O mês de março redefiniu o regime de mercado. O conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã converteu um choque geopolítico localizado em evento de reprecificação global, arrastando curvas de juros, câmbio e prêmios de risco ao redor do mundo. No meio desse estresse, o Brasil revelou uma resiliência paradoxal, sustentada por sua condição de exportador de commodities e pelo diferencial de juro real mais elevado da região. Ao mesmo tempo, o Copom deu o primeiro passo de um novo ciclo com o início dos cortes na Selic, decisão que marca um ponto de inflexão na condução da política monetária. Este documento organiza o que aconteceu, o que mudou e, sobretudo, o que propomos para as próximas semanas.
O que março revelou
O mês entrou sob o signo da escalada militar. Os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã incluíram a destruição de infraestrutura estratégica ligada ao programa nuclear iraniano, enquanto o Irã respondeu com ofensivas a alvos sensíveis e manteve as restrições ao Estreito de Ormuz, por onde transita parcela substancial do petróleo mundial. A entrada dos Houthis no conflito, com ataques no Mar Vermelho, criou um segundo corredor de risco logístico para o transporte de energia. As sinalizações oscilantes de Trump, alternando entre ultimatos militares e disposição para encerrar o conflito, intensificaram os movimentos intradiários e evidenciaram que o mercado passou a operar precificando probabilidades, não fatos.
A consequência direta foi um ambiente em que a volatilidade deixou de ser ruído e passou a carregar informação. Movimentos antes considerados marginais passaram a deslocar mercados com velocidade relevante, expondo posicionamentos que estavam excessivamente ancorados em cenários lineares. O Ibovespa encerrou março com recuo moderado, porém significativamente inferior às perdas observadas em Wall Street e nas bolsas europeias, consolidando o Brasil como destino preferencial dentro do universo emergente.
Essa resiliência tem fundamento. A combinação de país exportador líquido de commodities, produtor relevante de petróleo e beneficiário do diferencial de juro real atraiu fluxo estrangeiro expressivo, configurando um dos melhores meses de entrada de capital da história da B3, dado particularmente significativo por ocorrer em contexto de saídas relevantes de mercados emergentes no agregado. Investidores institucionais seguiram na ponta vendedora, enquanto a pessoa física apresentou entrada apenas modesta, o que sugere que a sustentação do mercado continua concentrada no capital externo.
No campo da política monetária, o Copom reduziu a Selic em vinte e cinco pontos-base, levando a taxa a 14,75% na primeira decisão de afrouxamento sob a gestão de Gabriel Galípolo. Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos, avaliou a decisão como correta, destacando que o juro real no Brasil permanece no nível mais restritivo da última década e que há margem para ajustes adicionais, ainda que o choque energético imponha cautela. O comunicado do Banco Central trouxe mudança relevante de linguagem, removendo o forward guidance e adotando postura de dependência de dados, o que condiciona a continuidade dos cortes à evolução do cenário externo, em particular ao preço do petróleo e seus efeitos sobre a inflação.
Os dados de atividade confirmaram os primeiros sinais consistentes de desaceleração: leve deterioração no mercado de trabalho, moderação salarial, perda de tração nas concessões de crédito e endividamento das famílias em patamar recorde. O IPCA-15 surpreendeu para cima, pressionado por alimentos e despesas pessoais, embora os núcleos de serviços tenham mostrado desaceleração. A leitura predominante é de que a piora inflacionária se concentra em janelas curtas impulsionadas pelo repasse do petróleo, e não por um processo generalizado de desancoragem.
Nos Estados Unidos, o Fed manteve os juros inalterados em meio a uma dispersão inédita de opiniões entre seus membros. Jerome Powell reconheceu que a inflação permanece acima da meta há cinco anos e sinalizou que o banco central não combateria um choque de oferta com aperto monetário adicional. O mercado interpretou essa postura como espaço para eventual afrouxamento caso o crescimento se deteriore de forma mais acentuada. Os PMIs de março confirmaram perda de dinamismo no setor de serviços, enquanto analistas de mercado revisaram as projeções de crescimento americano para abaixo do potencial. Na China, os PMIs oficiais mostraram recuperação marginal, sugerindo retomada modesta da atividade.
Estratégia para abril
Diante desse contexto, mantemos uma postura construtiva, porém disciplinada. A combinação de valuations comprimidos, fluxo estrangeiro robusto e início do ciclo de cortes cria um cenário de assimetria favorável para o Brasil, mas a persistência do choque energético e a dependência do cenário externo exigem prudência no tamanho das posições.
Na renda variável local, o Ibovespa passou a ser negociado substancialmente abaixo da sua média histórica de múltiplo projetado, e as small caps apresentam o maior desconto da bolsa, em níveis não vistos desde o período mais agudo da pandemia. Setores como elétrico e saneamento se destacam pelo melhor desempenho relativo em 2026, beneficiados pela busca por previsibilidade de resultados em ambiente de volatilidade elevada. A principal oportunidade de assimetria, contudo, reside nas small caps e exportadoras, cujos múltiplos descontados oferecem um perfil de risco-retorno atrativo. Na exposição a commodities, a tese de Petrobras como melhor combinação de retorno ao acionista e disciplina de capital entre as empresas de exploração e produção da América Latina segue com saúde elevada, fortalecida pelo pilar de petróleo acima dos patamares de referência. Para detalhes sobre ativos específicos, remetemos às nossas carteiras recomendadas.
Na renda fixa, a estratégia mantém maior peso em títulos pós-fixados, que seguem se beneficiando do patamar ainda elevado da Selic. Títulos prefixados de prazo curto oferecem assimetria interessante para quem acredita que o Banco Central terá espaço para continuar reduzindo juros. Os títulos indexados à inflação de prazo mais longo mantêm os juros reais em patamar historicamente elevado, representando oportunidade de alocação gradual caso o cenário de convergência inflacionária se confirme ao longo do semestre.
No posicionamento internacional via BDRs, março intensificou a dinâmica de rotação global que favorece empresas intensivas em capital e com barreiras reais de entrada. A exposição a tecnologia pura foi reduzida em favor de infraestrutura de data centers e semicondutores estratégicos, além de mineradoras de ouro e prata como posição de proteção.
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O que monitorar
Abril entra com dois vetores de atenção dominantes. O primeiro é a evolução do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o preço do petróleo: enquanto o Brent se mantiver em patamares elevados, o espaço para cortes de juros será limitado e a trajetória de afrouxamento pode ser revisada. O segundo é o cenário eleitoral doméstico, que ganhou protagonismo com pesquisas indicando movimentação relevante nas intenções de voto e deterioração contínua da aprovação do governo. O mercado ainda precifica pouco o risco eleitoral, configurando uma opcionalidade que pode se materializar como catalisador, positivo ou negativo, para os ativos locais nos próximos meses. O momento exige menos previsão e mais processo, com disciplina, gestão de risco e foco em consistência.

