O Ibovespa encerrou novembro acima dos 150 mil pontos pela primeira vez na história; completando sequência de 15 ganhos consecutivos. Índice atingiu máximas históricas sustentado por fluxo robusto de capital estrangeiro que acumulou cerca de R$ 30 bilhões no ano; superando expectativas iniciais de R$ 28 bilhões.
Alocação estrangeira na bolsa brasileira alcançou 58%; nível máximo em muito tempo. Nas últimas semanas de novembro; entraram US$ 4,2 bilhões em fundos de mercados emergentes. Bolsa brasileira subiu 50% em dólar no ano; enquanto Coreia do Sul avançou 70%. Mercado trabalha com cenário de corte de juros pelo Federal Reserve já em dezembro e possível entrada do Banco Central brasileiro em ciclo de cortes em janeiro.
Inflação projetada para 2025 caiu para 4,46%; primeira vez em muito tempo dentro da meta. Discussão sobre alternância de poder amplifica assimetria política; com possível reprecificação profunda dos ativos brasileiros. Ibovespa poderia caminhar para níveis próximos de 200 mil pontos em novo regime. Brasil favorecido por IPCA longos e rotação para ações de beta elevado.
IBOVESPA: a máxima de ontem é a mínima de amanhã?
Essa pergunta sintetiza bem o momento atual dos mercados e, em especial, dos ativos brasileiros. O Ibovespa encerrou novembro acima dos 150 mil pontos pela primeira vez na história, completando uma sequência de ganhos que chegou a 15 sessões consecutivas, a maior desde julho de 2024.
O índice atingiu máximas históricas em múltiplas ocasiões, sustentado por um fluxo robusto de capital estrangeiro que acumulou cerca de 30 bilhões de reais no ano, já superando as expectativas iniciais de 28 bilhões e caminhando para potenciais 40 bilhões até dezembro, o que representaria um recorde histórico. A alocação estrangeira na bolsa brasileira alcançou 58%, o maior nível em muito tempo. as últimas semanas de novembro, entraram 4,2 bilhões de dólares em fundos de mercados emergentes, acumulando mais de 6 bilhões em quatro semanas consecutivas. A bolsa brasileira subiu 50% em dólar no ano, enquanto a Coreia do Sul avançou 70%, tornando a classe de mercados emergentes uma das que mais brilhou no ano. Há potencial enorme de alocação para ações da região após anos de fluxo negativo e performance relativa pior, movimentos que costumam ser cíclicos e reverterem à média no longo prazo.
Após o corte de juros realizado pelo Federal Reserve em outubro, o mercado global passou a trabalhar com o cenário de que o Fed dará continuidade ao ciclo de afrouxamento monetário, possivelmente com um novo corte já em dezembro. A probabilidade de corte na reunião de dezembro chegou a atingir 65% em determinado momento do mês. Mais importante do que o próprio Fed é o pano de fundo em que esse movimento ocorre: o mundo vive hoje um dos maiores ciclos de cortes de juros sincronizados das últimas décadas. O aspecto verdadeiramente raro desse momento macroeconômico é que os Bancos Centrais estão cortando juros com as economias ainda crescendo, algo entre 2% e 3% ao ano, e, principalmente, com os lucros das empresas ainda em trajetória de alta.
Historicamente, ciclos de cortes de juros costumam acontecer em ambientes de desaceleração econômica ou recessão. Cortar juros com crescimento econômico e lucros subindo é a exceção, não a regra. Essa combinação cria um ambiente extremamente favorável para os ativos de risco ao redor do mundo. O custo de capital cai, os múltiplos se expandem e o apetite por risco aumenta.
E o Brasil nessa história?
O Brasil entra nesse cenário global com uma dupla vantagem. Além do vento externo favorável, o mercado começa a incorporar com mais convicção a tese de que o Banco Central brasileiro deverá se juntar ao movimento global de cortes de juros, possivelmente iniciando esse ciclo em janeiro ou março.
A discussão sobre corte de juros doméstico amadureceu consideravelmente ao longo do mês, com a inflação recuando e o mercado de trabalho apresentando sinais de enfraquecimento. O relatório Focus trouxe revisão significativa nas projeções de inflação, com o IPCA de 2025 caindo de 5,51% no início do ano para 4,46%, marcando a primeira vez em muito tempo que a inflação ficou dentro da meta. Caso esse cenário se confirme, o mercado passa a trabalhar com a possibilidade de que a taxa Selic termine o próximo ano abaixo de 12%, o que teria impacto direto sobre o preço dos ativos domésticos, especialmente ações mais sensíveis ao ciclo econômico e títulos indexados ao IPCA de prazos longos.
