A entrada do conflito no Oriente Médio em sua quinta semana foi marcada por uma intensificação relevante das tensões ao longo das últimas 48 horas. O cenário recente incorpora a participação mais ativa das forças Houthis apoiadas pelo Irã, bem como o envio de aproximadamente 3.500 tropas adicionais dos Estados Unidos à região. Apesar do anúncio do presidente americano, Donald Trump, de suspensão temporária de ataques às instalações energéticas iranianas até 6 de abril, Israel manteve ofensivas em Teerã, evidenciando a dificuldade de coordenação entre os aliados e reforçando a leitura de escalada do conflito.
Adicionalmente, há relatos de que o Pentágono e o Departamento de Defesa dos EUA estariam avaliando a possibilidade de uma operação terrestre no Irã, o que marcaria uma mudança qualitativa importante na natureza do conflito. Em particular, a hipótese de uma ofensiva sobre a Ilha de Kharg – responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano – eleva significativamente os riscos de disrupção na oferta global de energia, ampliando o potencial de impactos sobre os preços de commodities e a estabilidade da região.
No front logístico, a persistente interrupção do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz segue como um dos principais vetores de preocupação. Diante desse cenário, a Casa Branca endureceu o tom, sinalizando que poderá atingir de forma mais contundente a infraestrutura energética e de dessalinização do Irã caso a normalização do tráfego marítimo não ocorra em breve. Ainda que o governo americano continue mencionando a existência de negociações em curso, os mercados seguem céticos quanto à possibilidade de uma resolução rápida, diante do elevado grau de desalinhamento entre as partes.
Do ponto de vista macroeconômico, os desdobramentos do conflito ao longo de março já se refletem em uma deterioração do cenário inflacionário, inclusive no Brasil. As expectativas de inflação para horizontes mais longos voltaram a se desancorar, ao passo que a projeção para a taxa Selic terminal foi revisada de 12,0% para 12,5% a.a. O ambiente externo, que anteriormente contribuía para a desinflação, passou a atuar na direção oposta, elevando a dependência do ajuste via demanda doméstica. Nesse contexto, avaliamos que os riscos recentes reforçam a necessidade de uma condução mais cautelosa da política monetária por parte do Copom.
