Economia

Publicado em 19 de Março às 20:02:25

Bancos Centrais em compassos diferentes

O dia de ontem foi marcado por decisões de política monetária nos EUA e no Brasil, evento conhecido como a super quarta de política monetária. Apesar das decisões em termos de taxa de juros para ambas as economias já terem sido amplamente antecipadas pelos agentes de mercado, importantes sinais puderam ser capturados nas comunicações de ambas as autarquias.

Em primeiro lugar, o Banco Central norte-americano (Fed) manteve a taxa de juro (Fed Fund rate) estável no intervalo entre 4,25%-4,50% a.a., ficando amplamente em linha com a expectativa do mercado. O comitê avalia que dado a elevação do grau de incerteza em torno do cenário econômico, sobretudo diante da agenda tarifária do presidente Trump, e a solidez dos indicadores da economia, o Fed se encontra em uma posição bastante confortável de esperar por uma maior clareza futura.

Cabe destacar que as projeções das variáveis econômicas feitas pelos diretores sugerem que a política tarifária deve ser responsável por elevar a perspectiva de inflação de curto prazo, da mesma forma em que a retaliação global seria responsável por uma desaceleração da atividade econômica. O balanço entre uma perspectiva de inflação mais alta e de atividade mais fraca fez com que as projeções para a fed funds rate ficasse estável, de modo que, a maioria dos diretores ainda projeta pelo menos 2 cortes em 2025.

Durante a coletiva de imprensa que sucedeu à divulgação do comunicado, o presidente do Fed, Jerome Powell, avaliou que a economia americana segue sólida, com um mercado de trabalho equilibrado que não é fonte de pressões inflacionárias, apesar da deterioração de alguns indicadores inflacionários, decorrentes das expectativas em torno do impacto da política tarifária sobre a inflação. Para Powell, o Fed encontra-se bem-posicionado em termos de política monetária para aguardar por uma maior visibilidade em torno do impacto da agenda econômica do governo Trump sobre as principais variáveis econômicas. Apesar de entender que a política tarifária é de viés altista para inflação, entende-se que esse processo deve ser transitório, não alterando a trajetória atual de convergência da inflação para a meta, apenas adiando este processo. Nesse contexto, Powell avaliou que não é ideal que a política monetária reaja a um movimento transitório de inflação, sinalizando que a barra para uma elevação na taxa de juro americana está muito alta.

Em relação ao Banco Central brasileiro, foi decidido, de forma unânime, elevar 1,0 p.p., de modo que, a taxa atingiu o patamar de 14,25% a.a., vindo amplamente em linha com o consenso de mercado. Cabe destacar que a alta de juros não foi o principal protagonista da decisão, mas sim a manutenção da indicação de uma nova alta na próxima reunião, mesmo que em menor magnitude. Com essa sinalização, foi afastado o risco de cauda de interrupção imediata do ciclo de alta de juros decorrente da adoção de uma postura mais leniente do BC com a inflação, a fim de se evitar uma desaceleração mais significativa da economia que contribuísse para piora da popularidade do governo atual.

Na nossa avaliação, o comunicado veio ligeiramente mais dovish do que o esperado por nós, refletindo a combinação entre um guidance explícito de redução do ritmo de aperto monetário ao invés de deixar a magnitude da próxima alta em aberto dado o cenário mais adverso no campo inflacionário. Além disso, cabe destacar que apesar da surpresa positiva nos dados de atividade econômica (mercado de trabalho e IBC-Br) em suas respectivas leituras para o mês de janeiro, o BC optou por adicionar à comunicação que observa sinais incipientes de moderação de dinamismo da economia.

Nesse sentido, por mais que a decisão da reunião de hoje ainda corrobore a nossa expectativa de que a Selic seja elevada até 15,0% a.a., que deve ser alcançado ao longo do segundo trimestre de 2025, com uma alta de 50 bps na reunião de maio e de 25 bps na reunião de junho. Entretanto, dada a percepção um pouco mais dove do comunicado, não descartamos que o ciclo seja encerrado na próxima reunião com uma alta de 50 bps, isto é, 14,75% a.a. de Selic terminal.

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