Os dados de atividade econômica corroboram essa narrativa. O setor de serviços cresceu 0,6% em setembro na comparação mensal, oitavo mês consecutivo de alta, alcançando recorde histórico 19,5% acima dos níveis pré-pandemia e 4,8% acima de setembro de 2024. No entanto, o IBC-Br apresentou queda de 0,24% contra expectativa de 0,20%, sinalizando desaceleração da atividade no terceiro trimestre, exatamente o que se espera com juro real de 10%, uma taxa que precisa machucar para conter pressões inflacionárias.
As vendas no varejo de setembro mostraram desaceleração relevante do consumo, com alta modesta de 0,2% no índice amplo e queda de 0,3% nas vendas core, com composição fraca onde oito dos dez principais setores registraram queda, especialmente os sensíveis a crédito como automóveis, móveis e eletrodomésticos. Apesar de fatores de sustentação como transferências fiscais e aumento da renda real, o consumo tende a seguir contido pela política monetária ainda restritiva, endividamento elevado das famílias e baixa ociosidade da economia. O quadro reforça um viés desinflacionário marginal.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou durante o mês que a instituição é data-dependente e não pode argumentar contra dados econômicos. Com a economia quente acima do produto potencial, mercado de trabalho apertado e desemprego nas mínimas, a autoridade monetária manteve os juros em 15% na reunião de novembro, mas a comunicação deixou espaço para que o mercado precifique com 85% de probabilidade um corte em janeiro.
A assimetria política e a tese de alternância de poder
Além do cenário externo e do ciclo de juros doméstico, há um vetor adicional extremamente importante na formação dos preços dos ativos brasileiros: a assimetria política associada à tese de alternância de poder. Essa assimetria pode ser entendida pela esperança matemática do mercado ao comparar dois cenários bastante distintos.
Cenário de continuidade do governo Lula seria interpretado como mais do mesmo. Uma política fiscal expansionista manteria o Brasil preso a juros reais elevados, possivelmente entre 7% e 10% ao ano, por vários anos. Nesse cenário, o ajuste ocorreria de forma lenta, quase como uma morte lenta dos preços dos ativos. O Ibovespa poderia retornar para a faixa de 130 mil a 140 mil pontos, as taxas dos IPCA longos poderiam voltar para algo próximo de 7,40%, e o mercado passaria a limitar até onde o Banco Central conseguiria cortar juros.
Cenário de alternância de poder é onde está a verdadeira assimetria. Caso o mercado passe a precificar uma mudança de regime político com retomada da agenda de reformas, a reprecificação dos ativos brasileiros seria profunda. Nesse cenário, não seria exagero imaginar o Ibovespa caminhando para níveis próximos de 200 mil pontos, as taxas dos IPCA longos comprimindo para algo em torno de 5%, e a Selic convergindo para patamares de um dígito ao longo do tempo, um movimento de normalização muito semelhante ao observado no ciclo iniciado com a Ponte para o Futuro, no período Temer.
É nesse contexto que o mercado começa a se perguntar, com mais seriedade: a máxima de ontem do Ibovespa pode, de fato, se tornar a mínima de amanhã?
O dólar entra na equação: por que um DXY mais fraco muda tudo
Há ainda um vetor macro central que conecta o ciclo de juros global, o desempenho das commodities, os mercados emergentes e o Brasil: a trajetória do dólar global. A continuidade do ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos, por si só, já cria um ambiente favorável ao enfraquecimento do DXY, ao reduzir o diferencial de juros entre os EUA e o resto do mundo.
No entanto, dezembro pode trazer um evento-chave com grande potencial de impacto: a possível nomeação do próximo presidente do Federal Reserve. Segundo as principais casas de apostas, o nome hoje mais cotado é Kevin Hassett. Adicionalmente, Rafael Bostic do Fed Atlanta anunciou aposentadoria, abrindo cadeira para indicado de Trump, movimento interpretado pelo mercado como possível aliado dovish.
Caso essa indicação se confirme, o mercado tende a interpretar o movimento como claramente dovish. Hassett é visto como alguém próximo e leal a Donald Trump e defensor de quedas mais rápidas de juros, mesmo em um ambiente de inflação ainda relativamente elevada, entre 2,5% e 3%. Nesse cenário, não seria implausível vermos os juros americanos convergindo para algo entre 2,00% e 2,50% ao longo do tempo. O juro americano de 10 anos chegou a cair para 4,06-4,07% durante o mês, e o DXY chegou a recuar para 99,70 após notícias dovish.
