Quando Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, houve uma reação muito positiva em vários ativos do mercado, com a valorização do real em cerca de 4% frente ao dólar, cuja cotação passou da faixa de R$ 5,20 para R$ 5,00, a valorização de 7,7% do Ibovespa, ultrapassando os 200 mil pontos, e a queda dos juros de longo prazo, refletindo uma percepção de risco menor sobre os ativos brasileiros.
Toda essa reação está atrelada à expectativa de um ajuste fiscal com a possibilidade de alternância de poder, reforçada pelo resultado do primeiro turno. Flávio Bolsonaro, candidato do PL, ficou à frente de Lula por 1,87 ponto percentual, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16%. A reação foi positiva, refletindo a surpresa não somente da vantagem no primeiro turno, mas também da nova composição do Senado e da Câmara.
No Senado, 54 senadores foram eleitos e outros 27 permanecem no exercício de seus mandatos. As implicações dessa composição dizem bastante sobre a surpresa do mercado. Isso porque o PL terá 28 cadeiras, 19 delas conquistadas nesta eleição, tornando-se a maior bancada individual, seguido do PT, com nove cadeiras, e do MDB, com oito. A composição é relevante, pois favorece a governabilidade de Flávio, caso seja eleito. Além dos impactos econômicos, a nova composição aumenta a pressão por possíveis processos de impeachment de ministros do STF, em especial Alexandre de Moraes e Flávio Dino, alvos de críticas do candidato durante a campanha.
Agora, é relevante ressaltar que o bom comportamento da bolsa não é algo novo no Brasil. Em 2014, 2018, 2022 e agora em 2026, o pregão após o primeiro turno registrou uma valorização na bolsa. Nos três pleitos anteriores, as altas foram de 4,72%, 4,57% e 5,54%, respectivamente. Mas é inegável que a alta deste ano foi a maior entre esses pleitos.
Ainda não foi anunciado quem comandaria a equipe econômica de Flávio, enquanto Lula, na busca de angariar votos de terceira via e sinalizar maior responsabilidade fiscal, avalia indicar o seu vice-presidente Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda caso seja reeleito.
Além dos impactos esperados para 2027, avaliamos que o resultado eleitoral pode aumentar, ainda neste ano, a dificuldade para as votações da PEC do fim da escala 6x1 e da MP das bets, uma vez que Alcolumbre e Hugo Motta podem enfrentar maiores dificuldades para se reeleger ao comando das duas Casas, em especial o presidente do Senado, que poderá disputar contra Rogério Marinho, do PL.
Por fim, a reação do mercado e dos investidores já era esperada como positiva. A surpresa esteve na intensidade, refletindo também a forma como a população se posicionou entre dois projetos políticos bastante distintos, de um lado, uma candidatura associada ao campo bolsonarista e aos desdobramentos da tentativa de ruptura institucional, e, de outro, um partido que representa de forma mais ampla a esquerda e que mostrou dificuldade em eleger candidatos de sua base em diversas regiões do país. Entre os 20 governadores eleitos no primeiro turno, por exemplo, apenas cinco apoiaram Lula, todos eles no Nordeste, enquanto dez apoiaram Flávio. A força eleitoral do campo lulista ficou, portanto, muito mais concentrada no Nordeste.
A eleição mostrou uma quantidade relevante de eleitores que podem ter se comportado como shy voters, ou seja, que não declaravam nas pesquisas a intenção de votar em Flávio, mas acabaram optando por ele nas urnas. Não é possível afirmar que esse comportamento explica integralmente a diferença entre as pesquisas e o resultado, mas o desempenho de Flávio acima do indicado por parte dos levantamentos sugere que esse fenômeno pode ter ocorrido.
Nunca houve, até aqui, um segundo turno presidencial no Brasil em que o candidato que terminou o primeiro turno na frente não tenha vencido a eleição. Esse histórico constitui um precedente favorável a Flávio, embora não determine o resultado do segundo turno. Há quem diga que “na Austrália já é Flávio” e, apesar do tom anedótico da frase, ela traduz a percepção de que o resultado do primeiro turno alterou de forma relevante as expectativas em torno da disputa.