O mês de janeiro foi marcado por um forte rali das bolsas emergentes, das commodities metálicas e por uma rotação dentro do mercado americano em direção às small caps. O mundo segue revisando o cenário de crescimento global para cima, o que sustenta, em linhas gerais, um ambiente construtivo para ativos de risco, configurando um clássico cenário de “Cachinhos Dourados”, caracterizado por crescimento robusto, inflação convergindo para metas e espaço para cortes de juros sincronizados globalmente. Os mercados emergentes apresentaram os melhores retornos, e de maneira até surpreendente, títulos soberanos de mercados emergentes em moeda local superaram as ações de grande capitalização dos Estados Unidos.
Fluxo vale mais que um bom valuation
Todo esse movimento teve como pano de fundo a principal tese em discussão: dólar estruturalmente mais fraco. Um dólar menos dominante tende a favorecer commodities, mercados emergentes e ativos reais. Os dados corroboram essa visão: o déficit fiscal americano permanece próximo de 6-7% do PIB, os Estados Unidos gastam 4,7% do PIB apenas com juros da dívida, e a BlackRock afirmou que a desvalorização cambial global deverá continuar em ritmo acelerado. A América Latina liderou o desempenho global no início do ano, com Chile, Colômbia, Argentina e Peru registrando fortes valorizações, beneficiados pela procura de commodities e por uma possível guinada da América Latina mais a direita.
No entanto, janeiro trouxe uma lição importante. As commodities metálicas apresentaram uma volatilidade sem precedentes recentes. A prata chegou a acumular alta próxima de 65% no ano, mas sofreu um flash crash com queda de aproximadamente 40% em um único dia. O ouro também exibiu movimentos extremos: chegou a subir mais de 25% no ano e, em determinado momento, registrou uma queda intradiária próxima de 8%. O cobre rompeu a barreira dos 13.000 dólares, atingindo nova máxima histórica. Essa volatilidade elevada em commodities metálicas atingiu patamares não vistos há muito tempo, apesar de a tese estrutural de longo prazo, baseada no endividamento global insustentável dos países do G7, permanecer intacta.
Mudança na diretoria do Federal Reserve
O principal gatilho para os movimentos extremos de janeiro foi a nomeação de Kevin Warsh como futuro presidente do Federal Reserve. A indicação reduziu a percepção de que o Fed poderia ficar excessivamente suscetível a pressões políticas, o que levou a uma interrupção da trajetória de enfraquecimento do dólar e a uma recuperação da moeda americana. Como a tese de dólar fraco e compra de commodities metálicas era uma das mais consensuais e crowded do mercado, essa mudança de percepção acabou gerando um rápido desmonte de posições especulativas, amplificando a volatilidade. O mercado precifica atualmente 47 pontos-base de cortes para dezembro de 2026, equivalente a aproximadamente dois cortes completos.
O cenário geopolítico também trouxe novidades relevantes. O ataque militar conduzido pelos Estados Unidos na Venezuela, acompanhado da prisão de Nicolás Maduro, representa um evento de elevada relevância geopolítica, mais um passo no processo de reconfiguração da chamada nova ordem mundial. Do ponto de vista econômico, o controle do setor de petróleo venezuelano pelos americanos tende a resultar em mais oferta estrutural ao mercado global, menor volatilidade de preços no médio prazo e maior previsibilidade do fornecimento. A produção venezuelana permanece em 600-700 mil barris diários contra 3 milhões históricos, com potencial para alcançar 1,3-1,4 milhões de barris em até dois anos. Simultaneamente, vastos protestos contra o regime iraniano podem indicar o início de uma revolução popular com potencial para alternância de poder naquele país.
Essa dinâmica deixa uma mensagem clara: vivemos um ambiente em que diversos ativos entram rapidamente em regimes de euforia, criando terreno fértil para movimentos extremos, tanto de alta quanto de queda. Volatilidade elevada passa a ser uma característica estrutural do ciclo. O S&P 500 voltou a flertar com máximas históricas, em um ambiente em que praticamente tudo sobe, apesar do discurso recorrente sobre valuations esticados. Atualmente, o índice negocia a um múltiplo de preço sobre lucro projetado próximo de 23 vezes, um patamar historicamente elevado que, segundo evidências compiladas pelo JPMorgan, tende a reduzir significativamente o potencial de retorno de longo prazo.
Posicionamento e Cenários
Apesar dos ajustes de curto prazo, mantém-se a visão de dólar estruturalmente mais fraco, o que sustenta otimismo com commodities metálicas, bolsas de mercados emergentes e, em especial, o Brasil. O fluxo de investidores estrangeiros para o Ibovespa segue muito forte, apenas em janeiro, a entrada de recursos já superou o volume observado em todo o ano de 2025, revertendo o saldo negativo de R$ 32,1 bilhões registrado em 2024. O índice caminhou rumo às máximas históricas, superando o patamar de 180 mil pontos.
Além disso, a bolsa brasileira tende a se beneficiar do ciclo de cortes de juros que o Banco Central sinalizou para começar em março. O IBC-Br de dezembro veio muito fraco, reforçando a expectativa de afrouxamento monetário. À luz dos dados atuais, projeta-se a Selic em torno de 12% ao final de 2026, criando um ambiente bastante construtivo para ativos domésticos. O IPCA fechado de 2025 confirmou a inflação dentro do intervalo da meta, embora serviços subjacentes sigam pressionados em 6%. Vale destacar que o Brasil opera com o maior juro real da história, próximo de 10% , reflexo da desarmonia entre política fiscal e monetária.
Portfólio
Mantém-se exposição a ativos que se beneficiam da tese de dólar fraco, com destaque para o Ibovespa. As maiores assimetrias encontram-se nas empresas de menor capitalização (Small Caps), que além de se beneficiarem do ciclo de baixa de juros no Brasil, tendem a reagir positivamente a uma eventual alternância de poder. Diante do elevado nível de volatilidade, segue-se confortável em manter parcela relevante do portfólio em caixa, atrelado à Selic, aproveitando juros nominais ainda próximos de 15%. Reforça-se também a posição em renda fixa, especialmente títulos indexados à inflação de vencimentos mais longos, que se beneficiam do cenário de cortes de juros, o IPCA+ 2060 está cotado a 7,20%, refletindo o último segmento da curva a melhorar.
Para ações americanas, adota-se postura um pouco mais conservadora diante dos valuations elevados, embora haja conforto em manter posições em empresas ligadas à infraestrutura de inteligência artificial, dado o processo de rotação setorial em curso. Segundo a Goldman Sachs, ficar subinvestido no fim do ciclo costuma ser caro, porque as ações geralmente continuam subindo até perto do pico. Para criptoativos, prevalece uma visão mais pessimista diante do ciclo do bitcoin e da falta de interesse de investidores nos últimos meses, o mercado tem preferido metais preciosos a cripto como hedge contra a desvalorização cambial global.