O impacto do ciclo global de cortes nos ativos globais
O mundo entra em um novo regime financeiro. O ponto central desse momento não é apenas que os juros estão caindo, mas que o regime financeiro global está mudando. O mundo começa a sair de um ambiente de liquidez escassa e juros punitivos para um regime de liquidez menos restritiva, mesmo sem recessão global. Essa mudança reduz o stress financeiro, melhora o acesso a funding e cria um pano de fundo estruturalmente mais construtivo para os preços dos ativos.
Nesse ambiente, os principais beneficiados tendem a ser bolsas globais incluindo EUA, Europa e emergentes, small caps e mid caps mais sensíveis ao custo de capital, crédito corporativo beneficiado pela compressão de spreads, moedas de países com juros elevados via estratégias de carry, e commodities financeiras com destaque para o ouro.
No entanto, o ambiente internacional apresentou volatilidade significativa durante o mês. Houve forte aversão a risco na segunda metade de novembro, liderada por quedas expressivas nas ações de tecnologia dos Estados Unidos, movimento que contaminou criptoativos e outros ativos de risco. O gatilho veio da redução das apostas em corte de juros pelo Fed, sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho americano e crescentes dúvidas sobre o sustentável apetite de investimentos em capital das Big Techs.
O nervosismo se refletiu nos spreads de crédito de gigantes como Oracle, que dispararam diante do temor de deterioração nos balanços corporativos. O paradoxo é claro: as empresas que lideram a revolução da inteligência artificial são também as que mais se endividam para financiá-la. A IA já representa hoje uma fatia relevante da dívida Investment Grade americana.
Embora o ciclo de resultados corporativos continue sólido, com mais de 80% das empresas do S&P 500 superando expectativas, o mercado mudou de tom. O Nasdaq chegou a cair mais de 1,5% em algumas sessões, levando o S&P 500 à maior queda desde agosto.
Ouro: convicção estrutural, cautela tática
O cenário estrutural para o ouro segue intacto. Governos continuam extremamente perdulários do ponto de vista fiscal, o que reforça a perda gradual de valor das moedas fiduciárias e sustenta o ouro como reserva de valor de longo prazo. O Banco Central Brasileiro comprou ouro para as reservas durante o mês. O metal teve quarto e quinto dia consecutivo de alta, ganhando 1%, beneficiado por discussões de estímulos fiscais nos Estados Unidos e o aumento do consumo de eletricidade impulsionado pela corrida da IA e pelos data centers.
Ainda assim, é importante reconhecer que o ouro já acumulou uma alta próxima de 60% no ano. Um ponto de atenção crescente é a diferença entre o custo marginal de extração e o preço do ouro, hoje ao redor de US$ 4.200 por onça. Por isso, seguimos comprados em ouro, mas entendemos que novas alocações fazem mais sentido se acompanhadas de proteção, seja via produtos estruturados, seja via estratégias com capital garantido ou controle de drawdown.
Criptoativos: atenção redobrada após as correções
Outro mercado que merece atenção é o de criptoativos, especialmente após as correções recentes, descolado de teses de liquidez, ouro e reserva de valor em sequência desafiadora. Embora não os vejamos como substitutos do ouro, criptos tendem a performar melhor em ambientes de liquidez mais abundante, desde que acompanhados de rigorosa gestão de risco e tamanho de posição adequado. As criptomoedas caíram na frente de outros ativos, não conversando com ouro nem com Nasdaq alavancado, servindo como indicador antecedente.
Conclusão: construtivos, mas seletivos
De forma geral, estamos bastante construtivos com os ativos de risco. No entanto, acreditamos que o foco deve estar em onde e como assumir risco, e não simplesmente em estar exposto.
Brasil seguimos favorecendo os IPCA longos, mesmo após o rally, e a bolsa brasileira, com preferência por uma rotação para ações de beta mais elevado. O real a R$ 5,30 demonstra resiliência notável, e a visão institucional permanece positiva para a duration no curto e médio prazo, com fundamentos sólidos, juros reais elevados e valuations atrativos. Apesar do risco eleitoral em 2026 e de eventuais ruídos fiscais, o cenário macro é mais equilibrado que no ciclo anterior, com crescimento e inflação moderando.
Estados Unidos o cenário é mais desafiador. A discussão sobre a precificação das empresas ligadas à inteligência artificial nos leva a uma postura muito seletiva, evitando concentração excessiva e priorizando assimetrias específicas. O que está sendo questionado na bolsa americana é o que voou: IA. Tirando IA da bolsa americana, pegando 493 empresas, o mercado fica no zero a zero. Brasil e mercados emergentes não têm nada a ver com isso.
O pano de fundo global é construtivo. A diferença, daqui em diante, estará na qualidade da alocação, e não apenas na direção do mercado.

