Ontem o IBGE divulgou o IPCA-15 de fevereiro, que compara o nível médio de preços do dia 15 de fevereiro em relação ao dia 15 de janeiro. O IPCA-15 veio bem abaixo da projeção de mercado (1,37% m/m), registrando variação de 1,23% m/m. Essa alta do índice em fevereiro refere-se à volta do preço normal da conta de luz, uma vez que em janeiro houve redução devido a distribuição do bônus de Itaipu, bem como ajuste sazonal de preços nos cursos regulares.
Desconsiderando esse impacto já previsto do preço de energia elétrica, os demais grupos trazem números bem favoráveis, mas ainda assim levantam um alerta quando olhamos a composição. De fato, grupos sensíveis a demanda, como alimentação fora do domicílio, desaceleraram de forma significativa, mas, em parte, puxados por um ou dois itens no grupo inteiro. Além disso, alguns itens com bastante volatilidade puxaram bem algumas categorias. Passagem aérea explica boa parte da surpresa baixista nos serviços e perfumes boa parte da surpresa altista nos industriais.
Na composição, dois pontos chamaram nossa atenção. Primeiro, apesar das boas surpresas no headline de alguns grupos, a média dos núcleos veio como esperada, 0,62% m/m, sugerindo que esse qualitativo melhor não se estende para o IPCA como um todo, reforçando que o nível ainda segue bastante elevado e a exaustão não é clara. O segundo ponto, é que aluguel e condomínio, itens de bastante peso, registraram a maior alta desde fevereiro de 2020. Isso sugere uma elevação na margem nos custos do produtor, que já passam (ou passarão) a enfrentar aluguéis mais elevados, especialmente nos serviços.
O IPCA-15 de fevereiro corrobora nosso cenário atual de arrefecimento da inflação no curto prazo. No entanto, vemos uma inflação acelerando no médio prazo, conforme novos impulsos fiscais tomam conta e conforme a economia é inundada por déficits nominais cada vez mais elevados. O ponto sobre aluguéis e condomínios traz uma preocupação, pois, devido a rigidez dos preços dos bens e serviços na economia, o repasse de custos para os preços é lento e persistente, e acontece em todas as categorias (inclusive administrados), trazendo um viés altista para nossa expectativa de arrefecimento inflacionário no curto prazo.
O IPCA-15 traz boas notícias, mas ainda há um longo caminho pela frente…