O banco central norte-americano (Federal Reserve) manteve a taxa de juros (Fed Funds rate) inalterada no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano. A decisão veio em linha com o esperado pelo mercado, refletindo um conjunto de indicadores de atividade, mercado de trabalho e inflação compatível com a manutenção dos juros em um ambiente ainda marcado por incerteza acima do usual, especialmente em função do prolongamento do conflito no Oriente Médio. Diferentemente da reunião de junho, contudo, a decisão contou com três votos dissidentes em favor de uma alta de 0,25 p.p., sinalizando um movimento crescente dentro do Comitê em direção a uma postura mais ativa no combate à inflação. Vale ressaltar que as dissidências já eram esperadas, à luz das falas recentes de Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan, que vinham demonstrando desconforto com o atual nível da inflação americana e tinham como cenário-base a retomada do ciclo de aperto monetário ao longo de 2026.
Assim como na reunião anterior, a decisão de hoje veio acompanhada de um comunicado bastante enxuto e praticamente idêntico ao da reunião anterior, evitando dar quaisquer sinais sobre os movimentos futuros de decisão de política monetária. A comunicação segue consistente com a postura do novo presidente, Kevin Warsh, de reduzir excessos na comunicação do Fed e preservar os graus de liberdade do Comitê, evitando qualquer interpretação de forward guidance. Apesar da ausência de grandes mudanças no texto, avaliamos que a decisão trouxe um tom moderadamente hawkish, ao evidenciar um movimento crescente dentro do Comitê em favor da retomada do ciclo de alta de juros. Esse sinal reforça a percepção de maior preocupação com uma inflação que permanece elevada e distante da meta de 2,0%. Nesse contexto, o Comitê manteve o encerramento categórico do comunicado, afirmando seu compromisso em entregar a estabilidade de preços, o que corrobora a centralidade desse objetivo para a atual diretoria e reforça o viés hawkish da decisão.
Na coletiva após a decisão do Fed, Kevin Warsh reforçou de forma enfática o compromisso da autoridade monetária com a estabilidade de preços e com a meta de inflação de 2,0%. Segundo o presidente, mais de cinco anos de inflação acima da meta podem ter criado a percepção equivocada de que o Fed toleraria implicitamente uma inflação superior a esse objetivo, leitura que ele buscou afastar de maneira categórica. Warsh também destacou que uma única leitura benigna de inflação não é suficiente para alterar a avaliação do Comitê, reforçando que o Fed não tomará decisões com base em um dado isolado, mas sim na tendência dos indicadores. Além disso, reforçou que o comitê possui ampla capacidade de entregar a estabilidade de preços e as expectativas e a precificação de mercado corroboram esta análise.
Outro ponto central da coletiva foi a nova abordagem de comunicação do Fed. Warsh defendeu a redução do forward guidance como forma de preservar os graus de liberdade do Comitê e permitir que os mercados reajam de maneira mais direta aos dados econômicos. Nesse sentido, avaliou que a recente elevação dos juros nominais e reais na curva de Treasuries reflete uma resposta dos mercados às informações disponíveis, e não necessariamente uma ausência de ação por parte do Fed. Para Warsh, esse processo representa uma mudança positiva, na medida em que os preços de mercado passam a incorporar de forma mais imediata e menos filtrada a evolução dos fundamentos e se tornam uma fonte adicional de informação que pode ser útil em decisões futuras do Fed.
Por fim, Warsh afirmou que a decisão de hoje não foi produto de inércia, mas de uma discussão ampla sobre os desafios por trás da política monetária. Entre os temas debatidos, destacou os efeitos persistentes de choques recentes, o impacto do boom de investimentos em inteligência artificial sobre produtividade, demanda e preços, além do papel relativo da taxa de juros e do balanço do Fed na condução da política monetária. Embora tenha reconhecido que o mercado de trabalho permanece sólido, Warsh avaliou que o Fed está performando pior no mandato de estabilidade de preços, sinalizando que, caso a inflação siga elevada ao longo do horizonte de projeção, os juros poderão fazer parte da solução. Em sua visão, o momento atual exige “watchful thinking”, e não apenas “watchful waiting”.
Em suma, avaliamos que a decisão de hoje segue consistente com a nossa expectativa de manutenção da taxa de juros americana ao longo de 2026, refletindo nossa avaliação de que a inflação nos EUA deve continuar em trajetória de arrefecimento nos próximos meses. Embora Warsh tenha adotado um tom mais duro em relação ao patamar atual da inflação e ao longo período de desvio em relação à meta, essa postura permanece compatível com sua sinalização de que o Comitê seguirá atento à tendência dos dados, e não a leituras isoladas. Ainda assim, reconhecemos que o prolongamento das tensões no Oriente Médio e o repasse dos custos associados aos gargalos gerados pelo conflito seguem como os principais fatores de risco para o nosso cenário. Dessa forma, embora o ambiente de curto prazo tenha se tornado marginalmente mais benigno, as incertezas permanecem elevadas, sobretudo diante da sensibilidade dos temas em negociação. Nesse contexto, reconhecemos um risco relevante de alta de juros nas próximas reuniões, mas mantemos, por ora, nossa expectativa de estabilidade da Fed Funds rate ao longo de 2026.








