Economia

Publicado em 18 de Março às 23:59:37

Bancos centrais agem dentro do esperado nos EUA e no Brasil

O banco central norte-americano (Federal Reserve) manteve a taxa de juros (Fed Funds rate) inalterada no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano na reunião dessa quarta-feira (18/03) conforme era o esperado.

A decisão não foi unânime, mas com um número menor de divergências em relação a reunião de janeiro, somente uma desta vez (Stephen Miran, indicado pelo presidente Trump) ante duas no início do ano (Stephen Miran e Christopher Waller).

A principal mudança trazida pelo comunicado foi a menção ao conflito no Oriente Médio, cujo impacto sobre as variáveis econômicas ainda se mostra incerto, de modo que mantém elevada a incerteza em torno da evolução do cenário econômico ao longo dos próximos meses.

Na coletiva de imprensa, o presidente do FED, Jerome Powell, reforçou a retomada de uma postura mais cautelosa (“wait and see”) pelo fato de os dois lados do mandato de emprego e inflação da autoridade monetária terem voltado a uma situação em que ambos se veem mais ameaçados. O quadro só não é pior no momento (risco de estagflação) por conta de os dados econômicos referentes ao primeiro bimestre desse ano terem apontado no sentido de uma recuperação da atividade. Powell também fez questão de frisar que uma estagflação nos mesmos moldes da década de 1970 não se aplicaria para o caso atual da economia norte americana.

Em relação a tabela de projeções que coleta as estimativas sobre uma gama de variáveis econômicas dos 19 membros que compõe o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), houve revisão altista tanto para o crescimento do PIB como para a inflação medida pelo PCE no triênio 2026-28. Já taxa de desemprego e a taxa neutra de juros sofreram apenas alterações marginais, com a primeira se situando próxima da taxa natural (4,4%) e a segunda saindo de 3,0% para 3,1%.

O famoso “gráfico de pontos” (dot plot) agora mostra 7 membros do FOMC não vendo espaço para corte de juros esse ano, outros 7 esperando apenas um corte de 25 pontos base e 5 projetando um afrouxamento monetário agregado de pelo menos 50 pontos base até o final do ano. Mesmo com um aumento considerável da incerteza, mantemos a nossa expectativa de que a retomada do ciclo de cortes de juros deve ocorrer apenas no último quadrimestre do ano (set/26-dez/26), e atingir um afrouxamento monetário de no máximo 50 bps, o que levaria a Fed Funds rate a encerrar 2026 no intervalo entre 3,00-3,25%.

Já no tocante ao banco central brasileiro, as apostas estavam amplamente concentradas em um corte da taxa básica de juros de 25 pontos base, o que se confirmou e levou a Selic para 14,75% ao ano. O comunicado veio marginalmente “dovish”, embora tenha apresentado argumentos em ambas as direções.

Do lado mais “hawkish” acabou se confirmando, conforme esperávamos, a retirada do “forward guidance” introduzido na reunião de janeiro. O motivo principal para isso é que conduzir a política monetária com menos graus de liberdade é algo contraproducente em um cenário de bastante volatilidade e incerteza em vista da relevância do preço do barril do petróleo para as projeções de inflação.

Curiosamente, o fato de as projeções de inflação no horizonte relevante não terem aumentado muito sugere que a incorporação dos efeitos do conflito no Oriente Médio no modelo do banco central foi limitada, apontando para uma visão mais construtiva dos diretores sobre os impactos da guerra na economia brasileira, sendo esse o ponto mais “dovish” do comunicado.

Em relação aos próximos passos da política monetária, em se mantendo o cenário de momento de continuidade do conflito, achamos que a atual diretoria está mais inclinada a dar continuidade ao ciclo de afrouxamento, com mais um corte de 25 pontos base na reunião de abril. Se por um lado o cenário teria que piorar muito (gargalos logísticos e preço do barril de petróleo continuarem aumentando) para o Copom interromper o ciclo de corte, por outro não achamos que os preços dos ativos tenham que retornar para os patamares pré-guerra para que o banco central acelere o ritmo de corte para 50 bps, bastando apenas uma reversão parcial e uma evolução do cenário doméstico de acordo com o esperado, existindo uma clara assimetria nesse sentido.

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