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Publicado em 03 de Agosto às 14:56:03

PIB EUA (2º tri/26): PIB abaixo do esperado esconde força da demanda privada doméstica

A primeira prévia do PIB dos EUA do 2º trimestre de 2026 acabou vindo abaixo do consenso de mercado (2,0% t/t anualizado, Bloomberg), ao registrar um avanço anualizado de 1,5% t/t, mostrando uma desaceleração em relação ao desempenho observado no primeiro trimestre do ano (2,1% t/t anualizado). Cabe destacar que a frustração no crescimento do PIB no período foi derivada de um avanço mais forte do que o antecipado das importações, sendo responsável por uma subtração de 1,5 p.p. do índice cheio. Em contrapartida, o consumo doméstico e os investimentos seguiram resilientes, com o primeiro superando a expectativa de mercado e indicando uma resiliência da demanda americana mesmo diante de um cenário mais incerto e adverso no período, sendo beneficiadas pelo aumento da restituição média do imposto de renda em relação ao ano passado e dos investimentos em infraestrutura de IA que seguem beneficiando a demanda no curto prazo.

No segundo trimestre, a principal contribuição positiva para o PIB veio dos gastos com consumo pessoal, que avançaram 3,2% t/t anualizado, acelerando significativamente em relação aos 0,5% observados no trimestre anterior e superando o consenso de mercado de alta de 2,3% t/t anualizado (Bloomberg). Com isso, o consumo adicionou 2,12 p.p. ao crescimento do PIB no período. O resultado foi derivado de uma expansão disseminada entre bens e serviços. O consumo de bens avançou 5,2% t/t e contribuiu com 1,08 p.p., refletindo as altas de 6,8% dos bens duráveis e de 4,4% dos bens não duráveis. Entre os principais destaques estiveram medicamentos, veículos e peças, especialmente caminhonetes leves novas, além de móveis e equipamentos domésticos duráveis. Por sua vez, o consumo de serviços cresceu 2,2% t/t e adicionou 1,04 p.p. ao índice cheio, impulsionado principalmente por alimentação e hospedagem, além de serviços financeiros e seguros. A composição reforça a leitura de resiliência da demanda privada doméstica, mesmo diante do ambiente mais incerto observado ao longo do trimestre.

Ainda pelo lado da demanda privada doméstica, o crescimento no segundo trimestre de 2026 voltou a ser sustentado pelo investimento privado, que avançou 3,0% t/t e contribuiu com 0,5 p.p. para o PIB. O principal destaque foi o investimento fixo, que cresceu 7,0% t/t e adicionou 1,2 p.p. ao resultado. O investimento não residencial registrou expansão de 8,4% t/t, com contribuição de 1,15 p.p., impulsionado principalmente pelos investimentos em equipamentos, que avançaram 15,2% t/t e contribuíram com 0,8 p.p. para o crescimento. Apesar da ligeira desaceleração em relação aos 15,8% registrados no trimestre anterior, o segmento manteve um ritmo bastante robusto. Os investimentos em produtos de propriedade intelectual também cresceram de forma expressiva, com alta de 8,8% t/t, embora tenham desacelerado frente aos 13,8% observados no primeiro trimestre. O desempenho desses componentes permanece consistente com a continuidade dos investimentos em tecnologia, software e infraestrutura digital, incluindo projetos relacionados à inteligência artificial. Em contrapartida, os investimentos em estruturas recuaram 5,0% t/t, refletindo principalmente a fraqueza da construção de instalações industriais. O investimento residencial apresentou ligeira alta de 1,5% t/t, interrompendo uma sequência de cinco trimestres consecutivos de contração. Apesar da melhora na margem, ambos os segmentos seguem corroborando a percepção de maior fragilidade nas categorias mais sensíveis ao nível de juros. Por fim, a variação dos estoques privados retirou 0,7 p.p. do crescimento no segundo trimestre, após ter contribuído positivamente com 0,2 p.p. no trimestre anterior, explicando parte relevante da desaceleração do índice cheio.

