Economia

Publicado em 24 de Março às 16:22:44

Ata do Copom reforça viés dovish, mas mantém Comitê em compasso de espera

A ata da última reunião do Copom reforçou a leitura de um comitê com tom mais dovish, em linha com o comunicado divulgado na semana passada. Mesmo diante da escalada do conflito no Oriente Médio e da piora adicional das expectativas de inflação no período entre reuniões, o documento sinaliza que o plano de voo do Banco Central segue sendo o de reduzir gradualmente o grau de restrição monetária. Em nossa leitura, ao voltar a enfatizar os efeitos defasados e acumulados da política monetária contracionista sobre a economia brasileira, o Copom sugere que a barra para uma interrupção do ciclo de afrouxamento permanece elevada.

Ao mesmo tempo, a ata também transmite a imagem de um Copom em stand-by, mais dependente da evolução do cenário à frente. Chamou atenção o fato de o Comitê aparentemente trabalhar com uma premissa mais benigna para a trajetória do petróleo do que a sugerida pela curva de mercado. Em nossas simulações, caso o Brent seguisse a curva futura até o 4T26, a projeção para o horizonte relevante cairia de 3,5% para 3,2%, refletindo a forte queda esperada para os preços no segundo semestre. Esse ponto, somado à manutenção do balanço de riscos, sugere um Comitê relativamente mais construtivo com a hipótese de resolução do conflito no curto prazo, o que ajuda a explicar projeções para 2026 e para o horizonte relevante mais baixas do que o esperado.

Outro aspecto importante da ata foi a ênfase nas conquistas acumuladas ao longo dos últimos meses no processo de convergência da inflação, com menor destaque para a piora recente dos fundamentos. Em nossa avaliação, esse é um elemento adicional de viés dovish, na medida em que o documento não dá peso equivalente à deterioração da inflação de curto prazo nem à resiliência da atividade acima do esperado. Ainda assim, o comunicado trouxe um contraponto hawkish da ata ao reconhecer que as expectativas voltaram a se desancorar após o início do conflito e que, nesse ambiente, a política monetária precisa ser mais restritiva por mais tempo.

Em síntese, a ata reforça a percepção de um Comitê ainda mais data-dependent na calibração dos próximos passos. Nosso entendimento segue sendo o de que, caso o conflito continue pressionando os ativos, mas sem se transformar em um choque mais persistente, o Copom deve manter o ritmo de cortes de 25 bps no curto prazo. Diante desse quadro, revisamos nossa projeção para a Selic ao fim de 2026 de 12,0% para 12,5%, embora nosso cenário-base ainda contemple arrefecimento do conflito no segundo semestre, abrindo espaço para uma retomada de cortes de 50 bps após a reunião de junho.

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