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Publicado em 02 de Janeiro às 14:46:58

Carta dos Estrategistas – Janeiro de 2026

O encerramento de 2025 consolidou tendências importantes que devem pautar as decisões de investimento ao longo do próximo ano. O cenário macro internacional apresenta sinais cada vez mais claros de mudança de regime: a inflação global segue perdendo força, os principais bancos centrais caminham para ciclos de afrouxamento monetário e o dólar tende a perder força de forma estrutural. Esse movimento vai além de um ajuste conjuntural e reflete um questionamento mais amplo sobre as moedas fiduciárias, em um mundo marcado por déficits elevados e endividamento crescente nas principais economias desenvolvidas.

A forte valorização dos metais preciosos ao longo do ano, com a prata acumulando alta superior a 100% e o ouro renovando máximas históricas, ilustra essa busca por ativos reais como proteção contra a erosão do poder de compra das moedas. O descolamento entre o preço do ouro e seu custo de produção atingiu níveis sem precedentes, refletindo a percepção de que governos de países desenvolvidos seguem sem sinalizar compromisso com ajustes fiscais relevantes. Esse pano de fundo mantém intacta a tese estrutural para commodities metálicas, embora, após as altas expressivas dos últimos meses, o momento peça maior cautela: não se enxerga assimetria para ampliar posições nesses patamares e eventuais novas alocações devem vir acompanhadas de proteções.

Tecnologia, Inteligência Artificial e Criptoativos

O setor de tecnologia e inteligência artificial permanece como tema central nos mercados globais, sustentado por resultados concretos de grandes corporações e pelo ciclo de investimentos em infraestrutura de dados. Contudo, as últimas semanas trouxeram questionamentos relevantes sobre valuations, níveis de capex e capacidade de endividamento de algumas empresas do setor. Casos como o da Oracle evidenciaram que nem todas as apostas em IA estão igualmente posicionadas para entregar retornos, gerando diferenciação entre subtemas e empresas. Diante desse ambiente, a preferência recai sobre carteiras mais diversificadas, com maior peso em ações do tipo valor e menor concentração nos nomes que lideraram as altas recentes.

No universo de criptoativos, a postura segue de cautela. O Bitcoin demonstrou ao longo do ano sua natureza profundamente cíclica, com períodos de euforia seguidos por ajustes intensos. A classe encerrou dezembro em território negativo, reforçando a leitura de que, neste momento, a exposição deve ser reduzida e concentrada exclusivamente em bitcoin, evitando ativos de maior especulação.

Mercados Emergentes e Brasil

Para os mercados emergentes, o ambiente externo oferece suporte relevante. Um dólar mais fraco e a busca por ativos reais tendem a favorecer essa classe, especialmente considerando os descontos significativos de valuation em relação aos mercados desenvolvidos. O Brasil, em particular, reúne características atrativas: juros reais entre os mais elevados do mundo, forte exposição a commodities e ativos que negociam com prêmios de risco ainda substanciais.

No entanto, o cenário doméstico exige atenção redobrada. O país adentra 2026 em ano eleitoral, com o tema político já exercendo influência direta sobre os preços dos ativos. A confirmação de Flávio Bolsonaro como pré-candidato apoiado pelo ex-presidente gerou reação negativa dos mercados, refletindo a percepção de menor competitividade frente ao atual governo e, consequentemente, maior probabilidade de continuidade do modelo econômico vigente. Pesquisas eleitorais indicam índices elevados de rejeição tanto para candidatos da família Bolsonaro quanto para o presidente Lula, configurando um cenário de polarização que tende a manter a volatilidade elevada nos próximos meses.

Soma-se a isso a recente escalada de tensão institucional envolvendo o STF, o Banco Central e o caso do Banco Master. A percepção de ingerência sobre decisões técnicas do regulador bancário adiciona ruído ao ambiente e eleva o prêmio de risco, reforçando a necessidade de postura conservadora e manutenção de caixa em níveis elevados.

Do ponto de vista macroeconômico, os dados recentes mostram sinais de desaceleração da atividade, o IBC-Br de outubro registrou queda, e a produção industrial segue pressionada. A inflação apresenta trajetória de convergência gradual, com núcleos em recuo, embora os serviços mantenham dinâmica mais resiliente. Esse conjunto de fatores aproxima o país do início de um ciclo de cortes de juros, ainda que o Banco Central mantenha comunicação cautelosa e sinalize que março parece mais provável que janeiro para o primeiro movimento. A postura conservadora da autoridade monetária, ao restabelecer credibilidade, pode paradoxalmente abrir espaço para um ciclo de afrouxamento mais longo e intenso à frente, caso o cenário continue evoluindo de forma construtiva.

Estratégia e Assimetria

É dessa combinação de fatores que emerge a principal mensagem para o posicionamento de portfólio: assimetria. Parte relevante dos riscos domésticos já está incorporada aos preços, o mercado embute algo próximo de 60% de probabilidade de reeleição do atual governo nos níveis correntes de câmbio e juros longos. Enquanto isso, o cenário externo segue oferecendo suporte aos ativos brasileiros, com o diferencial de juros reais tornando o real atrativo para estratégias de carry trade e o fluxo para emergentes mantendo-se positivo.

A estratégia mais eficiente, neste momento, passa por manter um nível elevado de caixa, algo em torno de 40% do portfólio, a ser calibrado conforme o perfil de risco de cada investidor. Em um país que remunera a liquidez com taxas reais próximas a dois dígitos, o caixa deixa de ser meramente defensivo e se transforma em opcionalidade: permite atravessar a volatilidade característica de anos eleitorais e aproveitar momentos de estresse para montar posições com melhor relação risco-retorno.

Na parcela alocada em renda variável, a preferência recai sobre empresas de menor volatilidade, ligadas a setores mais perenes e com histórico de resultados consistentes. A combinação de juros ainda elevados por um período prolongado com incerteza política e institucional sugere cautela com papéis muito sensíveis ao ciclo de crédito ou excessivamente dependentes de uma melhora rápida do ambiente doméstico. A diversificação regional também se mostra relevante: a alocação internacional em mercados desenvolvidos e emergentes selecionados permite capturar o momento favorável para ativos fora dos Estados Unidos sem concentrar todo o risco no cenário brasileiro.

Conclusão

2026 se apresenta como um ano de oportunidades, mas que demanda disciplina e seletividade. O investidor que mantiver liquidez adequada, evitar concentrações excessivas e souber aproveitar os momentos de volatilidade para construir posições estará bem posicionado para navegar um ambiente que, embora desafiador, oferece assimetrias interessantes para quem souber identificá-las.

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