Os gastos do governo contribuíram negativamente para o PIB no segundo trimestre de 2026, retirando 0,14 p.p. do crescimento, após terem avançado 4,4% t/t no trimestre anterior com a normalização das atividades da máquina pública após o shutdown. O resultado refletiu principalmente o recuo de 4,1% t/t dos gastos federais, após alta de 9,4% t/t no primeiro trimestre, com destaque para a queda de 12,9% t/t das despesas não relacionadas à defesa nacional. Esse movimento esteve associado sobretudo às vendas de petróleo da Reserva Estratégica, contabilizadas como redução do consumo do governo, mas compensadas por outros componentes do PIB, sem efeito direto sobre o índice agregado. Em contrapartida, os gastos estaduais e locais avançaram 1,1% t/t, desacelerando em relação à alta de 1,6% do trimestre anterior, mas ainda contribuindo positivamente com 0,12 p.p. para o crescimento.

Pelo lado do setor externo, o comércio internacional voltou a exercer pressão negativa relevante sobre o crescimento no segundo trimestre. As exportações líquidas retiraram 1,01 p.p. do PIB, refletindo principalmente o avanço de 11,5% t/t anualizado das importações, que subtraíram 1,51 p.p. do índice cheio. Esse crescimento foi concentrado nas importações de bens de capital, especialmente equipamentos de telecomunicações, semicondutores e equipamentos industriais. A composição permanece compatível com a força da demanda doméstica e com a continuidade dos investimentos em tecnologia e infraestrutura ligada à inteligência artificial. Em contrapartida, as exportações cresceram 4,5% t/t anualizado, desacelerando em relação ao trimestre anterior, e contribuíram positivamente com 0,50 p.p. para o PIB. O avanço foi sustentado pelas exportações de bens, lideradas por petróleo e produtos relacionados, parcialmente compensadas pelo recuo dos serviços, com destaque negativo para viagens e outros serviços empresariais.

No que diz respeito aos preços, o índice de preços do PIB acelerou de 3,6% t/t anualizado no primeiro trimestre para 6,2% no segundo trimestre, ficando significativamente acima do consenso de mercado de 4,0% t/t anualizado (Bloomberg), refletindo os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre a inflação americana no período. Em contrapartida, o núcleo do PCE, que exclui alimentos e energia, desacelerou de 4,4% para 3,4% t/t anualizado, vindo ligeiramente abaixo da expectativa de mercado de 3,5% (Bloomberg). Dessa forma, a composição apresentou sinais mistos, com intensificação das pressões nas medidas cheias e moderação da inflação subjacente, sugerindo que, até o momento, o choque de energia associado ao conflito no Oriente Médio permaneceu mais concentrado nos componentes voláteis, sem sinais claros de um repasse generalizado para o restante da economia.

De modo geral, avaliamos que o resultado do segundo trimestre não altera a nossa expectativa de que a economia americana permanecerá resiliente ao longo de 2026, reduzindo os temores de uma perda abrupta de dinamismo que possa provocar uma desaceleração mais significativa do mercado de trabalho. Embora o crescimento do PIB tenha vindo abaixo do esperado, a composição foi mais favorável do que o índice cheio sugere, com forte aceleração do consumo das famílias e manutenção de um ritmo robusto dos investimentos fixos, especialmente em equipamentos e produtos de propriedade intelectual. Nesse sentido, o avanço de 3,9% das vendas finais para compradores privados domésticos reforça a leitura de que a demanda interna permaneceu sólida no período. Em contrapartida, o setor externo, a variação dos estoques e os gastos do governo exerceram pressão negativa sobre o crescimento. Parte do forte avanço das importações esteve concentrada em bens de capital, semicondutores e equipamentos de telecomunicações, composição compatível com a continuidade dos investimentos em tecnologia e infraestrutura relacionada à inteligência artificial. Em síntese, os números de hoje reforçam a percepção de que a economia americana segue resiliente, mesmo diante de um cenário externo adverso e marcado por elevada incerteza decorrente do conflito no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, a força da demanda privada e a aceleração das medidas mais amplas de preços sugerem que o Fed deverá manter uma postura cautelosa na condução da política monetária.

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