O mercado de trabalho norte americano gerou um saldo líquido de 162,0 mil postos de trabalho em setores não agrícolas (payroll) em agosto, número que veio significativamente melhor do que o esperado pelo consenso de mercado (55,0 mil, Bloomberg) e representando uma forte recuperação em relação à criação revisada de 21,0 mil postos em julho. O resultado foi derivado da combinação entre a abertura de 127,0 mil vagas no setor privado e de 35,0 mil no setor público, indicando uma melhora importante após a fraqueza observada nos meses anteriores. Com isso, o saldo acumulado em 2026 alcançou aproximadamente 643,0 mil postos de trabalho, significativamente acima dos cerca de 156,0 mil registrados no mesmo período de 2025. O resultado de agosto também ficou bastante acima da criação média mensal de apenas 31,0 mil vagas observada nos 12 meses anteriores, reforçando uma leitura de maior resiliência do mercado de trabalho na entrada do terceiro trimestre.
Além da forte surpresa do índice cheio, as revisões dos meses anteriores também trouxeram uma leitura mais favorável. A criação de vagas em junho foi revisada de 20 mil para 31 mil, enquanto julho passou de uma destruição de 23 mil para uma criação de 21 mil postos, resultando em uma revisão acumulada positiva de 55 mil vagas. Dessa forma, a média móvel de três meses da geração de empregos acelerou de 38 mil em julho para 71 mil vagas em agosto, revertendo a tendência de arrefecimento observadas nas duas leituras imediatamente anteriores, sugerindo um início de terceiro trimestre mais positivo para o mercado de trabalho americano.
A composição setorial também apresentou uma melhora relevante, embora parte expressiva do resultado tenha refletido a reversão de movimentos observados no mês anterior. O setor de lazer e hospitalidade criou 62,0 mil vagas, após queda revisada de 21,0 mil em julho, com o avanço concentrado em acomodação e alimentação (+67,8 mil), sobretudo restaurantes e bares (+59,2 mil). Nesse sentido, o resultado reforça a percepção de que parte da fraqueza observada em julho possuía caráter temporário. Outro destaque positivo veio da educação dos governos locais, com criação de 41,9 mil vagas, praticamente revertendo a queda registrada anteriormente. Para além desses componentes, houve sinais de melhora relativamente disseminados. A indústria criou 16 mil vagas e manteve a tendência de recuperação observada desde o fim de 2025, com destaque para máquinas e produtos metálicos fabricados. A construção adicionou outros 22,0 mil postos, enquanto saúde e assistência social criaram 28,4 mil vagas. Em contrapartida, o principal destaque negativo ficou por conta do setor de informação, que destruiu 23,0 mil vagas, com perdas em infraestrutura de computação, processamento e hospedagem de dados (-8,0 mil), editoras (-7,0 mil) e radiodifusão e provedores de conteúdo (-5,0 mil). As atividades financeiras também recuaram 11 mil postos. Cabe destacar ainda que o índice de difusão do emprego privado avançou de 52,8 para 55,6 pontos, indicando que o crescimento das vagas se tornou mais disseminado entre os setores em agosto.
A taxa de desemprego permaneceu estável em 4,1%, em linha com o consenso de mercado (Bloomberg), mas sua composição foi significativamente mais favorável do que a observada em julho. O número de pessoas ocupadas aumentou em 569,0 mil, enquanto a força de trabalho cresceu ainda mais, em 683,0 mil pessoas. Como resultado, o número de desempregados aumentou moderadamente em 115,0 mil, para aproximadamente 7,0 milhões, sem alterar a taxa de desemprego. Ao mesmo tempo, a taxa de participação recuperou parte da queda recente, passando de 61,4% para 61,6%, enquanto a razão entre emprego e população avançou de 58,9% para 59,1%. O número de pessoas fora da força de trabalho recuou em 551,0 mil. Dessa forma, diferentemente de julho, a estabilidade do desemprego em agosto ocorreu simultaneamente a uma expansão significativa do emprego e da oferta de trabalho, melhorando qualitativamente a leitura da pesquisa domiciliar.
Vale destacar que mesmo após a recuperação em agosto, a taxa de participação segue 0,5 p.p. abaixo do nível de janeiro, mantendo a leitura de que o envelhecimento populacional e a desaceleração da imigração seguem restringindo o crescimento da oferta de trabalho. Por outro lado, a recuperação da razão emprego/população para 59,1% faz com que essa métrica esteja praticamente estável em relação ao início do ano, reduzindo a evidência de que a queda recente da participação estivesse acompanhada por uma deterioração igualmente intensa do emprego. Outros indicadores de subutilização também melhoraram, com o número de trabalhadores em tempo parcial por razões econômicas recuando em 414,0 mil, para 4,4 milhões, enquanto o número de trabalhadores marginalmente ligados à força de trabalho caiu 102,0 mil.
Pelo lado dos salários, o rendimento médio por hora avançou 0,3% m/m em agosto, para US$ 37,75, acelerando em relação à alta de 0,1% registrada no mês anterior e ficando em linha com o consenso de mercado (Bloomberg). Na comparação interanual, contudo, o crescimento dos salários desacelerou novamente, de 3,2% para 3,1% a/a, sugerindo que a recuperação da geração de vagas ainda não veio acompanhada por uma reaceleração das pressões salariais. A jornada média semanal também aumentou de 34,3 para 34,4 horas, enquanto o índice de horas trabalhadas no setor privado avançou 0,3% m/m e a folha salarial agregada cresceu 0,7%. Dessa forma, a composição aponta para uma recuperação relevante da massa de rendimentos do trabalho no mês, embora a desaceleração dos salários na comparação interanual continue sugerindo moderação das pressões inflacionárias provenientes desse canal.
De modo geral, avaliamos que o relatório de agosto trouxe uma mudança importante em relação à leitura bastante fraca de julho. A forte surpresa positiva do payroll, as revisões altistas dos dois meses anteriores e a melhora da participação e da razão emprego/população reduziram os temores de uma deterioração mais abrupta do mercado de trabalho. Embora parte do resultado tenha refletido reversões em setores que haviam recuado fortemente em julho, sobretudo lazer e hospitalidade e educação dos governos locais, a melhora do índice de difusão e o avanço do emprego privado sugerem uma recuperação mais disseminada. Para o Fed, avaliamos que os números possuem uma leitura hawkish, ao reduzir as preocupações com o mandato de pleno emprego e permitir maior foco no combate à inflação, que permanece significativamente acima da meta. Nesse contexto, o resultado aumenta a probabilidade de retomada do ciclo de alta da Fed Funds rate já na próxima reunião, embora a divulgação do CPI na próxima sexta-feira deva ser determinante para essa decisão. Os números permanecem consistentes com nossa expectativa de duas altas até o fim deste ano e outras duas ao longo do primeiro semestre de 2027.


