Em janeiro, o saldo das operações de crédito registrou avanço de 10,1% a/a, registrando leve desaceleração quando comparado aos 10,3% a/a observados no final do ano passado e também ficando abaixo dos 11,8% a/a registrados em jan/25. Com isso, o volume de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) recuou para R$ 7,12 trilhões (ante R$ 7,13 trilhões). Esse resultado foi proveniente da combinação entre as altas de 8,3% a/a no segmento de pessoas jurídicas e de 11,1% a/a no saldo de pessoas físicas. Em relação às modalidades de crédito, houve alta de 8,3% a/a na modalidade de crédito com recursos livres, desacelerando em relação aos 11,5% a/a observados no mesmo período de 2025, e expansão de 12,6% a/a do crédito direcionado que acelerou em relação aos 12,1% a/a registrados em jan/25.
As concessões, na série com ajuste sazonal, apresentaram alta de 1,5% m/m em relação ao mês imediatamente anterior. Esse resultado foi derivado da combinação entre os avanços de 1,8% m/m nas concessões totais de crédito livre e da alta de 2,8% m/m da carteira de crédito direcionado. Dentro da primeira modalidade, o segmento de pessoas físicas foi o principal destaque com uma alta de 1,7% m/m, contudo desacelerando em relação aos 2,2% m/m observados em dez/25. Além disso, tivemos alta de 0,3% m/m das concessões livres para empresas que também desaceleraram em relação ao mês anterior (15,0% m/m). Com estes resultados, a média móvel trimestral das concessões registrou alta de 2,1%, dando continuidade à expansão de 2,0% do final do ano passado, apontando para um bom começo de ano para o mercado de crédito brasileiro. Já na segunda modalidade, os recursos direcionados para PJ registraram alta de 10,7% m/m, desacelerando marginalmente em relação aos 11,2% m/m do mês imediatamente anterior, e avanço de 3,7% m/m nas concessões para pessoas físicas, que também ficou abaixo dos 5,0% m/m de dez/25.
De maneira geral, a sequência de duas altas consecutivas nas concessões reforça nossa avaliação de que o mercado de crédito permaneceu bastante resiliente na transição de 2025 para 2026. Em nossa leitura, esse desempenho reflete o descasamento entre as políticas monetária e fiscal, bem como o comportamento heterogêneo observado entre os diferentes setores da economia – inclusive no próprio mercado de crédito. Esse conjunto de fatores tem contribuído para a manutenção de um cenário de resiliência da atividade, mesmo diante de uma política monetária significativamente contracionista.
Para as pessoas físicas, as concessões livres, registraram expansão de 9,4% a/a em janeiro, desacelerando em relação aos 14,7% a/a registrados no mês imediatamente anterior. Os principais destaques, em termos reais, ficaram por conta dos desempenhos observados nas concessões de crédito consignado privado (419,5% a/a), que vem acelerando nos últimos meses em decorrência da entrada em vigor da MP 1292/25 do consignado privado para trabalhadores celetistas; aquisição de veículos (14,5% a/a), desacelerando em relação aos 19,1% a/a de alta registrados em dez/25; e cartão de crédito (7,0% a/a), interrompendo uma sequência de quatro acelerações consecutivas no ritmo de crescimento interanual e reflete leituras robustas de todas as suas modalidades, com destaque no mês para a segmento parcelado (19,5% a/a). Na ponta negativa, destacamos as baixas de 9,9% a/a no consignado para trabalhadores do setor público, refletindo ao nosso ver os efeitos da política monetária contracionista sobre as concessões dessa modalidade; de -53,3% a/a do crédito consignado dos beneficiários do INSS, que, na nossa opinião, é reflexo do escândalo recente envolvendo os descontos indevidos feitos nas aposentadorias dos beneficiários do INSS; e de -17,0% a/a nas concessões de crédito renegociado.
Já no crédito livre para as pessoas jurídicas, as concessões registraram variação de 10,1% a/a em janeiro, após avançar de 13,5% a/a em dezembro. Os principais destaques positivos, em termos reais, ficaram por conta das altas observadas nas concessões para capital de giro (86,9% a/a); outros (55,3% a/a); cartão de crédito (20,4% a/a); antecipação de faturas de cartão (18,0% a/a); e financiamento para exportações (16,6% a/a). Na ponta negativa, destacamos as concessões na modalidade compror (-36,3% a/a); adiantamento de contrato de câmbio (-20,6% a/a); e desconto de duplicatas (-15,2% a/a).
A taxa média de juros das operações de crédito avançou 0,7 p.p. no mês e 2,9 p.p. em doze meses, para 32,8% a.a., alcançando o maior nível desde out/16 (33,0% a.a.). Esse movimento foi derivado da combinação entre as variações de 1,4 p.p. na taxa média cobrada para as pessoas jurídicas (de 20,0% para 21,4% a.a.) e de 0,41 p.p. na taxa média cobrada para as pessoas físicas (de 37,6% para 38,0% a.a.). Na modalidade livre, essas alterações foram de 1,6 p.p. (25,2%, ante 23,6%) e 0,9 p.p. (61,0%, ante 60,1%) respectivamente. Já dentre os recursos direcionados, as variações apresentadas nas taxas de juros para pessoas jurídicas e físicas foram de 0,8 p.p. (13,0%, ante 12,2%) e 0,0 p.p. (11,2%, ante 11,2%).
Em um contexto marcado por uma taxa de juros ainda em território significativamente contracionista, as taxas de inadimplência (atrasos superiores a 90 dias) seguem se sustentando em um patamar historicamente elevado. No crédito livre, a inadimplência para pessoas físicas ficou estável em 6,9%, ao passo em que a inadimplência de pessoas jurídicas avançou 0,2 p.p. para 3,3%, fazendo com que o número total de inadimplência avançasse 0,1 p.p. para 5,5%, o maior nível desde ago/17 (5,6%). Essa piora foi acompanhada pela alta de 0,3 p.p. na inadimplência total no crédito direcionado (2,5%), reflexo da combinação entre as altas de 0,4 p.p. para pessoas físicas (3,1%) e de 0,1 p.p. para empresas (1,5%).
Em relação ao endividamento das famílias, este ficou estável na margem, mas registrou alta de 1,3 p.p. em doze meses, alcançando o patamar de 49,7% em dez/25. Por sua vez, o comprometimento da renda registrou altas de 0,2 p.p. na margem e de 1,7 p.p. em doze meses, avançando para 29,2%.
De modo geral, os dados de crédito de janeiro permanecem compatíveis com o atual estágio de aperto monetário, sugerindo uma trajetória de arrefecimento bastante gradual na comparação com 2025. Ainda assim, avaliamos que o mercado de crédito segue resiliente, com expansão interanual ainda robusta. A nosso ver, esse desempenho reflete sobretudo o descasamento entre as políticas monetária e fiscal, que tem sustentado uma resiliência da atividade acima do padrão mesmo diante de uma política monetária significativamente restritiva. Sob a perspectiva de afrouxamento do ciclo monetário ao longo dos próximos meses, esperamos que o mercado de crédito siga apresentando uma trajetória de arrefecimento bastante gradual, beneficiada por uma taxa de juros menos contracionista e um mercado de trabalho aquecido que, em conjunto da modalidade do consignado do setor privado, devem favorecer as concessões em 2026.








