Home > Macroeconomia Brasil > Crédito (Fev/26): Crédito desacelera, mas resiliência persiste mesmo com juros elevados

Publicado em 30 de Março às 12:14:44

Crédito (Fev/26): Crédito desacelera, mas resiliência persiste mesmo com juros elevados

Em fevereiro, o saldo das operações de crédito registrou avanço de 9,6% a/a, registrando leve desaceleração quando comparado aos 10,1% a/a observados em janeiro e também ficando abaixo dos 12,3% a/a registrados em fev/25. Com isso, o volume de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) avançou para R$ 7,15 trilhões (ante R$ 7,12 trilhões). Esse resultado foi proveniente da combinação entre as altas de 7,1% a/a no segmento de pessoas jurídicas e de 11,2% a/a no saldo de pessoas físicas. Em relação às modalidades de crédito, houve alta de 7,7% a/a na modalidade de crédito com recursos livres, desacelerando em relação aos 12,1% a/a observados no mesmo período de 2025, e expansão de 12,2% a/a do crédito direcionado que acelerou em relação aos 12,7 a/a registrados em fev/25.

As concessões, na série com ajuste sazonal, apresentaram recuo de -0,5% m/m em relação ao mês imediatamente anterior. Esse resultado foi derivado da combinação entre os recuos de -0,3% m/m nas concessões totais de crédito livre e de -3,4% m/m da carteira de crédito direcionado. Dentro da primeira modalidade, tanto o segmento de pessoas físicas quanto de pessoas jurídicas contribuiu com o recuo observado no mês. O principal destaque ficou por conta do recuo de -1,2% m/m nas concessões para as empresas que deram continuidade ao recuo de -0,4% m/m observado em janeiro, revertendo, ainda que parcialmente, a expansão de 15,0% m/m observada ao final do ano passado. Com este resultado, a média móvel trimestral saiu de um avanço de 3,0% para 4,0% na passagem de janeiro para fevereiro, sugerindo que o desempenho mais negativo do primeiro bimestre de 2026 pode estar ligado ao efeito base bastante elevado do final do ano passado. Por sua vez, as concessões para as famílias registraram queda de -0,5% m/m, interrompendo uma sequência de dois avanços consecutivos registrados nos meses imediatamente anteriores. Com este resultado, a média móvel trimestral segue operando praticamente estável em 1,1% pelo terceiro mês consecutivo e em terreno positivo pelo sétimo mês consecutivo, sugerindo resiliência das concessões mesmo diante da política monetária contracionista.

De maneira geral, o resultado negativo em fevereiro não altera a nossa avaliação de que o mercado de crédito segue resiliente mesmo em um contexto marcado por uma política monetária demasiadamente contracionista. Em nossa leitura, esse desempenho reflete o descasamento entre as políticas monetária e fiscal, bem como o comportamento heterogêneo observado entre os diferentes setores da economia – inclusive no próprio mercado de crédito, e do mercado de trabalho que segue bastante robusto. Esse conjunto de fatores tem contribuído para a manutenção de um cenário de resiliência da atividade, mesmo diante de uma política monetária significativamente contracionista.

Para as pessoas físicas, as concessões livres, registraram expansão de 4,0% a/a em fevereiro, desacelerando em relação aos 9,5% a/a registrados no mês imediatamente anterior. Os principais destaques, em termos reais, ficaram por conta dos desempenhos observados nas concessões de crédito consignado privado (339,3% a/a), que vem registrando forte ritmo de expansão ao longo dos últimos meses em decorrência da entrada em vigor da MP 1292/25 do consignado privado para trabalhadores celetistas; aquisição de veículos (10,8% a/a), desacelerando em relação aos 14,5% a/a de alta registrados em jan/26; e cartão de crédito (1,9% a/a),com destaque para a alta de 18,9% a/a na modalidade de cartão de crédito parcelado. Na ponta negativa, destacamos as baixas de 10,8% a/a no consignado para trabalhadores do setor público, refletindo ao nosso ver os efeitos da política monetária contracionista sobre as concessões dessa modalidade; de -30,2% a/a do crédito consignado dos beneficiários do INSS, que, na nossa opinião, é reflexo do escândalo recente envolvendo os descontos indevidos feitos nas aposentadorias dos beneficiários do INSS; e de -12,6% a/a nas concessões de crédito renegociado.

