Publicado em 01 de Agosto às 22:22:46
Julho foi o mês em que o mercado internacional parou de perguntar se existe demanda por inteligência artificial e passou a perguntar quando o dinheiro investido nela volta. A diferença entre as duas perguntas é toda.
O grupo de semicondutores acumulou queda de 20% desde o pico de junho. O Kospi teve uma sessão de menos 11%, com as duas maiores fabricantes de memória do mundo perdendo mais de 13% num único dia, antes de o governo coreano anunciar um pacote de estabilização que devolveu 18% ao índice numa sessão. O sinal mais claro não veio da bolsa, veio do crédito: o spread pago pelas empresas que financiam a infraestrutura de inteligência artificial saiu de 118 para mais de 150 pontos-base sobre os títulos do Tesouro americano. Crédito costuma enxergar esse tipo de mudança antes.
Ao mesmo tempo, o custo do dinheiro longo continuou subindo. O título americano de trinta anos atravessou o período mais longo acima de 5% desde 2007, e o de dez anos rodou perto de 4,65%. Isso é aperto financeiro sem alta formal de juros, e atinge com mais força exatamente as companhias cuja avaliação depende de lucro distante no tempo.
A consequência apareceu na composição do mercado. As grandes companhias tradicionais americanas renderam sete pontos percentuais a mais que as empresas de tecnologia no mês, e o índice de valor superou o de crescimento. É a mesma história do juro longo por outro ângulo: quando carregar o futuro fica caro, o mercado paga pelo presente.
Desempenho: a carteira caiu 28,48% em julho, contra queda de 2,04% do BDRX. Foi o pior mês da série e não há como suavizar: as cinco posições caíram, entre 19% e 36%. Ainda assim, pela força do primeiro semestre, a carteira acumula alta de 32,72% em 2026 — de longe o melhor resultado entre as nossas onze.
Os dois números descrevem a mesma carteira, e é por isso que publicamos os dois. Uma concentração que entrega 34% em maio é a mesma que devolve 28% em julho.
Entram Snowflake e Apple. Saem AMD e Caterpillar.
A carteira de julho estava inteira do lado que foi punido: quatro das cinco posições em semicondutores e industriais, os dois grupos que concentraram a correção. A mudança deste mês reduz essa concentração sem abandonar a tese de inteligência artificial, que segue sendo o maior movimento de investimento em capacidade produtiva desta década.
Uma decisão merece explicação. Dell aparecia como a primeira escolha pelo critério quantitativo, com a melhor combinação entre tendência e avaliação de mercado entre todos os candidatos. Ela ficou de fora por uma razão operacional, não por tese: o recibo negociado na B3 custa mais de dois mil reais por unidade, o que inviabiliza a montagem proporcional da carteira para o ticket de entrada dos nossos produtos de gestão. Uma recomendação que o investidor não consegue executar na proporção correta não é uma recomendação útil.
Permanece por estar a montante do ciclo de semicondutores: a companhia fornece os equipamentos usados na fabricação, então vende antes de a capacidade entrar em operação. Isso a coloca na frente do movimento de investimento em capacidade, que segue elevado e ainda tem fila de projetos anunciados. Acumula alta de 140,7% em doze meses. A correção de julho devolveu parte do prêmio e trouxe o papel para 33,2% abaixo da máxima, o que melhora o ponto de entrada de quem acredita na continuidade do ciclo.
É a única posição da carteira internacional com tendência de alta sem conflito entre as janelas, operando a apenas 2,2% da máxima de 52 semanas enquanto o setor de tecnologia corrige. A receita de serviços atingiu recorde no último trimestre, o que sustenta margem e reduz a dependência do ciclo de troca de aparelhos, mudança estrutural do modelo de negócio. A base instalada de mais de dois bilhões de dispositivos é o ativo que garante essa recorrência. Entra como o componente de estabilidade da carteira.
Permanece na carteira como a posição de maior assimetria. A companhia executa uma reorganização profunda, com foco na operação de fundição e no reposicionamento em capacidade de processamento para inteligência artificial, e o papel acumula alta expressiva em doze meses acompanhando os primeiros sinais dessa virada. As projeções de mercado se distribuem num intervalo amplo, sem convergência, o que é característico de caso em transformação: quando o mercado converge, o preço normalmente já refletiu. É posição de convicção própria.
