A ata da reunião de setembro do FOMC reforçou nossa leitura de um Fed mais determinado a combater a persistência inflacionária. A alta unânime de 25 pontos-base, para o intervalo entre 3,75% e 4,00% a.a., refletiu a combinação entre atividade resiliente, menores riscos ao emprego e inflação ainda distante da meta. A maioria dos participantes considerava provável outra elevação até o fim do ano, enquanto vários avaliavam que a política monetária permanecia pouco ou nada restritiva. O documento, portanto, preserva um viés hawkish, mas não estabelece compromisso com uma alta já em outubro.
Um ponto importante para interpretar essa sinalização é que a inflação divulgada posteriormente ficou abaixo inclusive das estimativas da equipe técnica do Fed. A ata revela que, já considerando as mudanças metodológicas anunciadas pelo BEA, o staff estimava um PCE cheio de 3,6% a/a e um núcleo de 3,2% a/a em agosto. A divulgação de 30 de setembro, contudo, trouxe taxas de 3,4% e 3,0%, respectivamente, ficando 0,2 p.p. abaixo dessas estimativas em ambas as medidas. Assim, embora o Fed já antecipasse algum alívio com a revisão, os números efetivamente divulgados apresentaram um quadro mais benigno do que o incorporado à decisão de setembro.
Essa surpresa se soma ao enfraquecimento observado no relatório de emprego de setembro, que registrou criação de apenas 29 mil vagas, acompanhado de revisões que retiraram 60 mil postos dos dois meses anteriores. Em nossa avaliação, a combinação entre inflação mais baixa do que o antecipado e menor ritmo de contratações reduz a urgência de uma nova alta na próxima reunião. O conjunto favorece uma pausa em outubro, permitindo ao Comitê avaliar se os dados recentes representam uma melhora sustentada do balanço de riscos ou apenas oscilações pontuais.
Ainda assim, o alívio não deve ser confundido com uma retomada inequívoca da convergência à meta. O núcleo do PCE permaneceu em 3,0% a/a, estável em relação à leitura revisada de julho, indicando que parte da surpresa decorreu de mudanças na trajetória passada dos preços. Ao mesmo tempo, agosto apresentou retomada das pressões mensais em energia e serviços, enquanto o consumo real avançou 0,6% no mês. Em nossa avaliação, essa composição recomenda cautela: a revisão melhora o diagnóstico inflacionário, mas a resiliência da demanda e a persistência de pressões de custos ainda dificultam uma desinflação sustentada.
Nesse contexto, mantemos nossa expectativa de uma alta adicional de 25 pontos-base em dezembro. Sob nossa premissa de prolongamento do conflito no Oriente Médio, as pressões sobre combustíveis e os custos associados às restrições de oferta devem continuar impondo riscos à inflação, inclusive pela possibilidade de repasses para outros bens e serviços. Os dados recentes alteram, portanto, principalmente a avaliação sobre o momento do próximo ajuste, mas ainda não afastam a necessidade de aperto adicional em nosso cenário-base. Uma pausa em outubro seria compatível com um Fed que preserva o viés de alta enquanto aguarda evidências mais consistentes de convergência à meta.