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Publicado em 03 de Agosto às 15:02:49

Fiscal (Jun/26):  Déficit fiscal piora em junho e dívida segue em trajetória desfavorável

Resultado Consolidado (Banco Central)

O setor público consolidado (governo central, governos regionais e empresas estatais) apresentou déficit primário de R$ 55,3 bi em junho, vindo pior do que o esperado pelo mercado (-R$ 55,3 bi, Broadcast+) e também pior do que a nossa expectativa para o mês de déficit de R$ 49,7 bi. O resultado do governo consolidado no mês foi reflexo da combinação entre os déficits de R$ 47,2 bi, R$ 6,6 bi e R$ 1,5 bi no governo central, governos regionais e empresas estatais, respectivamente. O principal desvio em relação à nossa projeção ficou por conta do déficit acima do esperado para os entes subnacionais, sugerindo uma execução de despesas acima do esperado por conta do período eleitoral.

Com este resultado, no acumulado em 12 meses, o setor público consolidado obteve um déficit primário de R$ 157,2 bi (-1,19% do PIB), ante déficit de R$ 149,0bi (-1,14% do PIB) em maio e superávit de R$ 17,9 bi (0,15% do PIB) no mesmo período do ano anterior. Cabe destacar que a piora no resultado em relação à 2025 reflete uma significativa piora do governo central que saiu de um superávit de R$ 12,9 bi para um déficit de R$ 139,7 bi, principalmente devido ao descasamento entre os calendários de pagamento de precatórios em 2025 e 2026. Contudo, seguimos com a avaliação de que isso não altera o fato de que o Executivo segue enfrentando um grande desafio para promover o ajuste fiscal brasileiro, mesmo após aprovação de diversas medidas de aumento de receitas ao longo dos últimos ano. Nesse contexto, avaliamos que 2026 tende a repetir o padrão observado em 2025, com cumprimento da meta de resultado primário, após a exclusão de algumas despesas de seu cálculo. Porém, isso segue sendo insuficiente para promover a estabilização da dívida pública brasileira, fato este que tende a seguir pressionando os prêmios de risco domésticos.

O resultado nominal do setor público consolidado, que inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$ 166,0 bi em junho, ante déficit de R$ 163,7 bi em mai/26 e de déficit de R$ 108,1 bi no mesmo mês do ano anterior. No acumulado em 12 meses, o déficit nominal alcançou R$ 1.317,8 bi (9,99% do PIB), ante déficit de R$ 894,4 bi (7,27% do PIB) no mesmo mês do ano anterior.

A dívida bruta do governo geral (DBGG), que engloba o Governo Federal, os Governos Regionais (estaduais e municipais) e o INSS, atingiu 81,9% do PIB (R$ 10,8 tri), avançando 0,9 p.p. em relação ao mês de maio e 5,6 p.p. acima do patamar observado no mesmo mês do ano anterior. O resultado em junho foi decorrente da combinação entreo efeito da variação do PIB nominal (-0,5 p.p.), das emissões líquidas de dívida (+0,6 p.p.) e dos juros nominais apropriados (+0,8 p.p.). No ano, o aumento de 3,3 p.p. do PIB é derivado da incorporação dos juros nominais (+4,9 p.p.), da emissão líquida de dívida (+1,3), do crescimento do PIB nominal (-2,7 p.p.) e do efeito da valorização cambial (-0,2 p.p.).

Em suma, os dados divulgados hoje seguem corroborando o nosso cenário de que o resultado primário consolidado do governo seguirá sendo pressionado pelo déficit a ser registrado pelo governo central ao longo de 2026. A nosso ver, a ausência de um ajuste estrutural pelo lado das despesas primárias somado ao desembolso com os juros nominais da dívida, que devem seguir elevados em um contexto de inflação mais pressionada e necessidade de juros mais elevados, devem continuar sendo os principais responsáveis pela continuidade da trajetória de deterioração da relação dívida/PIB. Seguimos com a avaliação de que a percepção de risco fiscal segue elevada, fato este que deve continuar exercendo um importante papel na determinação da trajetória das principais variáveis macroeconômicas brasileiras ao longo de 2026. Com este resultado mantemos a nossa expectativa para relação dívida/PIB de 82,9% do PIB no final de 2026.

Resultado do Governo Central (Tesouro Nacional)

Em junho, o governo central registrou déficit primário de R$ 48,2 bi, vindo ligeiramente pior do que o esperado pelo consenso de mercado (-R$ 47,2 bi, Broadcast+), porém um pouco melhor do que a nossa expectativa para o mês de déficit de R$ 49,0 bi. Esse resultado representa uma piora em relação ao número, corrigido pela inflação, registrado no mesmo período do ano anterior (-R$ 46,3 bi), sendo reflexo da combinação entre a alta de 9,0% a/a das despesas totais (+R$ 20,1 bi), refletindo o avanço das despesas discricionárias, ter mais do que compensado o aumento de 10,3% a/a das receitas líquidas (+R$ 18,2 bi) no mesmo período.