É onde a convergência de opinião do mercado é maior entre todas as posições, e negocia a 19,1 vezes lucro, o múltiplo mais baixo entre os semicondutores da carteira. A companhia é a que melhor captura a demanda por memória de alta largura de banda, insumo central dos aceleradores de inteligência artificial, com contratos de fornecimento já assegurados para os próximos ciclos. O papel subiu mais de 600% em doze meses, e a correção de julho devolveu parte do movimento sem alterar o quadro de demanda.
Avançou mais de 120% em três meses, o maior avanço entre as posições, sustentado pela aceleração de receita e por um acordo bilionário de infraestrutura em nuvem. A companhia fornece a camada onde os dados corporativos são armazenados e consultados, posição que se beneficia de forma direta da adoção de inteligência artificial nas empresas, já que modelo sem dado organizado não entrega resultado. O crescimento é a variável que sustenta a avaliação, e é o que acompanhamos a cada trimestre.
Desempenho: a carteira caiu 7,35% em julho, puxada pelas posições de tecnologia global e semicondutores, e acumula queda de 1,86% em 2026.
Composição de agosto: Tesouro Selic, infraestrutura indexada ao CDI, dividendos Brasil, semicondutores e ações globais de países desenvolvidos.
Esta é a única carteira que não é montada por critério quantitativo. Ela traduz a visão macro em instrumentos, e por isso segue os temas da nossa leitura de cenário, não uma ordenação de desempenho recente.
A maior parte da carteira está em caixa e crédito indexado, o que reflete uma posição simples: com juro real perto de 8% ao ano, ser pago para esperar continua sendo uma das melhores relações entre retorno e risco disponíveis no mercado brasileiro. Não é defesa por falta de convicção, é reconhecimento de que o prêmio da renda fixa local segue alto.
A posição em dividendos Brasil expressa a leitura de que o mercado doméstico voltou a ganhar do exterior na margem. Foi o tema de melhor desempenho relativo em julho, e a queda da Selic que a curva já precifica tende a favorecer justamente as companhias que distribuem.
A posição em ações globais de países desenvolvidos substitui a exposição concentrada em bolsa americana que tínhamos. É a forma de capturar a rotação de crescimento para valor sem concentrar em tecnologia, e é o instrumento de menor volatilidade entre os disponíveis para essa função.
A posição em semicondutores é a de maior convicção própria da carteira. O grupo corrigiu forte em julho e o movimento de curto prazo ainda é de queda. Mantemos porque entendemos a correção como ajuste de preço dentro de um ciclo de investimento que segue vivo, não como reversão da tese. É a posição que exige mais paciência do conjunto.
Desempenho: a carteira subiu 1,24% em julho e acumula alta de 7,71% em 2026 — o melhor resultado entre as nossas carteiras depois da BDR 5+, com uma fração da oscilação.
Composição de agosto: Tesouro Selic com 50%, infraestrutura indexada ao CDI com 40% e prefixado com 10%.
Sai a posição em inflação e o prefixado dobra de participação.
A mudança reflete onde está o prêmio hoje. O juro real embutido nos títulos indexados à inflação recuou ao longo do semestre, enquanto a curva prefixada segue embutindo um cenário de Selic que consideramos conservador diante da desinflação em curso. O IPCA-15 veio em 4,52% em doze meses e a curva já precifica corte na reunião de agosto.
A concentração em pós-fixado permanece deliberada. Enquanto a Selic estiver perto de 14%, o custo de oportunidade de estar em caixa é baixo e a opcionalidade é alta: quem está líquido consegue aproveitar as janelas que um ano eleitoral costuma abrir.
Desempenho: em julho a Criptofix subiu 2,47% e a Cripto++, 5,15%. No ano, porém, as duas seguem no vermelho: a Criptofix acumula queda de 5,19% e a Cripto++, queda de 32,02%. A diferença entre elas é a proporção em renda fixa, a Criptofix mantém 70% em Tesouro Selic, e foi isso que conteve a perda.
Sem alterações em ambas.
O ciclo segue desfavorável e não vemos motivo para aumentar exposição. As duas carteiras mantêm a estrutura que já tinham: Criptofix com a maior parte em caixa e uma fatia menor em criptoativos, e Cripto++ com a exposição concentrada.
A manutenção não é indiferença ao movimento recente. A estrutura da Criptofix, com a maior parte do patrimônio em Tesouro Selic, foi desenhada exatamente para atravessar períodos como este sem que o investidor precise decidir no pior momento. É a carteira fazendo o que foi desenhada para fazer.