A semana foi definida pela Super Quarta, a combinação de decisões do Fed e do Copom que retirou clareza dos dois lados do custo de capital. O banco central americano manteve a taxa, mas estreou um novo comando com comunicação mais dura, eliminou boa parte do guidance e passou a sinalizar risco de alta de juros ainda neste ano, fortalecendo o dólar global e reativando a tese de excepcionalismo americano. O alívio que vinha do petróleo, com o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã derrubando o Brent para baixo do patamar pré-guerra, deveria favorecer emergentes, mas perdeu força diante de bancos centrais menos previsíveis e de uma rotação global concentrada em tecnologia.
No Brasil, o Copom reduziu a Selic para 14,25 ao ano, terceiro corte seguido, mas a comunicação foi lida como confusa e otimista demais com a inflação, abrindo a curva longa e pressionando câmbio e bolsa. O Ibovespa recuou na semana e voltou a testar a região dos 168.000 pontos, o real ficou entre as moedas emergentes de pior desempenho e o fluxo estrangeiro seguiu vendedor. A leitura da casa é de aversão seletiva: o país barato não vira fluxo comprador enquanto fiscal, eleição e credibilidade monetária seguirem cobrando prêmio.
Maiores Altas e Baixas (Ibovespa)
Entre as maiores altas dominaram exportadoras favorecidas pela disparada do dólar e nomes que devolvem caixa. Embraer (EMBJ3) liderou, sustentada por momento forte de carteira de pedidos e perfil dolarizado. WEG (WEGE3) saltou na sessão pós-Copom, quando o real se desvalorizou com força, mesma lógica que impulsionou Suzano (SUZB3) em papel e celulose. As seguradoras Porto Seguro (PSSA3), Caixa Seguridade (CXSE3) e BB Seguridade (BBSE3) avançaram com dados setoriais positivos e o ganho de carregar capital a juro alto, enquanto Cosan (CSAN3) subiu com novo passo de venda de ativos e desalavancagem.
Na ponta negativa, Braskem (BRKM5) foi o pior desempenho do índice, pressionada por ter virado ré no caso de Maceió e pelo entrave na reestruturação de dívida, que aproxima o risco de recuperação judicial. As siderúrgicas CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5) e Gerdau (GGBR4) caíram forte, combinando dúvida sobre a execução da venda de ativos com o efeito do minério mais firme no custo do insumo. Natura (NTCO3) recuou com a incerteza sobre a entrada da gestora Advent, e as petroleiras Petrobras (PETR4), PRIO (PRIO3) e Brava Energia (BRAV3) seguiram o tombo do petróleo, com Brava ainda penalizada pela suspensão da oferta da Ecopetrol.
Macro & Política
No exterior, o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã reabriu o trânsito por Ormuz e derrubou o petróleo de volta ao patamar pré-guerra, vetor desinflacionário para os mercados globais de juros. O ponto de virada, porém, foi a estreia do novo comando do Fed, que manteve os juros, mas reduziu o guidance e sinalizou possibilidade de alta ainda neste ano, reforçando dólar forte e a concentração de liquidez em tecnologia, semicondutores e inteligência artificial.
Nos dados, o quadro foi misto: o consumo americano seguiu resiliente, enquanto a China decepcionou em varejo e investimento e o Reino Unido mostrou inflação mais comportada, com os PMIs globais de produção acelerando fora da tecnologia. O mosaico preservou a leitura de desinflação à frente, ainda que com heterogeneidade entre os ciclos de cada banco central.
No Brasil, a inflação de maio voltou a superar o teto da meta e o Copom cortou a Selic pela terceira vez, mas com comunicação interpretada como inconsistente: o Banco Central rolou o horizonte relevante para o início de 2028, quando projeta inflação abaixo da meta, sem descartar novos cortes mesmo com expectativas desancoradas. O ruído político somou-se ao fiscal, com pesquisas reforçando a liderança do governo na corrida eleitoral, pautas de gasto no Congresso e uma nova fase de investigação ligada ao Banco Master, que atingiu um senador da base. O elo causal é direto: o alívio externo não virou alívio local porque a perda de previsibilidade dos bancos centrais transformou a política em preço de ativo.
Desempenho do Real (BRL)
O real ficou entre as moedas emergentes de pior desempenho na semana, partindo da região de R$ 5,06 e chegando a superar R$ 5,17 após o Copom, antes de aliviar parcialmente para perto de R$ 5,13 ao final do período. O índice de dólar avançou e voltou a operar em patamar desconfortável para ativos locais.
A pressão veio de três frentes: o dólar global mais forte com o Fed duro, a queda do petróleo desfazendo o play de commodities que sustentara a moeda durante o conflito, e a comunicação do Copom lida como dovish, que reduziu a percepção de credibilidade. O Banco Central rolou integralmente sua oferta de swaps cambiais, e o câmbio funcionou como amortecedor automático do choque de confiança.

Curva de Juros
A semana começou com fechamento das taxas curtas, puxado pela queda do petróleo e pela aposta no corte da Selic, mas o movimento virou após a Super Quarta. A curva ganhou forte inclinação: os vértices curtos cederam, enquanto os longos abriram com intensidade, com o diferencial entre os contratos de 2033 e 2027 ampliando-se de forma relevante ao final do período.
A leitura é de perda de narrativa pelo Banco Central: o mercado passou a precificar pausa no ciclo já em agosto e até um novo movimento de alta adiante, com juro terminal projetado em patamar elevado. A ata do Copom, na próxima semana, surge como teste de reparo de comunicação, já que a inflação implícita segue pressionada e o juro real permanece em terreno restritivo.
Fluxo Investidor Estrangeiro
O fluxo estrangeiro seguiu negativo na bolsa, com saldo mensal no campo negativo mesmo após entradas pontuais em alguns pregões. Desde meados de abril, o investidor de fora reduziu de forma expressiva sua posição no mercado à vista, com a pessoa física dando sustentação tática. Enquanto o índice de emergentes avançou no período, o Brasil ficou descolado, com o capital global drenado pela tese de inteligência artificial e por mercados com tecnologia e juro alto fora do país.
Narrativas & Cenários
A tensão binária dominante para a próxima semana é se a desinflação importada pelo petróleo mais barato será forte o bastante para superar fiscal, eleição, fluxo e expectativas locais, ou se a combinação de Fed duro e perda de credibilidade do Copom manterá juros longos, câmbio e bolsa na defensiva. A ata do Copom será o principal teste de reparo dessa narrativa.
Estruturalmente, o Brasil segue em modo defensivo. O Ibovespa está barato, mas sem comprador marginal institucional, e o posicionamento institucional ainda privilegia caixa, recompras e dividendos, com nomes como Ultrapar, Embraer e Porto Seguro sinalizando preferência por retorno ao acionista em ambiente de juro real elevado. O beta doméstico depende de queda sustentável do prêmio fiscal e de um dólar global mais fraco, o que mantém a carteira recomendada com viés seletivo.
No calendário, os catalisadores concretos são a ata do Copom e o Boletim Focus na próxima semana, a assinatura formal do acordo entre Estados Unidos e Irã, adiada diante dos confrontos entre Israel e Hezbollah, e a nova rodada de pesquisas eleitorais. A normalização do trânsito por Ormuz e a evolução do petróleo seguem como variáveis de cauda para inflação e ativos locais.
