A semana consolidou a virada iniciada na anterior. O Ibovespa emendou a sétima alta consecutiva, rompeu os 175 mil pontos e liderou o desempenho global do período, à frente das bolsas americanas e dos emergentes. O motor foi doméstico: um rali eleitoral tático, alimentado por pesquisas que mostram a disputa presidencial mais aberta. Pela primeira vez desde março, a rejeição do atual presidente superou a do adversário. Como consequência, a demanda por opções de compra do índice explodiu, com apostas em patamares bem acima do preço atual. Ou seja, o mercado passou a precificar a possibilidade de alternância, e quem estava fora correu para dentro.
O segundo vetor foi a inflação. O IPCA-15 de agosto veio em deflação, a maior queda para o indicador em quatro anos, ajudado pelo bônus de Itaipu na conta de luz. Com isso, a curva passou a precificar um corte da Selic já em setembro, e casas de análise reduziram a projeção da taxa para o fim do ano. O alívio, porém, tem asteriscos: a inflação de serviços segue rodando bem acima da meta, e é aí que mora a tensão da semana. Enquanto os vértices curtos fecharam com a desinflação, a ponta longa subiu na direção oposta, cobrando prêmio pela deterioração fiscal. O rali de preços convive com fundamentos que não melhoraram.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
A ponta positiva foi dominada pelas domésticas sensíveis a juros. A Yduqs liderou os ganhos, seguida de perto pela Magazine Luiza, que chegou a subir forte num único pregão quando a curva afrouxou. Cury e C&A vieram no mesmo embalo, porque o consumo foi reprecificado pela perspectiva de juros menores. O Banco do Brasil foi o destaque entre os bancos, em recuperação depois de semanas pressionado pela inadimplência do agro, com Bradesco e BB Seguridade também fortes. A siderurgia completou o time. A Usiminas subiu com a especulação sobre um fechamento de capital pela controladora, que mesmo negada reprecificou o papel. Enquanto isso, CSN e Gerdau recuperaram parte das perdas recentes.
Do lado negativo, o castigo veio do petróleo e das devoluções. A Brava Energia liderou as quedas após ser rebaixada para venda por uma casa de análise, e a Vibra recuou com um corte de recomendação da mesma origem. A PRIO cedeu com a queda do barril, já que a distensão entre Washington e Teerã tirou prêmio geopolítico do Brent. A MBRF e a Minerva devolveram parte do rali das proteínas da semana anterior. Já o Assaí caiu em meio ao debate sobre o fim da taxa das blusinhas, que ameaça acirrar a competição no varejo. Fora do ranking, a Braskem viveu a pior semana da sua crise: converteu a proteção judicial em recuperação extrajudicial, despencou em dois pregões seguidos e saiu da carteira do Ibovespa.
Macro & Política
Lá fora, a sustentação veio de uma empresa só. A Nvidia entregou receita bem acima do consenso, com o negócio de data centers ainda acelerando, e segurou o apetite global por tecnologia. O detalhe é a amplitude: na sessão do resultado, só uma fração pequena do S&P 500 fechou em alta. O risk-on é real, contudo concentrado em inteligência artificial, o que reduz a qualidade do movimento.
O quadro de juros americano continua desconfortável. O núcleo do PCE segue rodando acima do que o Fed gostaria, e a segunda leitura do PIB mostrou consumo mais forte. Por isso, parte dos dirigentes volta a discutir alta de juros. Nesse ambiente, o primeiro discurso do novo presidente do Fed em Jackson Hole, nesta sexta, virou o teste da semana. Um tom mais duro pode reabrir a pressão sobre os juros longos americanos, que seguem perto das máximas em décadas.
No Brasil, a política dominou. As pesquisas apertaram e o horário eleitoral começou, colocando a disputa no centro da precificação. No fiscal, o Orçamento de 2027 chegou com promessa de superávit primário e gatilhos de contenção. Mesmo assim, o Tribunal de Contas alertou para o risco de frustração de arrecadação e a dívida federal renovou recorde. A parcela de títulos atrelados à Selic atingiu o maior nível em mais de vinte anos, sinal de que o mercado cobra caro para financiar prazos longos. O emprego, na contramão, segue firme: o desemprego caiu ao menor nível para o mês desde o início da série.
Desempenho do Real (BRL)
O real teve uma semana de estabilidade, com o dólar oscilando pouco ao redor de R$ 5,15. A calmaria, entretanto, foi administrada. O Banco Central atuou forte no câmbio, pois vendeu dólares à vista com swaps reversos na operação casada ligada à recompra de títulos da Petrobras no exterior.
Por baixo da superfície, os vetores se equilibraram. A favor do real jogaram o alívio eleitoral e o diferencial de juros, que voltou a atrair estrangeiro para a bolsa. Contra, o fluxo cambial ficou negativo no mês e o dólar global se firmou com os dados americanos mais fortes. O resultado foi um câmbio de lado, à espera de Jackson Hole e das próximas pesquisas.
Curva de Juros
A curva contou a história mais honesta da semana, porque abriu em duas direções. Na ponta curta, a deflação do IPCA-15 consolidou a aposta de corte da Selic em setembro, e o vértice mais próximo fechou. No miolo e na ponta longa, o movimento foi o inverso: as taxas subiram, acompanhando os juros americanos e o prêmio fiscal doméstico.
Essa divergência é o resumo do momento. O mercado acredita na desinflação corrente, mas não compra a trajetória fiscal. O Tesouro concentrou as emissões em títulos pós-fixados, e a proporção de papéis atrelados à Selic na dívida é a maior desde 2003. Enquanto isso, a inflação de serviços resiste. Enquanto isso não se resolve, o corte de curto prazo convive com uma ponta longa cara.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O fluxo deu o primeiro sinal de virada, ainda tímido. Depois de treze sessões seguidas de saída, a bolsa registrou a primeira entrada líquida de capital externo. Assim, o rali das últimas semanas passou a contar com alguma participação do estrangeiro. O acumulado do mês, contudo, segue fortemente negativo, na casa das dezenas de bilhões de reais. Em resumo: o vendedor parou de vender, mas o comprador ainda não chegou com convicção, e é essa confirmação que o mercado espera para validar o movimento.
Narrativas & Cenários
A tensão binária da próxima semana é clara. De um lado, o rali eleitoral com a curva precificando corte; de outro, fundamentos fiscais que não acompanharam a melhora dos preços. O rali eleitoral, afinal, é feito de expectativa, e expectativa muda com uma pesquisa. A leitura da casa é que o rali eleitoral atual é um trade tático, e não uma mudança estrutural de regime. Ele fica vulnerável a uma surpresa dura em Jackson Hole ou a uma reversão nas pesquisas.
Por isso, o posicionamento de médio prazo segue defensivo e paciente, privilegiando caixa remunerado e proteção cambial, em linha com o posicionamento vigente da carteira recomendada. A interação central segue a mesma: o custo de capital global alto limita o quanto o alívio doméstico pode andar sozinho, e a ponta longa da curva é o termômetro dessa restrição.
O calendário concentra as respostas. Primeiro, a reação ao discurso de Jackson Hole. Depois, a semana de esforço concentrado do Congresso, com a taxa das blusinhas, a PEC da escala 6x1 e a PEC da Segurança em pauta até o início de setembro. Soma-se a reunião entre Brasil e Estados Unidos sobre tarifas. Em seguida, a decisão do Copom em setembro, com o corte já no preço. Por fim, novas rodadas de pesquisa, com o Banco do Brasil e as demais domésticas como termômetro do rali eleitoral. São esses eventos que dirão se o rali vira tendência ou devolução.