Em janeiro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,33% na comparação mensal, resultado ligeiramente acima da nossa projeção (0,29% m/m) e muito próximo das expectativas de mercado (0,32% m/m, Broadcast+). Com isso, a inflação acumula alta de 4,44% em 12 meses.
Embora o número cheio tenha ficado marginalmente acima do esperado, a composição do índice veio, em linhas gerais, conforme o previsto. As principais surpresas concentraram-se em itens mais voláteis, que costumam ter menor relação com os fundamentos da economia, com destaque para o grupo de bens industriais. Por outro lado, os grupos de alimentação e serviços apresentaram comportamento mais benigno do que o projetado.
Em nossa avaliação, a leitura de janeiro transmite uma mensagem ligeiramente pior do que o esperado no número cheio. A surpresa altista mais relevante veio do grupo de bens industriais, que, em tese, deveria se beneficiar da apreciação do real observada nos últimos meses. Embora parte dessa surpresa tenha sido explicada por itens mais voláteis, aproximadamente metade do desvio negativo decorreu de pressões mais disseminadas, especialmente em itens de natureza mais inercial, como automóveis. Esse resultado é menos favorável e motivou revisões altistas para a inflação no curto prazo.
Apesar disso, serviços compensaram com uma leitura mais otimista, o destaque foi o desempenho dos intensivos em trabalho, que registraram surpresa baixista relevante, em magnitude superior aos erros usuais de projeção. Esse resultado sugere um qualitativo melhor do que o esperado no curto prazo, mesmo em um contexto de mercado de trabalho ainda apertado. Ainda assim, o acumulado em 12 meses desse subgrupo permanece elevado, em 6,70%, refletindo a resiliência do emprego e da renda.
De forma geral, contudo, o resultado permanece alinhado à nossa visão central. A inflação segue, e deve continuar, se beneficiando de um ambiente internacional mais incerto, que tem favorecido a valorização da moeda doméstica, além dos efeitos de uma política monetária ainda bastante contracionista. Esses fatores ajudam a contrabalançar pressões inflacionárias internas, especialmente aquelas ligadas ao mercado de trabalho, cuja inflexão ainda não se materializou de forma clara.
