Economia

Publicado em 30 de Dezembro às 15:49:20

Mercado de trabalho resiliente reforça cautela na política monetária

O mercado de trabalho brasileiro encerrou novembro mostrando resiliência acima do esperado, mesmo em um ambiente macroeconômico mais restritivo. Pelo CAGED, a criação líquida de 85,9 mil vagas formais superou o consenso e reforçou a leitura de desaceleração gradual, sem ruptura abrupta da atividade. Embora o ritmo seja inferior ao observado em 2024, o saldo acumulado no ano segue elevado e compatível com um mercado de trabalho ainda aquecido, em linha com a nossa projeção de 1,45 milhão de vagas formais em 2025.

A composição setorial, no entanto, revela sinais mais heterogêneos. Comércio e serviços concentraram a maior parte das contratações, enquanto indústria, agropecuária e construção registraram fechamento líquido de vagas. Ainda assim, indicadores qualitativos seguem apontando aperto no mercado: a razão entre salários de demissão e admissão permanece próxima de 96%, patamar historicamente elevado, e a taxa de desligamentos voluntários continua alta, sinalizando confiança do trabalhador e baixa ociosidade da mão de obra.

Essa leitura é corroborada pela PNAD Contínua. A taxa de desemprego caiu para 5,2%, renovando o menor nível da série histórica, em movimento acompanhado por aumento da ocupação e da força de trabalho. Diferentemente de episódios anteriores, a queda do desemprego não decorreu apenas da retração da participação, mas de um avanço efetivo das contratações, possivelmente influenciado por antecipações sazonais de fim de ano.

Além disso, os rendimentos reais seguem em trajetória de alta, com crescimento anual de 4,5% e nova máxima histórica da massa de renda real. Esse quadro sustenta o consumo e ajuda a explicar a resiliência da atividade, mas também reforça a avaliação de que o mercado de trabalho continua sendo uma fonte relevante de pressão inflacionária, especialmente no segmento de serviços, cuja dinâmica permanece incompatível com uma convergência confortável da inflação à meta.

Do ponto de vista de política monetária, os dados reforçam a necessidade de cautela adicional por parte do Banco Central. A combinação de desemprego abaixo do nível neutro, crescimento real da renda e mercado de trabalho ainda apertado sugere que o processo de desinflação tende a ser mais lento. Nesse contexto, os números recentes corroboram a perspectiva de que eventuais cortes na Selic devem ocorrer apenas de forma gradual e parcimoniosa, com início esperado a partir de março de 2026, preservando uma postura restritiva por um período prolongado.

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