Ontem o IBGE divulgou o IPCA15, número que antecipa a leitura do IPCA de agosto (índice oficial de inflação). De acordo com o IBGE, o preço médio da cesta típica de consumo dos brasileiros coletado entre 15/jul-15/ago está -0,14% m/m mais baixo do que o preço médio da mesma cesta coletada entre 15/jun-15/jul.
Em um primeiro olhar nesse número, é tentador inferir que toda a cesta de consumo do brasileiro ficou mais barata entre julho e agosto. Essa conclusão é, infelizmente, equivocada. A queda no nível médio é causada essencialmente por um único item da cesta, que caiu tanto a ponto de puxar toda a variação média, e não porque todos os preços caíram. Esse item é a energia elétrica, que registrou queda de -4,93% m/m em agosto. Tirando ela da cesta, a variação do IPCA15 de agosto seria de +0,06% m/m.
A queda em energia elétrica é decorrente de uma política pública chamada “bônus de itaipu”. O bônus de itaipu é um desconto da conta de luz dado aos brasileiros por um único mês, sendo esse desconto financiado pelo resultado financeiro da usina hidrelétrica de Itaipu de dois anos antes. A distribuição desse bônus depende de vários fatores, sendo alguns políticos, mas é sazonalmente distribuído em agosto e/ou janeiro. O desconto ocorre somente no mês da distribuição, ou seja, no próximo mês, o preço médio do kWh volta ao valor anterior. Toda a queda em energia elétrica será integralmente devolvida com uma alta de magnitude similar em setembro. Em agosto, o índice cheio do IPCA deve cair -0,10% m/m, mas subir em setembro para algo em torno de +0,63% m/m.
Tornando esse ponto claro, podemos discutir os demais itens da cesta. Mesmo retirando energia elétrica, a variação de +0,06% m/m é um aumento muito pequeno. Esse movimento é atribuído a uma queda de -1,02% m/m nos alimentos, puxado por proteínas e alimentos in-natura. Soma-se isso a uma queda no preço dos automóveis causado pela medida do IPI verde, que traz descontos fiscais para carros “sustentáveis”. A apreciação cambial ao longo do primeiro semestre do ano explica a dinâmica baixista como um todo em alimentos e bens industriais.
Por outro lado, serviços registraram incríveis +0,50% m/m de alta, enquanto nossa projeção era de +0,25% m/m e as expectativas de mercado em +0,24% m/m. Parte dessa alta é explicada por passagem aérea (item volátil de difícil previsão) e reajuste sazonal nas mensalidades das escolas e cursos. Mas mais da metade dessa surpresa vem de itens sensíveis a demanda e muito relevantes para a dinâmica inflacionária de médio prazo, como bar/restaurantes e serviços intensivos em trabalho. Mais uma vez, essa leitura de serviços corrobora a dinâmica resiliente atual do mercado de trabalho, com salários reais crescendo acima da produtividade e taxa de desemprego em território inflacionário.
Apesar de 65% da cesta do IPCA registrar variação negativa ou neutra de preços, esses 35% restantes trazem muita preocupação devido sua correlação elevada com as condições de demanda. Em um ciclo desinflacionário, a queda da demanda é premissa necessária, e isso deve se traduzir necessariamente em queda na inflação de serviços. O comportamento desse grupo seguirá trazendo preocupações para o ciclo de corte de juros em 2026.