Pelo lado das receitas líquidas, em termos reais, o bom desempenho em relação ao mesmo período do ano anterior (+10,3% a/a ou +R$ 18,2 bi), foi derivado da combinação entre a alta de 10,2% a/a da receita administrada pela RFB (+R$ 15,1 bi), do aumento de 5,6% a/a da arrecadação líquida para o RGPS (+R$ 3,3 bi) e a alta de 23,0% a/a das receitas não administradas pela RFB (+R$ 4,9 bi). Em relação ao primeiro grupo, o bom desempenho no mês foi reflexo principalmente das altas de 12,7% a/a na arrecadação com a Cofins (+R$ 4,1 bi), pelo bom desempenho da atividade econômica no período; ii) de 47,4% a/a na arrecadação com o IPI (+R$ 3,7 bi), refletindo principalmente a dinâmica de compensações entre junho de 2025 e 2026; e iii) na arrecadação com outras receitas administradas (+78,7% a/a ou +R$ 3,3 bi), reflexo das alterações legislativas associadas ao imposto de exportação sobre o óleo bruto (MP 1340/2026). Já a arrecadação previdenciária seguiu sendo beneficiada pelo bom momento do mercado de trabalho. Por fim, o bom desempenho das receitas não administradas no mês foi derivado do avanço de 77,9% a/a na rubrica de receitas de exploração de recursos naturais (+R$ 5,3 bi), impulsionados por royalties e pela comercialização de petróleo e gás natural da União pela PPSA.

Pela ótica das despesas, os principais destaques ficaram por conta dos aumentos de 21,0% a/a nas despesas do Executivo sujeitas à programação financeira (+R$ 10,1 bi), com destaque para os gastos discricionários com a saúde (+115,9% a/a ou +R$ 5,1 bi), impulsionados pelo calendário eleitoral em 2026; com créditos extraordinários (+R$ 2,8 bi), refletindo principalmente a subvenção à comercialização do óleo diesel; e despesas com o pagamento de benefícios previdenciários (1,9% a/a ou +R$ 2,1 bi), devido ao aumento do número de beneficiários e pelo reajuste do salário-mínimo que indexa o pagamento de aposentadorias e benefícios. Esses aumentos foram parcialmente compensados pelo recuo de 8,8% a/a nas despesas com o programa Bolsa Família (-R$ 1,3 bi), refletindo a redução no número de beneficiários em relação ao mesmo período do ano passado.

Com o resultado de junho, no acumulado no ano, em termos reais, o governo central registrou um déficit primário de R$ 91,2 bi, frente a um déficit de R$ 81,5 bi no mesmo período do ano anterior, registrando uma piora de R$ 81,5 bi. Esse resultado foi reflexo da combinação entre a alta de 5,6% a/a na receita líquida (+R$ 67,7 bi) e o aumento de 12,3% a/a nas despesas totais (+R$ 149,2 bi), refletindo principalmente o descasamento no calendário de pagamento de precatórios entre os anos de 2025 e 2026 e com despesas discricionárias principalmente com a rubrica da saúde devido ao calendário eleitoral de 2026. Pelo lado das receitas, os principais destaques ficaram por conta do avanço de 6,8% a/a das receitas administradas pela RFB (+R$ 67,3 bi), em função do bom desempenho das rubricas mais ligadas ao ciclo econômico neste início de ano e da mudança da legislação de cobrança do IOF sem contrapartida no mesmo período do ano passado. Em contrapartida, houve recuo de 5,8% a/a nas receitas não administradas pela RFB (-R$ 9,9 bi), com destaque para a queda na arrecadação com dividendos e participações. ▪ Apesar de o resultado de junho apontar para um desempenho da arrecadação um pouco mais robusto do que o antecipado, refletindo uma contribuição positiva da recuperação da atividade econômica neste início do ano, avaliamos que os dados seguem apontando para um cenário ainda desafiador em termos de equalização das contas do governo central. A nosso ver, mesmo diante da expectativa de que a alta da cotação do petróleo, em meio ao conflito no Oriente Médio, possa favorecer a arrecadação, acreditamos que o eventual uso dessas receitas adicionais para mitigar o choque inflacionário decorrente do encarecimento das commodities torna incerto o efeito líquido do conflito sobre as contas públicas. Além disso, a expectativa de que o governo busque zerar a fila de concessões de benefícios em ano eleitoral é uma fonte de incerteza adicional para as contas públicas pelo lado das despesas, pressionando ainda mais o ajuste que já se mostra altamente dependente da performance das receitas primárias. Assim, mantemos nossa projeção de déficit primário em R$ 53,2 bilhões em 2026, equivalente a -0,39% do PIB, patamar que, por ora, não exige esforço fiscal para o cumprimento do limite inferior da meta de déficit zero em 2026.

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