Na quarta-feira (16/09), tivemos mais um dia de decisão de juros no Brasil e nos Estados Unidos, mas, dessa vez, os comportamentos divergiram. Fed e Copom concordaram em discordar, tanto na direção dos juros quanto na postura da comunicação.
Nos Estados Unidos, o Fed decidiu por unanimidade aumentar a Fed Funds Rate em 0,25 p.p., para o intervalo entre 3,75% e 4,00% a.a., em linha com o esperado por nós e pelo mercado. Como já antecipado pelo novo presidente do Fed, o comunicado foi enxuto, destacando a resiliência da atividade e do mercado de trabalho e uma inflação mais persistente do que o previsto. Em nossa avaliação, a postura foi dura, especialmente na coletiva de imprensa, sustentada pela ausência de uma melhora convincente da inflação subjacente, pelo fortalecimento da economia e pela avaliação de que as condições financeiras não estão restritivas. Outro ponto que vale comentar foi a resposta de Warsh em relação aos choques de oferta. O presidente reconheceu que o Fed não consegue determinar preços específicos, como petróleo e alimentos, mas destacou sua responsabilidade de impedir que seus efeitos iniciais se disseminem pelo restante da economia. A distinção reforça a preocupação com efeitos secundários sobre os preços, sem sugerir que o Fed pretenda compensar mecanicamente cada oscilação das commodities.
De forma quase dicotômica, no Brasil, o Copom decidiu cortar a Selic em 0,25 p.p., para 13,75% a.a., também em linha com nossa expectativa e a do mercado. Se a decisão em si não trouxe surpresa, a comunicação apresentou um viés ligeiramente dovish. O corte dá continuidade ao ciclo de calibração iniciado em março, amparado por uma dinâmica inflacionária corrente ainda benigna e por sinais de moderação da atividade. O principal destaque ficou nas projeções: o BC revisou para baixo a estimativa para a inflação de preços administrados, apesar da elevação da curva futura do petróleo, enquanto a projeção de inflação no horizonte relevante ficou 0,1 p.p. acima da nossa estimativa. Ainda assim, em nossa avaliação, o comunicado atribuiu maior ênfase aos sinais favoráveis à convergência da inflação, reforçando uma leitura ligeiramente dovish.
Assim, a Super Quarta terminou com dois bancos centrais em direções bastante diferentes, mas sem grandes desvios em relação ao que já estava no nosso radar. Enquanto o Fed voltou a apertar as condições monetárias diante de uma economia resiliente e de uma inflação que ainda incomoda, o Copom encontrou espaço para dar continuidade ao processo de flexibilização, apoiado pela melhora corrente da inflação e pelos sinais de arrefecimento da atividade brasileira.