindo com 2,52 p.p. para o PIB. Esse resultado veio melhor do que o esperado pelo mercado que tinha como expectativa uma desaceleração para 3,4% t/t anualizado (Bloomberg). A composição, contudo, mostrou maior sustentação pelos serviços, que aceleraram de 3,4% para 4,1% t/t anualizado e adicionaram 1,89 p.p. ao crescimento. Saúde, alimentação e hospedagem e habitação e utilidades foram os principais destaques, com contribuições de 0,56 p.p., 0,41 p.p. e 0,34 p.p., respectivamente. Em contrapartida, o consumo de bens desacelerou de 4,5% para 3,0% t/t anualizado, contribuindo com 0,63 p.p. O movimento refletiu sobretudo a moderação dos duráveis, de 7,4% t/t para 2,3% t/t, enquanto os não duráveis aceleraram de 3,1% t/t para 3,4% t/t. Portanto, o consumo permaneceu robusto no agregado, mas com perda de impulso dos bens duráveis compensada pela maior expansão dos serviços.
Ainda pelo lado da demanda privada, o investimento apresentou forte aceleração e se tornou a maior contribuição positiva para o crescimento. O investimento privado total, que inclui estoques, avançou 19,4% t/t anualizado, ante 4,6% t/t no segundo trimestre, adicionando 3,27 p.p. ao PIB. Dentro desse agregado, o investimento fixo cresceu 9,4% t/t, após alta de 7,7% t/t, com contribuição de 1,66 p.p. O desempenho foi liderado pelo investimento não residencial, que acelerou de 9,0% t/t para 12,7% t/t, com destaque para equipamentos, cuja expansão passou de 13,4% t/t para 20,9% t/t. Os produtos de propriedade intelectual mantiveram crescimento expressivo de 8,4% t/t, embora abaixo dos 9,2% t/t anteriores, enquanto estruturas avançaram 5,4% t/t, após praticamente estabilidade no segundo trimestre. Em sentido contrário, o investimento residencial voltou a recuar, registrando queda de 3,3% t/t, após alta de 2,8% t/t, e retirando 0,12 p.p. do crescimento. A abertura evidencia um contraste entre a força dos investimentos empresariais e a fragilidade da atividade residencial.
A composição do investimento em equipamentos reforça a importância das categorias ligadas à tecnologia. O segmento contribuiu com 1,16 p.p. para o PIB, dos quais 0,86 p.p. vieram de equipamentos de processamento de informações. Computadores e periféricos, isoladamente, adicionaram 0,72 p.p. Em nossa avaliação, esse desempenho é compatível com a continuidade dos investimentos em infraestrutura digital, embora a divulgação não permita identificar quanto desse avanço está diretamente associado à inteligência artificial. Outro impulso relevante veio dos estoques, que passaram de uma contribuição negativa de 0,53 p.p. no segundo trimestre para positiva de 1,61 p.p. no terceiro. Assim, parte importante da aceleração do PIB decorreu de um componente que pode apresentar maior volatilidade entre trimestres, não devendo ser interpretada integralmente como expansão da demanda final.
Os gastos do governo voltaram a contribuir positivamente para o crescimento, com expansão de 5,3% t/t anualizado e contribuição de 0,90 p.p., após recuo de 0,1% no segundo trimestre. O movimento foi liderado pelos gastos federais, que avançaram 15,8%, refletindo altas de 22,2% nas despesas não relacionadas à defesa e de 11,7% na defesa nacional. Já os gastos estaduais e locais recuaram 0,1%. Cabe destacar, contudo, que parte da recuperação federal refletiu o tratamento contábil das vendas de petróleo da Reserva Estratégica. Como essas vendas são deduzidas do consumo do governo, sua redução no terceiro trimestre, em relação ao segundo, elevou a despesa pública medida. Segundo o BEA, esse movimento é compensado por outros componentes das contas nacionais e não produz efeito direto sobre o PIB agregado.
Pelo lado do setor externo, o comércio internacional exerceu uma pressão negativa significativamente maior. As exportações líquidas retiraram 3,32 p.p. do crescimento, ante subtração de 1,10 p.p. no segundo trimestre. As importações aceleraram de 12,6% para 19,7% t/t anualizado, contribuindo negativamente com 2,64 p.p., enquanto as exportações passaram de uma alta de 5,0% para uma queda de 5,7%, retirando outros 0,68 p.p. A expansão das importações foi liderada pelos bens de capital, exceto automóveis, ao passo que o recuo das exportações esteve concentrado nos bens, sobretudo petróleo e produtos relacionados. A composição das compras externas é compatível com o fortalecimento do investimento doméstico.
No que diz respeito aos preços, as medidas trimestrais apresentaram moderação relevante em relação ao trimestre imediatamente anterior. O deflator do PIB americano desacelerou de 6,1% t/t para 2,3% t/t, ficando abaixo do consenso de mercado que tinha uma expectativa de avanço de 2,3% t/t no período (Bloomberg), refletindo um menor impacto dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o ritmo de expansão de preços americanos no período. Por sua vez, o núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, desacelerou de 3,3% t/t para 2,5% t/t, porém ficando acima do consenso de mercado (2,4% t/t, Bloomberg). Dessa forma, apesar da moderação da inflação quando comparada ao trimestre imediatamente anterior, os dados de hoje apontam para uma dinâmica marcada por uma inflação que segue acima da meta.
Nesse sentido, a divulgação mensal do PCE, também publicada hoje, recomenda distinguir o desempenho do trimestre da dinâmica observada em setembro. No último mês do período, o consumo real ficou praticamente estável, após alta de 0,5% m/m em agosto, enquanto a renda disponível real recuou 0,3% m/m. Ao mesmo tempo, o índice cheio de preços avançou 0,5% m/m e o núcleo, 0,3% m/m, acumulando altas de 3,6% a/a e 3,1% a/a, respectivamente. Portanto, a expansão robusta do consumo no trimestre coexistiu com perda de dinamismo dos gastos reais e maior pressão inflacionária no seu encerramento. Essa combinação não invalida a leitura de resiliência da demanda, mas recomenda cautela ao extrapolar o ritmo do terceiro trimestre para os meses seguintes.
De modo geral, avaliamos que a primeira prévia do terceiro trimestre reforça a percepção de uma economia americana resiliente, com consumo robusto e aceleração do investimento empresarial. A expansão de 4,9% t/t anualizado das vendas finais para compradores privados domésticos é particularmente relevante, por evidenciar a força da demanda mesmo ao excluir estoques, comércio exterior e gastos públicos. Para o Fed, esse quadro reduz as preocupações com uma desaceleração abrupta, sobretudo diante da força dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial e de seu potencial de estimular outros setores da economia. Em nossa avaliação, a combinação entre a surpresa altista do PIB e a persistência das pressões inflacionárias nas leituras mensais permanece consistente com nosso cenário de uma alta adicional de 25 pontos-base em dezembro. Essa trajetória segue condicionada à evolução dos dados, especialmente à sustentação do consumo e ao comportamento da inflação subjacente.