Já no crédito livre para as pessoas jurídicas, as concessões registraram variação de 3,7% a/a em fevereiro, após avançar de 9,5% a/a em janeiro. Os principais destaques positivos, em termos reais, ficaram por conta das altas observadas nas concessões para capital de giro (47,4% a/a); arrendamento mercantil (84,2% a/a); financiamento para exportações (33,2% a/a) e antecipação de faturas de cartão (+9,5% a/a). Na ponta negativa, destacamos as concessões na modalidade compror (-18,8% a/a); aquisição de veículos (-23,0% a/a); desconto de duplicatas (-16,6% a/a); e cartão de crédito (-9,8% a/a).

A taxa média de juros das operações de crédito avançou 0,3 p.p. no mês e 2,9 p.p. em doze meses, para 33,0% a.a., alcançando o maior nível desde out/16 (33,0% a.a.). Esse movimento foi derivado da combinação entre as variações de -0,1 p.p. na taxa média cobrada para as pessoas jurídicas (de 21,2% para 21,1% a.a.) e de 0,4 p.p. na taxa média cobrada para as pessoas físicas (de 37,9% para 38,3% a.a.). Na modalidade livre, essas alterações foram de -0,1 p.p. (24,9%, ante 25,0%) e 1,0 p.p. (62,0%, ante 61,0%) respectivamente. Já dentre os recursos direcionados, as variações apresentadas nas taxas de juros para pessoas jurídicas e físicas foram de 0,2 p.p. (13,2%, ante 13,0%) e -0,3 p.p. (10,8%, ante 11,1%).

Em um contexto marcado por uma taxa de juros ainda em território significativamente contracionista, as taxas de inadimplência (atrasos superiores a 90 dias) seguem se sustentando em um patamar historicamente elevado. No crédito livre, tanto a inadimplência para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas ficou estáveis em 6,9% e 3,3%, respectivamente. Esse movimento veio acompanhado da alta de 0,1 p.p. na inadimplência total no crédito direcionado (2,6%), reflexo das altas de 0,1 p.p. tanto da modalidade para pessoas jurídicas (1,6%) quanto para pessoas físicas (3,2%).

Em relação ao endividamento das famílias, este ficou estável na margem, mas registrou alta de 1,1 p.p. em doze meses, ficando no patamar de 49,7% em dez/25. Por sua vez, o comprometimento da renda registrou altas de 0,1 p.p. na margem e de 1,6 p.p. em doze meses, avançando para 29,3%, retornando para o patamar observado em out/25.

De modo geral, os dados de crédito de fevereiro seguem apontando para um processo de arrefecimento gradual do mercado, mesmo diante do atual estágio de aperto monetário ainda bastante significativo, sugerindo que as condições de crédito permanecem resilientes neste início de 2026. Cabe destacar que, apesar dos episódios recentes envolvendo problemas de liquidez em grandes empresas, os dados não indicam evidências de contágio sistêmico. Em nossa avaliação, essa resiliência reflete, o descasamento entre as políticas monetária e fiscal, que tem sustentado um nível de atividade acima do esperado mesmo em um ambiente de política monetária restritiva. À medida que o ciclo de afrouxamento monetário se materialize ao longo dos próximos meses, esperamos que o mercado de crédito mantenha uma trajetória de moderação gradual, beneficiado por uma estrutura de juros menos contracionista e por um mercado de trabalho ainda aquecido, fatores que, em conjunto com a expansão do crédito consignado no setor privado, devem sustentar um arrefecimento bastante gradual.

Acesse o disclaimer.

Leitura Dinâmica

Recomendações

    Vale a pena conferir