Os ativos de risco globais registraram desempenho positivo ao longo do dia de ontem, impulsionados pelas declarações do governo americano de que negociações com o Irã estariam em andamento. O movimento foi interpretado pelo mercado como um possível sinal de redução das tensões no curto prazo, especialmente após a escalada recente do conflito. Ainda assim, a reação dos ativos ocorre em um contexto de elevada incerteza, uma vez que as sinalizações de avanço diplomático contrastam com a postura mais dura adotada por Teerã nos últimos dias.
De fato, o governo iraniano rejeitou publicamente as propostas apresentadas pelos Estados Unidos e tem condicionado qualquer cessar-fogo a um conjunto de exigências consideradas complexas. Entre elas, destacam-se garantias de que EUA e Israel não retomarão os ataques, compensações por danos causados durante o conflito e o reconhecimento de sua autoridade sobre o Estreito de Ormuz. Essas condições ampliam a dificuldade de convergência entre as partes e reforçam a percepção de que uma solução negociada permanece distante no horizonte imediato.
Por outro lado, a proposta americana envolve um elevado grau de exigência, centrado no desarmamento e em restrições significativas ao programa nuclear iraniano. O plano inclui o desmantelamento de instalações nucleares, a limitação do arsenal balístico, o fim do enriquecimento de urânio em território iraniano e maior transparência por meio de inspeções internacionais, em troca de alívio de sanções e cooperação em energia nuclear civil. Embora contemple pontos relevantes para a estabilização regional – como a manutenção da livre navegação no Estreito de Ormuz -, o nível de concessões exigido do Irã sugere baixa probabilidade de aceitação nos termos atuais.
Além da divergência substantiva entre as propostas, o ambiente político interno no Irã adiciona complexidade ao processo. A possível liderança das negociações por Mohammad Ghalibaf, figura associada a uma linha mais dura e fortemente alinhada ao regime, reduz ainda mais a probabilidade de concessões relevantes por parte iraniana no curto prazo. Nesse contexto, avaliamos que a probabilidade de um acordo no curtíssimo prazo permanece baixa. A falta de convergência entre as partes, somada a objetivos de curto prazo distintos entre EUA e Israel, sugere a continuidade do conflito ao longo das próximas semanas, mantendo elevados os riscos de interrupções na infraestrutura energética da região e ampliando o potencial de impactos econômicos mais persistentes, especialmente via preços de commodities.
