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Publicado em 02 de Janeiro às 16:59:56

Expresso Bolsa Semanal: Ibovespa tem melhor desempenho anual desde 2016

A semana foi marcada pela transição entre as pressões cambiais de fim de ano e a expectativa de normalização do fluxo de capitais. As remessas de lucros e dividendos, que vinham pressionando o câmbio nas sessões anteriores, encontraram equilíbrio na virada do ano, permitindo uma recuperação expressiva do real frente ao dólar. O mercado operou com liquidez reduzida, típica do período festivo, o que amplificou os movimentos em ambas as direções e dificultou a identificação de drivers fundamentais claros para as oscilações diárias.

O Ibovespa encerrou 2025 consolidando o que foi o melhor desempenho anual desde 2016, impulsionado pelo carrego elevado que favoreceu a moeda brasileira e pelos cortes de juros nos Estados Unidos ao longo do ano. Na primeira sessão de 2026, a bolsa apresentou leve recuo diante da perda de fôlego dos ganhos em Nova York, com pressão concentrada em setores específicos como petróleo e frigoríficos, enquanto o setor financeiro sustentou a ponta positiva.

Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)

Entre os destaques positivos da semana, Pão de Açúcar liderou os ganhos com alta expressiva, beneficiada por movimentos técnicos e reposicionamento de carteiras no início do ano. CVC também apresentou forte valorização, enquanto no setor de energia, Brava Energia e Prio registraram desempenho positivo impulsionadas pela dinâmica favorável do petróleo no período, com a Prio anunciando ainda a aprovação de dividendos intercalares significativos. RaiaDrogasil e SLC Agrícola completaram o grupo de maiores ganhos, esta última beneficiada pela aprovação de aumento de capital com bonificação.

Na ponta negativa, Minerva sofreu a maior queda da semana, pressionada pela decisão da China de aplicar medidas de salvaguarda às importações globais de carne bovina, estabelecendo uma cota anual inicial para exportações brasileiras. A medida impactou todo o setor de frigoríficos, com MBRF Global Foods também registrando recuo acentuado. No setor de tecnologia, Totvs apresentou queda significativa, enquanto IRB Brasil devolveu ganhos recentes. As siderúrgicas CSN e CSN Mineração enfrentaram pressão vendedora, em linha com a fraqueza das commodities metálicas no período.

Macro & Política

O cenário internacional foi dominado pela dinâmica de fim de ano nos mercados americanos, com as bolsas em Nova York apresentando desempenho misto. O S&P 500 e o Nasdaq encerraram a semana em território negativo, pressionados por um selloff em ações de tecnologia, enquanto os yields dos Treasuries de dez anos apresentaram leve alta. A ata do Federal Reserve, divulgada no período, manteve o viés de possível flexibilização das taxas americanas, o que contribuiu para o alívio nos juros globais e favoreceu divisas emergentes como o real.

No Brasil, os dados econômicos trouxeram sinais mistos para a condução da política monetária. A taxa de desemprego atingiu mínimas históricas de 5,2% em novembro, reforçando a percepção de um mercado de trabalho aquecido que pode dificultar o ciclo de afrouxamento monetário. Esse cenário levou à redução das apostas em corte da Selic na reunião de janeiro, com o mercado passando a precificar uma chance quase integral de flexibilização apenas a partir de março. O IGP-M recuou inesperadamente em dezembro, sinalizando um cenário inflacionário marginalmente mais benigno.

O quadro fiscal permaneceu no radar dos investidores. O déficit primário do Governo Central superou as expectativas em novembro, alcançando patamar significativamente acima das projeções. Na virada do ano, o presidente Lula sancionou a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, que estabelece meta de superávit primário, sinalizando compromisso com o arcabouço fiscal. Entraram em vigor também a isenção de Imposto de Renda para trabalhadores com rendimentos até cinco mil reais e o reajuste do salário mínimo.

Desempenho do Real (BRL)

O real apresentou trajetória de recuperação ao longo da semana, revertendo as pressões observadas nas sessões anteriores. Após iniciar o período sob pressão das remessas de lucros e dividendos corporativos, a moeda brasileira encontrou equilíbrio com a expectativa de reversão desses fluxos no início de janeiro. O dólar chegou a superar o patamar de R$ 5,58 na máxima da semana, mas recuou consistentemente até atingir a região de R$ 5,41 na mínima, configurando a melhor performance entre as divisas emergentes na primeira sessão do ano.

O movimento de valorização do real foi sustentado pela combinação de fatores técnicos e fundamentais. O carrego elevado proporcionado pela política monetária brasileira mantém a atratividade da moeda para operações de carry trade, enquanto a melhora do casado cambial sinalizou reversão do fluxo de saídas que predominou em dezembro. A baixa liquidez característica do período amplificou os movimentos, mas a tendência geral apontou para um início de ano favorável à moeda brasileira.

Curva de Juros

Os juros futuros apresentaram comportamento diferenciado entre os vértices da curva. Na parcela curta, mais sensível às expectativas de política monetária, as taxas avançaram após os dados de desemprego abaixo do esperado reduzirem as apostas em corte da Selic no curto prazo. O contrato para janeiro de 2027 registrou alta, refletindo a percepção de que o mercado de trabalho aquecido pode manter o Banco Central paciente.

Na porção longa da curva, o alívio cambial proporcionou fechamento das taxas, com os vértices intermediários e longos cedendo em torno de dez pontos-base na primeira sessão do ano. O vencimento expressivo de Letras do Tesouro Nacional em janeiro, superior a cento e setenta bilhões de reais, foi absorvido pelo mercado sem grandes turbulências. A precificação passou a embutir uma chance quase integral de flexibilização de vinte e cinco pontos-base apenas em março.

Fluxo Investidor Estrangeiro

A B3 registrou fluxo de saída acumulado no mês de dezembro, com o saldo negativo superando um bilhão e oitocentos milhões de reais até o dia 30. A última semana apresentou movimentos alternados, com saída significativa no pregão de encerramento do ano parcialmente compensada por entrada moderada na sessão anterior.

Narrativas & Cenários

Para a próxima semana, o foco estará na retomada da liquidez normal dos mercados após o período festivo. A definição mais clara do cenário cambial dependerá da confirmação da reversão do fluxo de saídas, com janeiro historicamente apresentando entradas de recursos que podem sustentar a valorização do real. O comportamento do dólar index e a continuidade do apetite por risco nos mercados globais serão determinantes para as divisas emergentes.

No cenário doméstico, a evolução das discussões fiscais e os próximos indicadores de atividade econômica ganham relevância. A combinação de mercado de trabalho aquecido com inflação controlada cria um ambiente desafiador para as decisões do Banco Central, que precisará calibrar o ritmo de eventual flexibilização monetária. O comportamento dos frigoríficos permanece sob observação diante das novas regras chinesas para importação de carne bovina.

O ambiente regulatório também merece atenção, com os desdobramentos relacionados ao Banco Master e as investigações em curso podendo gerar volatilidade pontual no setor financeiro. A combinação de juros elevados, câmbio em trajetória de estabilização e expectativa de retomada do fluxo estrangeiro configura um cenário construtivo para os ativos brasileiros no início de 2026, ainda que sujeito a volatilidade diante de eventos externos e desenvolvimentos políticos locais.

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