A semana inverteu o roteiro das anteriores. O Brasil subiu enquanto Wall Street recuou, num movimento que poucos esperavam depois de onze pregões seguidos de queda. O Ibovespa interrompeu a pior sequência do ano e fechou a semana em alta firme. O dólar voltou para perto de R$ 5,14 e os juros longos cederam na contramão do mundo. Lá fora, o quadro foi outro: o S&P 500 e a Nasdaq terminaram no vermelho, porque o prêmio de prazo americano voltou a subir depois de um alívio curto.
O gatilho veio em duas ondas. Primeiro, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a ampliação das recompras de títulos longos, o que destravou o apetite por risco global e trouxe fluxo para emergentes. Depois, na sexta, a expectativa de que novas pesquisas mostrassem a disputa eleitoral mais apertada aliviou o prêmio doméstico. Junto disso, o petróleo com prêmio geopolítico sustentou as exportadoras: o Brent operou acima de US$ 93 depois que Washington anunciou uma ofensiva econômica contra Teerã. O resultado foi uma rotação clara para ativos reais, com commodities, ouro e bitcoin liderando o desempenho global.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
O agro e as proteínas dominaram a ponta positiva. A Minerva liderou os ganhos, impulsionada por um relatório favorável ao ciclo pecuário e por um provável short squeeze, movimento reforçado quando Washington reduziu a tarifa sobre a carne moída. Pelo mesmo motivo subiram a MBRF e a SLC Agrícola. A Cosan avançou com o anúncio de saída da listagem em Nova York, lido como mais um passo na simplificação da holding. Já a Marcopolo reagiu ao anúncio de dividendos e recompra de ações, sinal de que a companhia enxerga o papel abaixo do valor justo. Petrobras, PRIO e Vale completaram o time. As duas primeiras subiram no embalo do petróleo. Já a Vale reagiu ao avanço do acordo de reparação de Mariana, que ganhou a adesão de novos municípios.
Do lado negativo, o castigo teve endereço certo. A Gerdau e a Metalúrgica Gerdau despencaram porque os Estados Unidos devem cortar pela metade a tarifa sobre o aço canadense. A medida ameaça exatamente a margem protegida da operação americana, hoje a maior parte da companhia. O papel ainda operou sem direito a dividendo e sofreu um rebaixamento do recibo negociado no exterior. A Hapvida renovou mínima histórica, pois a agência reguladora barrou o plano de revisar contratos de quase um milhão de beneficiários. C&A, Cury e Vamos caíram no mesmo compasso do consumo pressionado pelo endividamento das famílias.
Macro & Política
No exterior, o tema foi a credibilidade fiscal americana. A dívida total dos Estados Unidos ultrapassou a marca de quarenta trilhões de dólares pela primeira vez, e o rendimento do título de trinta anos bateu o maior nível desde 2007. O Tesouro respondeu ampliando a recompra de papéis longos, mas o efeito durou pouco. Ou seja, a intervenção reduziu a velocidade do movimento sem mudar a direção, e os juros longos voltaram a subir já no dia seguinte.
A ata do banco central americano reforçou a cautela. Vários dirigentes defenderam alta de juros na reunião anterior, e muitos indicaram novo aperto caso a inflação não ceda. Nesse contexto, o petróleo pesa duplamente. O Brent acima de US$ 93 foi puxado pela escalada com o Irã e por embarcações desviadas de rota. Isso reacende a inflação global de energia e reduz o espaço do Fed, justamente quando o mercado pedia alívio. Enquanto isso, a China decepcionou de novo, com crédito em contração e atividade abaixo do consenso, o que pressionou os metais industriais.
No Brasil, o fiscal continua sob lupa eleitoral. A instituição que fiscaliza as contas públicas alertou que o governo deve cumprir a meta apenas formalmente. O resultado depende de exceções autorizadas por lei, e o déficit primário real permanece. Os gastos obrigatórios com Previdência devem crescer com força em 2027. O número constará do Orçamento a ser enviado ao Congresso. Mesmo assim, a leitura política melhorou na margem, porque as pesquisas passaram a indicar uma disputa mais equilibrada no segundo turno. A atividade doméstica, contudo, segue perdendo tração, e o indicador mensal do banco central veio abaixo do esperado, o que mantém viva a aposta de novo corte de juros em setembro.
Desempenho do Real (BRL)
O real teve a melhor semana em muito tempo. O dólar começou perto de R$ 5,22 e terminou ao redor de R$ 5,14, com a moeda brasileira entre as melhores do bloco emergente na sexta-feira. Parte do movimento veio de fora, uma vez que o dólar global perdeu força com a intervenção do Tesouro americano.
A parte doméstica também contribuiu. O alívio na leitura eleitoral reduziu o prêmio embutido no câmbio, e os exportadores aproveitaram os níveis mais altos da semana anterior para internalizar recursos. Ainda assim, o quadro técnico pede cautela. O posicionamento comprado em real continua carregado e o prêmio de risco segue baixo para uma eleição a poucas semanas, combinação que deixa a moeda vulnerável a qualquer reviravolta nas pesquisas.
Curva de Juros
A curva local fechou com força, sobretudo na ponta longa. Os vértices curtos praticamente não se moveram, pois o corte da Selic em setembro já está no preço. O miolo e o trecho longo, por sua vez, cederam de forma expressiva na sexta, quando o alívio eleitoral se somou ao ambiente externo mais calmo.
O contraste entre os juros longos daqui e os de fora é o dado relevante da semana. Enquanto os juros longos americanos subiam, o brasileiro caía, exatamente o inverso do que se viu nas semanas de estresse eleitoral. Isso mostra que o preço aqui é doméstico, não importado. Contudo, a queda ainda não desfaz o prêmio acumulado: o vértice mais longo segue bem acima do curto, e a inclinação continua elevada enquanto não houver âncora fiscal crível.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O fluxo ainda não acompanhou os preços. A saída de capital externo da bolsa seguiu firme e o acumulado do mês chegou perto de vinte e dois bilhões de reais, o maior nível em seis anos. Ou seja, a alta da semana aconteceu com o estrangeiro vendendo, sustentada por investidor local e por rotação global para mercados emergentes e ativos cíclicos. Uma virada consistente do fluxo, portanto, ainda é o que falta para confirmar o movimento.
Narrativas & Cenários
A tensão da próxima semana é saber se a melhora foi reversão à média ou início de virada. O argumento a favor é técnico, porque o índice vinha de uma sequência de quedas rara e reagiu com o maior volume da semana. O argumento contrário é o fluxo, já que o estrangeiro seguiu vendendo mesmo na alta.
No médio prazo, a leitura da casa segue defensiva e paciente. Ela privilegia caixa remunerado e proteção cambial, em linha com o posicionamento vigente da carteira recomendada. O motivo é simples: o petróleo elevado e os juros longos americanos mantêm o custo de capital global alto. O petróleo, aliás, é a interação central do momento: ele sustenta as exportadoras que puxaram o Ibovespa e, ao mesmo tempo, impede o Fed de aliviar.
O calendário concentra as respostas. Primeiro, as novas pesquisas eleitorais que saem no início da semana. Depois, o simpósio de política monetária nos Estados Unidos, no fim do mês. Em seguida, o envio do Orçamento de 2027 ao Congresso no dia 31. O mecanismo de contenção de despesas será o teste real da âncora fiscal. Some-se a isso o prazo da Braskem para evitar a recuperação judicial. São esses eventos, e não o alívio técnico, que devem determinar o humor com o Brasil nas próximas semanas.